Um militante inexperiente às vezes se confundem com determinadas ações de propaganda. É muito comum na esquerda pequeno-burguesa, a substituição da luta real pela mera ação propagandística.
Assim, um sindicalista pelego, que tem uma política direitista, pode aparecer, em determinado momento e sob a pressão das bases, como um radical. Faz discurso combativo, diz que defende a greve, alguns até defendem o piquete, mas na hora “H”, se sua política pelega prevalecer sobre os trabalhadores, eles entregam a greve na primeira proposta dos patrões.
É assim também com a política geral da esquerda. Quantas vezes não vemos um parlamentar, que faz qualquer negócio por um voto e pelo seu cargo e está envolvido até o pescoço em acordos e conchavos com a direita, fazer discurso peseudo-radical assim que sobe num carro de som em uma manifestação?
Esse é o conteúdo do episódio mais aloprado da esquerda nacional na semana que passou. Guilherme Boulos juntou alguns militantes do PSOL e do MTST e entrou no vão livre da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), segundo ele para protestar contra a fome e contra Bolsonaro.
O passei pelo vão livra foi apresentado como grande ato combativo, não apenas pelo próprio Boulos, mas pela imprensa golpista.
A imprensa capitalista, que ao menor sinal de ação direta da esquerda, abre seu arsenal de calúnias – bandidos, vândalos, terroristas, irresponsáveis… – elegeu a ação de Boulos como grande ato combativo. Um ato de “ativistas”, que belo!
Para o militante inexperiente mencionado acima, a propaganda pode enganar. Mas não se enganaem. A ação de Guilherme Boulos não apenas não tem nada de combativa, foi apoiada pela burguesia, como ela contribui para a derrota do movimento.
É o caso do sindicalista pelego que depois de muita propaganda e muito discurso entrega a greve para o patrão. A ação publicitária de Guilherme Boulos leva a uma política: a da frente ampla com a direita. E essa é a política de Boulos.
Sua ação foi cuidadosamente coordenada e combinada com a burguesia. Aparecer com radical é parte da manobra da frente ampla que Boulos cumpre um papel importante do ponto de vista da esquerda. Ele é um dos que procuram justifica-la pela esquerda. Se dependesse apenas de FHC, João Doria ou a rede Globo, a manobra seria bem mais difícil.
Antes que nos esqueçamos, a frente ampla também pode ser chamada agora de terceira via. Por isso, os maiores defensores da terceira via não atacaram a ação de Boulos. Boulos não teve o tratamento dispensado à esquerda sempre que esta faz uma ação direta. Mas justiça seja feita, de fato, a ação foi muito “responsável” do jeito que gosta a burguesia: entraram num vão livre, portanto sem maiores problemas, desavenças com seguranças, polícia etc, ficaram apenas uma hora e saíram para o lado de fora. O próprio mercado financeiro achou a ação muito exemplar, afirmando que não houve problemas no pregão.
Isso porque a ação na Bovespa não foi nenhuma mostra de radicalismo. Deram um passeio ali pelo Centro Histórico de São Paulo, gritando algumas palavras de ordem, tiraram algumas fotos para a imprensa. Um golpe publicitário e logicamente, eleitoral.