O desespero é um péssimo conselheiro. Diante da falta de programa para entender e enfrentar a situação, a esquerda se abraça aos seus algozes, achando talvez que será poupada pela onda de autoritarismo que ela mesma ajuda a impulsionar.
Completamente perdidos no meio das disputas entre setores da burguesia, esses setores exaltaram diversos ministros do STF nos últimos anos e a bola da vez é o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso. Com a chancela da esquerda, o judiciário vem legislando, o que não é sua atribuição, e atropelando direitos democráticos, enquanto deveria ser supostamente o “defensor da constituição”.
A disputa em torno do voto impresso serviu como mais uma oportunidade para a burguesia arrastar a esquerda para baixo das suas asas. Sob o pretexto de se opor a qualquer posição do ilegítimo presidente, a esquerda embarcou numa cega defesa da suposta democracia brasileira. Sem analisar concretamente as questões em disputa e muito menos as forças políticas envolvidas, a esquerda tem servido como um papagaio dos setores mais tradicionais da burguesia.
Nessa lógica, questionar a possibilidade de fraudes nas eleições, se opor à ingerência europeia na Amazônia ou à própria existência de um Supremo Tribunal Federal seria “bolsonarista”, enquanto que, por oposição, seria “democrático” censurar a discussão sobre a possibilidade de auditoria nos votos, ceder o controle de mais da metade do território nacional ao imperialismo e defender uma aberração institucional como a ditadura do STF.
Quando o tucano Alexandre de Moraes determinou a prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira, num ato flagrantemente antidemocrático, setores da esquerda o alçaram ao posto de “combatente antifascista”. Pouco depois, o mesmo dispositivo foi usado para perseguir a esquerda, que segue insistindo no mesmo erro.
Dos poderes institucionais, o judiciário é de longe o mais antidemocrático, pois os juízes não são eleitos e também não podem ser exonerados pelo povo. No STF, o cargo é quase vitalício, o que deveria por si só chocar essa esquerda tão preocupada em defender algo que se pareça com uma “democracia”.
Essa “defesa da democracia” ficou evidente durante o golpe de estado de 2016, quando a instituição deu seu aval para o absurdo processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Aliás, os principais fatos do processo golpista inaugurado em 2016 passaram pelo STF, a prisão de Lula antes da tramitação completa da sentença e seu impedimento nas últimas eleições.
Nas eleições de 2018, o “paladino da democracia” Luís Roberto Barroso teve papel importante na fraude eleitoral, pois barrou ilegalmente a candidatura de Lula e pavimentou o caminho para a vitória do candidato azarão da direita. Agora, Barroso recebe apoio da esquerda para afirmar que as eleições brasileiras são “à prova de bala”, figurariam inclusive entre as mais limpas e isentas do mundo, embora a imensa maioria dos países não use a “inviolável” urna eletrônica sem impressão de voto, como temos por aqui.
Ao invés de fazer propaganda gratuita para o que há de pior na política brasileira, é preciso ter um programa democrático. Os setores mais reacionários do Estado brasileiro não podem ser aplaudidos por quem representa os interesses populares. Sob o pretexto de combater o fascismo, estão ajudando a fortalecer justamente o Estado fascista.





