O cenário não poderia ser melhor, o maior templo do futebol mundial, o estádio do Maracanã no Rio de Janeiro. E contra seu time de torcedor, que Pelé guardava com carinho por considerar o time que abriu as portas para sua carreira profissional posterior, o Vasco da Gama. O milésimo gol carregava enorme expectativa ao longo daquele mês de novembro de 1969. Três dias antes, o zagueiro Nildo “Birro Doido” impedia em cima da linha que o esperado gol acontecesse em Salvador. Lance que gerou vaias ou aplausos, dependendo de quem conta a história, mas que marcou a vida do jogador do Bahia. Na partida anterior, contra o Botafogo de João Pessoa, um contrariado Pelé marcou de pênalti, mas após contusão do goleiro assumiu a meta santista e guardou o feito para o jogo seguinte.
Naquele quarta-feira, 19 de novembro de 1969, após algumas tentativas frustradas, Pelé sofreu um pênalti aos 33 minutos do segundo tempo. O estádio inteiro gritou seu nome, silenciando momentaneamente narrador e comentarista que discutiam se foi ou não falta: “Pelé, Pelé, Pelé”. Seus companheiros de equipe ficaram alinhados no meio do campo, tamanha a certeza de que o Rei não perderia o gol. Enquanto alguns jogadores vascaínos discutiam com o juiz, outro pisoteava a marca da bola para atrapalhar a iminente cobrança do craque. Por sua vez, Pelé consolava o zagueiro que marcou a penalidade sobre ele próprio. Antes de cobrar, Pelé virou-se de costas para o gol, olhou para seus distantes companheiros de equipe por um instante e foi ao encontro do feito inédito. Com direito a sua tradicional paradinha, fez o goleiro argentino Andrada voar, tocar a bola, mas sem conseguir pará-la.
Pelé, entrou no gol e beijou a bola no fundo das redes, enquanto o estádio entrava em êxtase. Para se ter uma ideia, antes de conseguir abraçar seus companheiros de equipe, foi carregado nos braços numa inusitada invasão de profissionais que trabalhavam no jogo, a maioria da imprensa esportiva. Um ofegante Pelé pronunciou palavras fortes, que refletem ao mesmo tempo uma inocência em relação às causas dos problemas sociais e uma preocupação genuína, real, em relação ao próprio povo. O próprio tom usado na dedicatória do milésimo gol mostra não se tratar de algo meramente demagógico, mas uma manifestação verdadeira do jogador:
“Pelo amor de Deus, o povo brasileiro não pode esquecer das criancinhas, as criancinhas pobres, as casas de caridade. Vamos pensar nisso. Não vamos pensar só em festa. Pelo amor de Deus, olha o Natal das crianças, olha Natal das pessoas pobres, dos velhinhos cegos. Tem tantas instituições de caridade por aí. Pelo amor de Deus, vamos pensar nessas pessoas. Não vamos pensar só em festa. Ouça o que eu estou falando. É um apelo, pelo amor de Deus. Muito obrigado.”
Esquerdistas que nunca tomaram um tapa da polícia vieram depois tentar avacalhar a declaração dada em meio à ditadura militar no Brasil. Aparentemente, Pelé deveria incorporar Marx e gritar ao mundo “proletários do mundo, uni-vos!” ou “abaixo a ditadura”, mesmo sem ter uma formação política e condições concretas para fazer isso. Mas o fato que persiste é que “as criancinhas pobres” ainda precisam de ajuda e o pedido de Pelé segue por ser atendido no país e no mundo inteiro.
Em seguida, Pelé realizou uma volta olímpica no Maracanã, vestindo a camisa 1000 do Vasco e sob os aplausos de santistas, vascaínos e de todos os amantes do futebol presentes, num gesto possível apenas para ele. Quem conhece o que é a rivalidade entre as torcidas de clubes diferentes sabe que a façanha é ímpar. Cerca de 70 mil pessoas tiveram o privilégio de assistir o feito do Rei Pelé há poucos meses da sua coroação definitiva na Copa do Mundo de 1970 no México. Anos depois, chegou à marca de mil gols apenas com a camisa do Santos, outra marca absurda. Pelé definitivamente não pode ser superado, para além dos números conquistou a todos no futebol, nunca uma jogador rival será tão aclamado quanto ele.




