Toda a confiança que alguns setores da esquerda de que Xandão tinha vencido o fascismo e de que Lula já estaria reeleito, conforme se aproximam as eleições, vai lentamente se transformando em pessimismo, como mostra o artigo Devemos ter medo da família Bolsonaro?, de Moisés Mendes, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (7)
O jornalista diz que “o cansaço com a extrema direita, que estaria se manifestando nos Estados Unidos e na Argentina, não significa quase nada para os brasileiros. Americanos e argentinos podem estar apenas cobrando de Trump e Milei a piora da qualidade das suas vidas”. Faz assim um contraste com o Brasil, que apresenta suas intenções de voto porque, diferente daqui, americanos e argentinos “cobram porque o fascismo está no poder”.
Para Mendes, o povo pede apenas que “entreguem o que prometeram, mesmo que façam guerras e persigam imigrantes e se dediquem a picaretagens com criptomoedas. É o que as pesquisas estariam dizendo”.
Moisés Mendes aproveita para criticar o provável adversário de Lula, Flávio Bolsonaro. Escreve que “tudo o que os Bolsonaros não expressam, apesar do marketing da religiosidade, da família e da pátria amada, é o compromisso com bons modos”. E aproveita para acrescentar que “nem vamos cobrar deles respeito à democracia, às instituições, às urnas e às eleições. Não é nada disso. Não há como cobrar dos Bolsonaros nada que dê às suas atitudes algum sentido de sensatez”.
Como se vê, há um grande esforço para tentar diminuir a figura dos Bolsonaros, ligá-los ao fascismo, mas nada disso parece fazer diferença, é isso que mostram as pesquisas. O problema é: o que o governo Lula tem para apresentar além de índices?
O golpe do golpe
O jornalista alega que “os Bolsonaros foram fracassados numa eleição e numa tentativa de golpe. Estariam, no curto prazo, abatidos e derrotados. Sete meses depois da condenação do chefe do clã e líder da organização criminosa pelo STF, seu filho é o candidato competitivo de toda a direita”. Fala isso, mas não tira a conclusão necessária.
Conforme este Diário explicou inúmeras vezes, a perseguição judicial não iria minar o capital eleitoral de Bolsonaro, antes o contrário. Demos o exemplo de Donald Trump, nos Estados Unidos, que teve aumento em sua popularidade conforme se acumulavam contra ele processos judiciais.
A burguesia montou a farsa da tentativa de golpe com a esperança de que Jair Bolsonaro apoiasse um candidato alternativo. As setas apontavam para Tarcísio de Freitas.
O golpe em Bolsonaro não deu certo, pois o ex-presidente preferiu lançar candidato próprio à presidência, o que frustrou aquele que parecia ser o plano número 1 para as próximas eleições. Flávio Bolsonaro tenta se vender para o “mercado” como uma versão melhorada do pai. Resta saber se o grande capital vai comprá-lo.
O mundo das fantasias
Mendes escreve que “apesar do aviso das pesquisas do fim de 2025 de que metade da população não votaria num nome indicado por Bolsonaro, o filho tem, numa conta que nem sempre fecha, o apoio integral da outra metade”. Muito provavelmente, o jornalista está se baseando na experiência Lula/Haddad, no qual a maioria da esquerda tinha certeza que Lula transferiria votos para o candidato petista, o que não ocorreu. Com Bolsonaro, no entanto, esse se reproduz, e isso era esperado, pois Flávio Bolsonaro é visto como herdeiro natural do pai.
Outra mania desses setores pequeno-burgueses é a mania de apelar para moralismos, como no trecho que diz que “nenhuma pesquisa de nenhum instituto mediu, em momento algum, a percepção das pessoas sobre algum valor elementar, como respeito aos adversários. Isso ainda tem relevância? As pesquisas são esquemáticas e nada dizem sobre sentimentos antifascistas”. Essa conversa de “sentimento antifascista” é uma fantasia essa esquerda criou, e ela mesma acabou acreditando. Essa é uma “luta” que não vai mobilizar a classe trabalhadora, não até o momento em que o fascismo se instalar de fato e começar sua perseguição.
Paranoia?
Quase na metade de seu artigo, Mendes passa a questionar se Bolsonaro, “mesmo fragilizado fisicamente, poderia mandar cumprir, num mandato do filho, os avisos públicos que fez antes e durante seu governo? Um novo governo bolsonarista seria capaz de mandar executar inimigos políticos?”.
Talvez fosse melhor que o jornalista se perguntasse quantos adversários políticos Jair Bolsonaro teria mandado executar no próprio mandato. A situação política no Brasil não está nesse nível que o Mendes tenta mostrar.
É muito melodrama questionar se “seriam disparadas as armas que o pai e os irmãos empunhavam em aparições públicas, quando faziam pose para retratos ameaçadores?”.
Criticando o eleitorado, Moisés Mendes escreve que “o Brasil não debate se Flavio será privativista, ortodoxo no controle da inflação, sabotador da legislação trabalhista e destruidor do setor público e dos avanços sociais promovidos pelos governos de Lula e Dilma”. A questão é que os avanços sociais dos dois primeiros presidentes petistas foram destruídos por Michel Temer. E os golpistas de 2016, que colocaram Temer no poder, são hoje vistos como paladinos da democracia e verdadeiros caçadores de fascistas.
Abordagem equivocada
Quando Mendes alerta que “o Brasil precisa debater a ameaça real de um governo fascista exercido sob a inspiração da vingança, como se vislumbra em declarações dos filhos que falam em nome do pai”, mostra que está utilizando a lente errada para observar o que está acontecendo. Para o eleitorado bolsonarista, seus candidatos são vistos como antissistema, não como uma ameaça fascista e vingativa.
“O Brasil deve ter medo dos Bolsonaros? É a pergunta que” Mendes acredita que “os brasileiros precisam fazer, pela primeira vez e em voz alta, desde o fim da ditadura em 1985”. Para ele, “essa dúvida não existia quando a democracia foi restabelecida e os militares se recolheram aos quartéis”.
Na verdade, o golpe de 2016 mostra que os generais nunca se recolheram aos quartéis. Além disso, quais benefícios a “democracia” trouxe para classe trabalhadora? A democracia burguesa não passa de uma fachada para a ditadura brutal do capital e a maioria da esquerda, em vez de elucidar esse fato, fica chamando os trabalhadores para lutarem contra um fascismo hipotético em nome de uma democracia que nunca deu nada para eles, apenas tirou.
Não adianta ficar perguntando se “os Bolsonaros poderão exercer no Brasil, num segundo governo da família, um poder absoluto e violento como o que marca o segundo governo de Trump”. As “democracias” europeias estão deixando a cada dia mais claro que não passam de regimes fascistas em pele de cordeiro.
Talvez os Bolsonaros, se vencerem, venham a fazer um governo truculento, tudo vai depender do acirramento da luta de classes e aquilo que burguesia exigir que eles façam.





