Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Vício em ‘bets’ revela vida precária da população

Povo vive na corda bamba, com ou sem "bets"

Em editorial, o Estadão comemora a aprovação, na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, de um projeto que proíbe a publicidade das “bets”, os aplicativos de apostas online. Segundo a visão predominante nos jornais da burguesia, são extensos os danos dessa nova moda de jogo: alta da inadimplência, endividamento doméstico e procura de atendimento em saúde mental.

No ano passado, após decisão do STF, os beneficiários do Programa Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada, o BPC, foram impedidos de usar seu dinheiro em sites de apostas, mediante rastreio de seu CPF nos sites. Em 2024, o Banco Central calculou em mais de R$ 3 bilhões as transferências na modalidade Pix desse público para as “bets”. A decisão, que coube ao ministro Luiz Fux, no entanto, foi suspensa após recurso de empresas do setor.

Segundo o Estadão, as campanhas publicitárias “normalizam comportamentos de alto risco, associam aposta a sucesso rápido, pertencimento e mobilidade social e operam como gatilhos comportamentais – sobretudo entre os jovens e vulneráveis”. A situação revela, vista de outro ângulo, que as “bets” dão vazão a sentimentos que pobres não deveriam ter: desejo de sucesso rápido e de mobilidade social. Apela-se para um discurso moral, ancorado na ideia de que o trabalho árduo é que leva ao sucesso, ao mesmo tempo que se condena, nas entrelinhas, a aspiração por mobilidade social.

Não vamos imaginar que a ascensão seja possível por meio de “bets”, é claro, mas o sentimento de quem aposta online é o mesmo de quem joga nas loterias e sonha com o prêmio da megassena a cada virada de ano.  Entra ano, sai ano, e a vida não muda ou muda para pior. As “bets” vendem ilusão, como, de resto, faz a publicidade de modo geral, mas, diferentemente de outros produtos, a aposta depende da “sorte”, que é rara, enquanto o “azar” é garantido.

A grande adesão a esse “produto” revela a desesperança nas condições de progredir economicamente na sociedade. Mais que o “sucesso rápido”, sempre visto como condenável para quem vive no rodapé da sociedade (enquanto outros já nascem bem-sucedidos, herdeiros de grandes fortunas), ganhar na loteria é a materialização do sonho de subverter a “lógica” de trabalhar e ser pobre a vida inteira.

A burguesia está preocupada com o endividamento das famílias e a alta da inadimplência, como diz o editorial, que é o que realmente a afeta. As “bets” estariam, de certa forma, desviando o dinheiro que as famílias usariam para pagar as contas no fim do mês e os empréstimos tomados aos bancos mediante juros escorchantes. Então, para tentar frear esse comportamento social, lançam mão de proibições e de um orquestrado discurso moral e clínico.

É forçoso pensar que menos pessoas se aventurariam no fantasioso mundo das apostas online se as condições de vida fossem menos precárias. A tentação de multiplicar os baixíssimos rendimentos – até para pagar contas – é, de fato, muito grande.

Por outro lado, temos ouvido com frequência que o Brasil atingiu o menor desemprego da série histórica, que os índices econômicos estão espetaculares etc. Os índices de desemprego aferem apenas a população que procura emprego formal. Muita gente desistiu dessa busca, hoje dificílima, com as plataformas de anúncios de emprego geridas por robôs e uma infinidade de pessoas em disputa por uma vaga, o que contribui para a redução dos salários.

Com a uberização do trabalho e a popularização do registro MEI, temos uma população de “empreendedores” e autônomos exercendo trabalho precário fora do radar das pesquisas que geram índices. Isso sem contar os milhões de famílias que dependem da ajuda do governo, um salário de R$ 600. Gente que praticamente não terá aposentadoria e vive um dia de cada vez, sem previsibilidade e sem perspectiva de sucesso.

Não é de estranhar a crença de que a sorte pode sorrir de vez em quando, nem que seja num site de apostas. O povo já vive na corda bamba, endividado e com dificuldade de pagar as contas. Com ou sem “bets”. Aos jornais não ocorre, porém, publicar editoriais sobre aqueles que lucram com a pobreza alheia.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.