A depender dos golpistas, uma nova etapa de incriminação dos movimentos sociais será iniciada no próximo período e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) já foi nomeado pelas forças repressivas como a primeira organização a ser “abatida”nessa ofensiva.
O governo golpista de Temer aproveitou a “festa da democracia”e brindou a população brasileira com o “democrático” decreto-lei 9.527 de 15 de outubro de 2018, que cria força-tarefa composta de “notáveis vestais” responsáveis por debater ações direcionadas para o enfrentamento de “organizações criminosas que afrontam o Estado brasileiro e suas instituições”.
Tendo como coordenador o general Sérgio Etchegoyen, filho dileto de uma linhagem de militares acusados por torturas e assassinatos durante a ditadura militar, a trupe conta ainda com representantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica, que terão assento permanente, e ainda outros oito “notáveis” participantes, entre eles, representantes das polícias Federal e Rodoviária Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).
Na outra ponta da ofensiva, tem o senador-pastor bolsonarista Magno Malta (PR-ES) acusado de envolvimento em diversos crimes de corrupção e de forjar denúncia por crime de pedofilia contra um adversário político, barbaramente torturado pela também “vestal” polícia civil do Espírito Santo.
Malta tenta aprovar na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal o Projeto de Lei (PL) 272 de 2016, que tem por objetivo “disciplinar com mais precisão condutas consideradas como atos de terrorismo”. Entre outras alterações, o senador “cristão”, que é o relator do PL, pretende classificar como terrorismo atos como “incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado” quando praticados com “motivação política, ideológica ou social.”
A junção das duas pontas é a forma pela qual os golpistas pretendem aprofundar o golpe de Estado do país. Promover uma profunda perseguição política às organizações dos trabalhadores, inclusive o seu esfacelamento, para evitar a reação ao plano de destruição do país em favor do imperialismo norte-americano, objetivo central do golpe.
Uma pergunta que poderia ser feita é: por que começar pelo campo e não pela cidade? Por que o MST e não a CUT? A resposta não pode ser simplista, por pelo menos dois motivos.
A ofensiva dos golpistas não está partindo do zero. A ofensiva já está em andamento desde pelo menos 2005, com o Mensalão. Basta ver o papel do Judiciário brasileiro como peça-chave na implementação do golpe. O impeachment fraudulento, a perseguição, prisão e banimento de Lula das eleições de maneira absolutamente ilegal, a farsa da operação Lava-Jato, o fato da Constituição ser manipulada de acordo com os interesses do golpe. Enfim, o próprio processo eleitoral absolutamente fraudado, a fim de garantir a vitória dos candidatos do golpe.
Por outro lado, não se pode afirmar que o processo será por etapas. Tudo dependerá da correlação de forças entre os campos inimigos. O que pode começar com a criminalização do movimento rural, pode se estender mais ou menos rapidamente para as cidades.
Em todo caso, é notória a presença massiva de elementos da extrema-direita ligada aos latifúndios e ao agronegócio no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas, que tomarão posse em janeiro próximo. Essa será umas das principais bases de sustentação do governo ilegítimo de Bolsonaro. Nesse sentido, nada melhor do que unir o “útil ao agradável”, que o diga Ronaldo Caiado, recém eleito governador de Goiás, um dos fundadores da União Democrática Ruralista (UDR), braço armado dos latifundiários e o principal instrumento de assassinatos de trabalhadores no campo.
Como se vê, a engrenagem do golpe está a pleno vapor. Àqueles setores da esquerda que defendem uma trégua ao futuro governo golpista e ilegítimo de Bolsonaro, que defendem uma “frente democrática” parlamentar de oposição, o que temos a dizer é que essa política não é apenas suicida. Ela é acima de tudo uma política de traição a todas as organizações de trabalhadores do campo e da cidade, que pagaram com a miséria e a morte diante da ofensiva do golpe.
Não temos um minuto a perder. Quanto mais cedo organizarmos a resistência, maiores serão as nossas possibilidades de barrar e destruir o golpe. É por isso que a clareza política, um programa e um plano de lutas são essenciais para constituir um verdadeiro polo de resistência ao golpe.
É por isso que a mobilização e luta pela liberdade de Lula e pelo fora Bolsonaro são questões-chave na luta política contra o golpe e o fascismo.





