A burguesia busca alimentar em certos setores da esquerda a ilusão de que ela seria democrática e estaria contra o governo Bolsonaro. Assim, vários setores reproduziram e até certo ponto “comemoraram” no dia de ontem coluna do ultrarreacionário jornalista William Waack no jornal O Estado de S. Paulo, que afirma que “diante dos olhos das principais elites da economia brasileira Jair Bolsonaro repete uma conhecida trajetória. De mal menor, está virando aos olhos dessas elites o pior dos males“.
No artigo, Waack, de forma um tanto quanto cínica, conclui que “não surgiu ainda dessas conversas, que estão se intensificando, se o melhor caminho para sanar a maluquice que emana do Planalto é acelerar um impeachment ou articular uma terceira via – à qual a turma do dinheiro está, sim, se dedicando”. Isso quando é por demais óbvio que os principais controladores do PIB nacional, as instituições que controlam e os partidos golpistas estão empenhados na segunda alternativa, uma vez que não endossaram um único pedido dos mais de 120 protocolados até o momento e quando dão seguidas mostras de capitulação diante do contra-ataque de Bolsonaro. Inclusive, “abrindo alas” como fez o governador paulista, João Doria (PSDB), que presenteou o presidente com a concessão da Avenida Paulista para que ele desfile fazendo campanha em favor do golpe, ao mesmo tempo em que tentou – sem êxito – vetar a realização de ato público da esquerda, dos trabalhadores.
Quem acompanha mais atentamente a situação não pode ter dúvidas de que a “oposição” da direita (que se denomina de centro) não passa de um jogo de interesses eleitorais, que seus ataques a Bolsonaro, buscam – no máximo – estabelecer algum controle sobre ele e, principalmente, estabelecer a direita, e seus chefes, como possíveis candidatos da “terceira via”, cujo objetivo principal é derrotar o povo e sua liderança, Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo que, para isso, precisem apoiar Bolsonaro, como fizeram em 2018.
Se tivesse a certeza de que não abriria uma crise, a burguesia até poderia tirar Bolsonaro e substituí-lo por alguém de mais confiança. Mas como sabe que neste momento a situação não permite, ela desgasta o governo para tentar preparar a terceira etapa do golpe e eleger um candidato da “terceira via”, em 2022.
O posicionamento da Febraban e da FIESP, adiando a publicação do seu manifesto com críticas a Bolsonaro, comprova isso. Diante do agravamento da crise econômica, do receio de uma explosão da revolta popular, e principalmente após Bolsonaro “mostrar os dentes”, a burguesia percebe que não está fácil a situação e recua.
As declarações dos dirigentes da Febraban mostram que a burguesia não leva a sério a luta contra Bolsonaro e sinalizam que ela pode acabar apoiando Bolsonaro em 2022, caso não consiga uma alternativa da terceira via para derrotar a esquerda e os trabalhadores (ou seja, Lula) nas eleições.
Essa situação exige da esquerda a ruptura total com a política de conciliação e capitulação diante da direita, da defesa da frente ampla com os golpistas em nome de que isso levaria a uma vitória contra Bolsonaro, beneficiando o avanço da luta do povo. Nada pode ser mais enganoso.
A derrota de Bolsonaro e de toda a direita não passa pelas mão dos que deram o golpe e se juntam ao capitão quando se trata de atacar os trabalhadores e todo o povo. Mas, definitivamente, pela mobilização nas ruas dos trabalhadores e da juventude e de suas organizações de luta, com total independência dessa burguesia covarde e impotente.





