Análise Internacional

Trump sequestra Maduro e… sai perdendo

Rui Costa Pimenta avaliou que a captura de Nicolás Maduro foi uma ação de propaganda e que Washington foi obrigado a recuar do bloqueio para negociar o petróleo venezuelano

Donald Trump

Na edição desta quinta-feira (8) do programa Análise Internacional, exibido às 12h30 no canal do Diário Causa Operária no YouTube, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, analisou a operação do governo Donald Trump que resultou no sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Segundo Pimenta, embora a captura seja um fato grave, a operação não altera, por si só, o regime político venezuelano e tende a produzir efeitos contrários aos pretendidos pelo imperialismo.

“A maior parte do que fala a imprensa é mentira”, afirmou Pimenta, ao denunciar o que classificou como “uma enorme campanha de desinformação”. O dirigente citou como exemplo matérias publicadas no Brasil 247, que, segundo ele, apresentavam a ideia de que Trump buscaria “assumir o controle da PDVSA” ou de que haveria uma “captura” do governo venezuelano por Delcy Rodríguez. “Isso é totalmente falso”, disse. “Não está acontecendo nada disso”.

Operação de propaganda e limites do imperialismo

Para Pimenta, o sequestro de Maduro deve ser compreendido, acima de tudo, como uma ação voltada a produzir efeito político e psicológico, não como uma ofensiva militar capaz de derrubar o governo. “A operação de sequestro de Maduro é uma operação fundamentalmente propagandista. Não tem valor militar absolutamente nenhum”, declarou. Ele comparou esse tipo de ação a atentados contra chefes de Estado que, mesmo quando bem-sucedidos, não necessariamente mudam o caráter do regime.

Ao desenvolver o argumento, Pimenta afirmou que operações de assassinato, sequestro e sabotagem são incomparavelmente mais fáceis do que “ganhar uma guerra” e “ocupar militarmente” um país. “O problema para os Estados Unidos ser vitoriosos na Venezuela era invadir o país e ocupar o país militarmente. Isso eles não vão conseguir fazer. Eles sabem que não vão conseguir fazer”, afirmou.

O dirigente também relacionou a operação a outros episódios recentes de ataques seletivos contra direções políticas e militares no Oriente Médio. Citou ações no Líbano, no Irã e contra a resistência palestina. Sobre o caso libanês, afirmou que a operação de espionagem que atingiu a direção do Hesbolá só teria sido possível por falhas graves de segurança: “eles decapitaram o Hesbolá. O Hesbolá continua lá, continua armado, continua existindo”.

Petróleo, bloqueio e ‘recuo’ dos EUA

Na avaliação de Pimenta, as notícias de que os Estados Unidos procuraram a Venezuela para comprar petróleo e discutir suspensão do bloqueio econômico ajudam a explicar o objetivo real da operação. “As notícias que apareceram agora mostram o verdadeiro objetivo da operação com Maduro”, disse. Para ele, a Casa Branca tentou produzir uma demonstração de força, mas acabou tendo de abrir caminho para uma negociação que, politicamente, contradiz toda a campanha anterior de demonização do chavismo.

Pimenta argumentou que, com o aumento das tensões no Oriente Médio e o risco de perturbação no fluxo do petróleo pelo Golfo Pérsico, os EUA buscam uma alternativa estratégica. “O Golfo Pérsico é onde passa quase 30% do petróleo mundial, e quem controla esse Golfo é o Irã”, afirmou. Nessa equação, disse, a Venezuela aparece como reserva decisiva: “a Venezuela tem a maior reserva de petróleo conhecida do mundo”.

No mesmo bloco, o dirigente ironizou a ideia de que Trump “tomaria conta” da PDVSA: “para botar a mão no petróleo da Venezuela, tem que chegar num acordo, tem que pagar, tem que chamar o governo da Venezuela e falar: quero comprar o seu petróleo. Toda a coisa de que o Trump ia tomar conta da PDVSA, que ele ia controlar o petróleo da Venezuela, tudo papo furado”.

Ao comentar rumores sobre cláusulas que obrigariam a Venezuela a gastar em produtos norte-americanos parte do valor obtido com o petróleo, Pimenta disse não ter visto confirmação da segunda parte, mas tratou a primeira como plausível. Em seguida, avaliou o sentido geral do arranjo: “para a Venezuela é uma vitória. Praticamente a suspensão do embargo. Vamos ver como é que vai funcionar isso”.

Crise mundial e escalada contra Rússia e Irã

Além da Venezuela, Pimenta comentou a escalada imperialista em outras frentes. Ao tratar da pressão contra a Rússia e do episódio envolvendo a apreensão de um cargueiro russo, avaliou a medida como temerária: “parece imprudente esse ato de pegar o cargueiro russo. Isso aí vai ter consequências indesejáveis para o imperialismo”.

Sobre a Ucrânia, afirmou que Moscou não aceitará a presença de forças estrangeiras e que o conflito é entendido pela Rússia como questão de segurança nacional. “Os russos não vão aceitar nada do gênero”, disse, sustentando que qualquer acordo exigiria uma desmilitarização completa.

Em uma análise mais geral, Pimenta argumentou que o imperialismo vive uma crise profunda e responde a ela por meio de confrontos, sanções e guerras. Ele citou, entre os elementos dessa crise, a reorganização russa, o crescimento econômico e militar da China e a projeção do Irã. “É uma crise política sem precedentes”, afirmou, acrescentando que a situação social nos países imperialistas estaria “extremamente deteriorada”.

Ao abordar a possibilidade de uma escalada militar ampla, Pimenta disse que não é simples prever o momento, mas sustentou que a tendência existe: “o imperialismo se prepara para solucionar o problema através do confronto militar. (…) A guerra é uma saída”.

Governo Lula, BRICS e neutralidade no Caribe

Pimenta também dedicou parte do programa a criticar a política externa do governo Lula em relação à Venezuela. Para ele, houve colaboração com a pressão imperialista ao questionar a legitimidade das eleições venezuelanas e ao vetar a entrada do país nos BRICS. “Não há dúvida nenhuma. É muito grave o que aconteceu”, declarou. “O governo Lula vetou a entrada da Venezuela nos BRICS, que seria um amparo diante da tendência agressiva do imperialismo”.

O dirigente também criticou a posição de “neutralidade” do Brasil diante da mobilização naval norte-americana no Caribe. “Como assim, neutralidade? Teria que ter se pronunciado contra”, afirmou.

Ao comentar notas e declarações do Itamaraty e do próprio presidente brasileiro, Pimenta questionou a ausência de menções diretas aos Estados Unidos e a Maduro. “Se a Venezuela fosse um país em Marte, poderia ter uma nota”, ironizou. Sobre a formulação final, afirmou: “fala que a conclusão é que o Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação. Com quem? Como? Quando? Onde? Essa daí pegou muito mal”.

CIA, infiltração e falhas de segurança

Questionado sobre a atuação da CIA e suspeitas de infiltração, Pimenta disse não acreditar em uma entrada recente, mas em um trabalho permanente. “A CIA está infiltrada na Venezuela há muito tempo”, afirmou, comparando a abertura do país à de outras nações latino-americanas e destacando a facilidade de recrutamento na região. “Eles estão lá tentando desestabilizar o regime político há muito tempo”.

Sobre especulações de traição envolvendo a operação contra Maduro, Pimenta disse não ter visto confirmações e relativizou. “Eu acho que é muita especulação”, afirmou, sustentando que o fator decisivo tende a ser a falha de segurança. “As tentativas de sequestro, de assassinato, elas todas são feitas com base nos erros do adversário. (…) Se você não errou, é praticamente impossível”.

Resposta venezuelana e retaliação

Ao tratar da conduta do governo venezuelano diante da presença militar norte-americana na região, Pimenta avaliou que a decisão de não iniciar ataques foi correta, por evitar escalada de grande porte. “Eu acho que eles tomaram a decisão de não atacar, não provocar o conflito. Na minha opinião, é decisão correta”, disse. “Você começa a atacar a frota norte-americana, vão bombardear Caracas”.

Ele reconheceu, porém, a possibilidade de medidas não militares, inclusive contra forças internas alinhadas ao imperialismo. Ao discutir o papel de veículos de comunicação e organizações políticas pró-imperialistas em um país sob ataque externo, Pimenta afirmou que a situação configura um estado de exceção: “a Venezuela vive um regime de exceção, está sendo atacada por uma força estrangeira”. Nessa condição, disse, seria “inadmissível” manter estruturas internas trabalhando “para o inimigo”.

Em outro ponto, ao responder sobre expropriações, Pimenta distinguiu medidas de caráter econômico de ações de caráter político durante uma agressão externa, defendendo a possibilidade de confisco de setores da burguesia envolvidos com o inimigo “como medida política”.

Crítica à esquerda e convocação para ato em São Paulo

Pimenta também criticou setores da esquerda brasileira que, segundo ele, adotam a mesma linha do imperialismo ao definir a Venezuela como “ditadura” e deslocar o centro da discussão para temas institucionais. Para o dirigente, o eixo deveria ser a defesa do país contra a agressão estrangeira.

No encerramento, convocou os espectadores para o ato em defesa da Venezuela marcado para domingo (11), às 10 horas, na Praça Oswaldo Cruz, com passeata pela Avenida Paulista. “Discutir a Venezuela é bom, é importante. Mas precisamos fazer alguma coisa”, afirmou. Pimenta disse que o objetivo é “construir um movimento efetivo anti-imperialista” no Brasil e pressionar o governo brasileiro a mudar sua política em relação à Venezuela. Segundo ele, “é muito mais importante” fazer trabalho político no País do que falar em deslocamento imediato para uma ação militar no exterior.

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