“O Brasil tem 200 milhões de técnicos”, essa expressão muito conhecida para quem acompanha futebol revela a paixão que o brasileiro tem por esse esporte, transformado em arte no País. Se essa expressão é positiva por revelar a relação passional entre o povo e o futebol, quando se trata da imprensa capitalista ou dos chamados formadores de opinião, de esquerda e de direita, ela é um verdadeiro veneno.
Desde o início da Copa do Mundo, as escolhas do técnico Tite entre os convocados serviram para abrir uma campanha desleal contra os jogadores e a comissão técnica. O que foi falado, por exemplo, sobre a convocação de Daniel Alves, considerado velho, beirava o grotesco. Quando o assunto é futebol, a baixaria está totalmente liberada na imprensa nacional. Tite e Daniel Alves foram xingados de tudo.
Algum ingênuo poderia pensar que essa imprensa está realmente preocupada com a idade dos jogadores, mas não é isso. Havia dois motivos reais para baixaria: um econômico e outro político. O político está relacionado com a campanha geral contra a Seleção, uma pressão colocada sobre os jogadores com o fim de desestabilizá-los.
O econômico é que como jogador próximo da aposentadoria, a convocação de Daniel Alves não servia para valorizar o jogador. É interessante que muitos órgãos da imprensa acusaram Tite de estar obedecendo algum esquema obscuro por ter levado o lateral, quando na verdade é o oposto. Pelo menos no que diz respeito às pressões dos monopólios capitalistas e dos empresários, a convocação de Dani Alves não obedecia a nenhum esquema aparente.
Esse caso revela que estamos diante de uma imprensa palpiteira. Esses palpites no fim das contas servem apenas para desmoralizar os jogadores.
Com a derrota do Brasil nos pênaltis diante da Croácia, os palpiteiros da imprensa apareceram com força. Uma horda de grandes “gênios” do futebol apareceu para dar receitas de como Tite poderia evitar a desclassificação. Ouviu-se de tudo, desde a escalação inicial do time até a ordem dos batedores dos penais. Inventaram até mesmo a ideia de que Tite teria deixado o time ir para o ataque quando estava ganhando, o que resultou no gol de empate a poucos minutos do fim, quando ficou provado depois que tanto Tite quanto Neymar mandaram a zaga se recompor.
Aproveitando a onda dos palpiteiros, elementos da esquerda pequeno-burguesa, que gostam de imitar a imprensa burguesa, se aventuraram a dar suas receitas para Tite. Jones Manoel, por exemplo, publicou no seu Twitter a opinião “dele” sobre a derrota.
a) Brasil marcou pouco em pressão. Os atacantes praticamente não mordiam na saída de bola; b) Tite fez péssimas substituições; c) perdemos gol que não é aceitável em mata-mata; d) time sem catimba, emocional fraco, sem malícia e líder em campo; e) péssima escolha dos batedores.
Não sabemos se ele é só mais um dos 200 milhões de palpiteiros ou se está pleiteando uma vaga como técnico da Seleção. Fato é que sua opinião não vale nada. Ao menos serviu para descobrir mais um não-talento de Jones Manoel, depois da política, o futebol.
Não é nossa intenção pegar no pé do youtuber do PCB, no final das contas, cada um fala o que quer. Mas é importante o exemplo já que Jones Manoel dá seus palpites com a pretensão de um analista que quer influenciar de alguma maneira as pessoas que o seguem, não por causa do futebol, mas por causa da política.
E aí está um ponto importante. A compreensão da derrota do Brasil não está nos detalhes futebolísticos, mas na própria política. É curioso que uma pessoa de esquerda, com pretensões a dar palpites sobre a política, abandone a política na hora de dar a opinião sobre o futebol.
Os pretensos analistas ignoram os interesses envolvidos por detrás do futebol. Ignoram algo muito importante: a Seleção Brasileira é de longe a maior vitoriosa no futebol, esporte mais lucrativo do mundo. Aqui temos uma contradição que qualquer esquerdista não deveria ignorar, mas todos ignoram. Um país pobre domina o esporte mais lucrativo.
A partir dessa compreensão, o brasileiro deveria partir do pressuposto que tudo será feito para evitar uma vitória do Brasil. Desde a manipulação da arbitragem até o jogo desleal do adversário, passando pela gigantesca pressão psicológica produzida pela propaganda da imprensa contra os jogadores.
Nenhuma receita de futebol é capaz de resolver esse problema. A escalação de Tite foi errada? Pode até ser, mas o Brasil continua sendo superior mesmo assim. A tática de Tite foi errada? Pode ser, mas o Brasil continua sendo superior. A postura dos jogadores deixou a desejar? Pode ser, mas o fato é que mesmo jogando com 60% de sua capacidade a Seleção é superior às outras.
Para quem acha que o futebol brasileiro não é superior, convidamos a assistir aos jogos todos da Copa e comparar a capacidade dos jogadores brasileiros com os demais. É bem óbvio, basta não estar com a mente fechada pela propaganda europeia.
No fim das contas, com decisões diferentes, o Brasil poderia ou não ter ganhado o jogo. Com as decisões tomadas por Tite, o Brasil poderia ter ganhado o jogo.
O que explica então que uma equipe superior acabe se desclassificando? A política. O Brasil não tem que enfrentar apenas os adversários em campo, mas os adversários fora dele. Há uma pressão gigantesca contra os jogadores que qualquer pessoa que acompanhou a imprensa nessa Copa deveria ter percebido: xingaram os jogadores, falaram mal das dancinhas, falaram da carne de ouro como se eles fossem os únicos a irem ao restaurante, falaram mal até da geração do penta.
Os “geniais” analistas táticos da imprensa e da esquerda, como Jones Manoel, não levam isso em conta na hora de dar a sua receita mágica. A grande pergunta é: se eles fossem profissionais, lá no Catar, dentro de campo, como eles enfrentam todas as adversidades. Conhecendo bem a esquerda pequeno-burguesa, ela não aguentaria a primeira crítica da sagrada imprensa golpista.
O futebol é coisa séria, é coisa para profissionais, para pessoas que vivem 24 horas por dia naquele ambiente. Escrever de um escritório ou da sala de casa não tem nada a ver com a realidade do futebol. Um profissional precisa lidar com uma série de problemas que os “gênios” palpiteiros não têm a menor ideia que acontecem.
Essas tentativas de dar receitas e dar palpites sobre detalhes técnicos revelam que a esquerda não consegue compreender o que é o futebol para a população. O povo não aprecia o futebol como se fosse uma partida de tênis, o futebol é uma paixão.
O povo tem uma relação com a arte do futebol. Não tem nada a ver com números e esquema tático, menos ainda com a força física. Isso tudo só serve como instrumento do secundário da arte de jogar futebol. O povo quer ver belas jogadas, criatividade, dança, música. Belas jogadas como o gol de voleio de Richarlisson ou o gol de Neymar contra a Croácia. Nenhuma seleção conseguiu chegar nem perto de fazer golaços como esses.
O futebol transformou-se em parte fundamental da cultura nacional. É uma conquista das massas populares terem desenvolvido um novo jogo, o futebol arte, que dominou o mundo todo. O futebol é parte integrante da vida da população pobre desde criança. O povo quer ver no triunfo da Seleção o seu próprio triunfo.
São essas considerações políticas que os “analistas” da esquerda e obviamente da direita não consideram. O que mostra que tanto um quanto outro não têm eles mesmo uma ligação profunda com o povo e com o esporte do povo. Por isso, ao invés de tentar entender os problemas profundos relacionados ao futebol, perdem-se em receitas prontas, esquemas pseudo matemáticos.
Deveriam, os de direita e os de esquerda, aprender com João Saldanha que, além de comunista, era realmente um profissional do futebol e entendia profundamente o que era o futebol brasileiro:
Assim, quem quiser explicar um jogo de futebol moderno dizendo ou escrevendo que está, ou aquela equipe jogou 4-2-4 ou 5-2-3, ou se quiserem ainda 4-4-2 e ainda 4-3-3, está enganando os leitores ou ouvintes.
Estou falando, é claro, sobre futebol moderno. Qualquer futebol numérico, nos dias de hoje, é antiquado. Qualquer equipe que jogar uma partida e no dia seguinte o comentarista puder dizer aritmeticamente ou geograficamente como jogou, isto significa que a tal equipe jogou futebol antigo.
Para não confundir, Saldanha considerava corretamente o futebol-arte brasileiro como o futebol moderno. O futebol europeu, de força e pseudo racional, é o futebol antigo e retrógrado.





