O pronunciamento oficial do governo norte-americano após o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, além de confirmar o crime cometido pelo imperialismo contra um país soberano, revelou as nuances políticas por trás da operação. Em uma coletiva densa, o presidente Donald Trump e o Secretário de Estado Marco Rubio apresentaram visões aparentemente convergentes, mas com tons distintos, sobre o futuro da Venezuela e a continuidade da política externa americana.
Donald Trump abriu a coletiva descrevendo a operação como um “assalto espetacular” que utilizou um poderio militar esmagador — ar, terra e mar — contra o que chamou de “fortaleza fortificada” no coração de Caracas. Trump enfatizou que a missão foi “meticulosamente planejada” e “perfeitamente executada”, comparando-a a operações anteriores contra Soleimani e Al-Baghdadi.
No entanto, apesar dos objetivos, o presidente manteve uma postura contida, quase protocolar, lendo a todo momento, sem esboçar grande entusiasmo. Trump focou no retorno das petrolíferas americanas para “reconstruir a infraestrutura quebrada” e indicou, por várias vezes, que a permanência das tropas seria ditada por uma “transição judiciosa”.
Diferente da postura de Trump, Marco Rubio apresentou-se assertivo, com a autoridade de quem acompanhou cada detalhe do processo. Um dos pontos centrais de sua fala foi a reafirmação de que a operação não foi um ato isolado, mas o desfecho de uma política de Estado que atravessa governos.
Rubio fez questão de citar que Maduro não é reconhecido como legítimo nem pelo primeiro governo Trump, nem pelo governo Biden. “Nicolás Maduro teve múltiplas oportunidades de evitar isso. Ele recebeu ofertas muito, muito generosas e escolheu, em vez disso, agir como um homem selvagem”, afirmou Rubio. O Secretário de Estado enfatizou que o indiciamento de 2020 foi o gatilho legal para o que chamou de uma “função de aplicação da lei” apoiada pelo Departamento de Guerra.
O próprio Trump indicou que Rubio é quem estava à frente das articulações após a operação. Ao afirmar que os Estados Unidos irão “comandar o país” com um grupo de oficiais e que já mantém diálogo com a vice-presidente empossada em Caracas, ele disso: “Marco está trabalhando nisso diretamente… ela está essencialmente disposta a fazer o que achamos necessário”.
O tom de Rubio foi abertamente ameaçador ao dirigir-se a vizinhos regionais e ao alertar que “qualquer figura política ou militar na Venezuela deve entender: o que aconteceu com Maduro pode acontecer com eles”, enquanto o presidente focava no sucesso operacional e no fim de gastos “a 10 mil milhas de distância”.
A diferença no tom entre o presidente e seu principal ministro reforçam a ideia de que a face mais agressiva da política imperialista não é representada por Donald Trump, mas sim por Marco Rubio. Trump, em grande medida, é um obstáculo à política belicista do aparato imperialista, visto que esta política é indissociável da política neoliberal, amplamente rejeitada pela base trumpista.





