O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, foi preso nesta quinta-feira (16) na quarta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal com autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A operação cumpriu dois mandados de prisão preventiva e sete de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo. Segundo a investigação, o alvo é um suposto esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos em troca de medidas favoráveis ao Banco Master. Também foi preso o advogado Daniel Monteiro, apontado pelos investigadores como representante do Master nas negociações com o BRB.
Paulo Henrique Costa presidiu o BRB de janeiro de 2019 a novembro de 2025, após ser indicado ao cargo no início do governo Ibaneis Rocha. Foi durante sua gestão que o banco avançou na aquisição de ativos do Banco Master, operação que acabou no centro da crise atual da instituição. Em novembro do ano passado, ele já havia sido afastado do cargo por decisão judicial.
De acordo com a Polícia Federal e com trechos da decisão de Mendonça, Paulo Henrique teria atuado de forma dupla no caso: de um lado, colocando a presidência do BRB a serviço da liquidez do Banco Master; de outro, aparecendo como suposto beneficiário direto de pagamentos indevidos. O ministro afirmou que a conduta atribuída ao ex-presidente não se resumiria a negligência administrativa, alcançando, segundo a decisão, uma “adesão consciente ao arranjo criminoso”. Como se trata de versão apresentada por investigadores e acolhida, nesta fase, pelo STF, a apuração ainda depende do andamento do processo.
A parte mais explosiva da investigação envolve seis imóveis de alto padrão, avaliados em R$146,5 milhões, que teriam sido prometidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro a Paulo Henrique Costa como pagamento de propina. Os empreendimentos ficam em São Paulo e em Brasília. A apuração indica rastreabilidade financeira de mais de R$74,6 milhões em pagamentos ligados a esses imóveis. Segundo os investigadores, os bens eram tratados como um “cronograma pessoal” de Paulo Henrique.
A PF também aponta a existência de uma suposta estrutura de ocultação patrimonial para esconder a posse dos imóveis. Daniel Monteiro, preso em São Paulo, teria atuado, segundo os investigadores, como operador jurídico desse esquema. Um dos episódios citados é o pedido para que fosse deixado em branco o campo do adquirente de um dos imóveis, sob a alegação de que ele integraria uma holding (empresa destinada a administrar outras empresas ou bens patrimoniais) familiar. Para a investigação, esse tipo de procedimento coincide com a manobra de ocultação patrimonial atribuída ao grupo.
As mensagens recolhidas pela PF mostrariam, ainda, uma relação proximidade entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. Em uma delas, o então presidente do BRB escreveu: “a cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir”. Em outra, ao tratar da visita a um imóvel, afirmou: “conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana”. Há também mensagem em que ele relata: “estive no outro hoje de manhã. A esposa ainda está meio cismada. Seria ótimo olhar outro para construir uma referência”. Para os investigadores, as trocas reforçam a suspeita de que a negociação dos imóveis fazia parte da contrapartida pelas operações conduzidas dentro do BRB.
O caso atinge também o Executivo do Distrito Federal. Em conversas interceptadas, segundo a PF, Paulo Henrique afirmou que o governador Ibaneis Rocha pediu material para justificar a aquisição de ativos do Master pelo BRB. Uma das mensagens atribuídas a ele diz: “o Governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”. Ibaneis declarou que não é investigado nesta fase e sustentou que era natural buscar informações sobre uma operação dessa dimensão. Sua defesa alegou que ele não pressionou nem teve ingerência sobre as decisões do banco.
Enquanto isso, a crise do BRB é enorme. De acordo com o atual presidente da instituição, Nelson Antônio de Souza, o banco terá de fazer provisionamento de cerca de R$8,8 bilhões após a compra de ativos do Master. As operações entre 2024 e 2025 somaram aproximadamente R$21,9 bilhões.
Após passar o dia na superintendência da Polícia Federal em Brasília, Paulo Henrique Costa foi transferido no começo da noite para o Complexo Penitenciário da Papuda, depois da audiência de custódia. Sua defesa afirmou que a prisão foi “absolutamente desnecessária” e declarou que ele não cometeu crime.
A prisão do ex-presidente do BRB abre uma nova etapa da crise. Com o avanço da investigação sobre a compra de ativos do Master, cresce a pressão sobre os envolvidos e sobre os setores políticos que orbitavam a operação.
Vem delação aí?





