No último dia 4 de janeiro de 2026, o portal Brasil 247 publicou o artigo intitulado Trump atacou para cancelar eleição nos EUA, assinado por Eduardo Guimarães. No texto, o autor tenta reduzir o sequestro criminoso do presidente Nicolás Maduro e o bombardeio à Venezuela a uma reles “manobra eleitoral” de Donald Trump para adiar as eleições de meio de mandato.
A questão central que Guimarães ignora é que a operação na Venezuela não é um capricho individual de ninguém, mas sim uma ação orquestrada e executada por uma máquina poderosíssima, o imperialismo, a ditadura do grande capital sobre os povos do mundo. Se o imperialismo não estivesse por trás da operação, Trump simplesmente não teria conseguido realizá-la. É o imperialismo quem controla os serviços de inteligência. É o imperialismo que controla a grande imprensa mundial, que saudou o sequestro.
Naquilo em que o aparato imperialista discorda da política de Trump, é visível que o grande capital se impõe, como no caso da guerra da Ucrânia, que Trump não consegue terminar.
A ideia de “manobra eleitoral” não vem à toa. Por trás dela, está a ideia de que, fosse qualquer outro político que não Trump, o sequestro não teria acontecido. Isto é, que o regime político norte-americano em si não é criminoso.
É preciso ser muito ingênuo, ou politicamente desonesto, para acreditar que as instituições americanas — o Congresso, a Justiça e o Partido Democrata — seriam algum tipo de “freio” para a barbárie. É notório que essas instituições são correias de transmissão dos grandes monopólios de armas e petróleo.
Onde estavam essas “instituições garantidoras” durante o genocídio em Gaza? O mundo assistiu em tempo real ao massacre de milhares de crianças sob o olhar complacente — e o financiamento direto — tanto de republicanos quanto de democratas. O Congresso e o Judiciário norte-americano nada fizeram para deter o extermínio. Esperar que essas mesmas instituições agora “salvem” a Venezuela das mãos de Trump é uma capitulação intelectual vergonhosa.
A oposição democrata a Trump, que Guimarães, implicitamente, apresenta como um horizonte de esperança, é a mesma que operou a ascensão do nazismo na Ucrânia. Foram os “democratas civilizados” de Barack Obama e Joe Biden que financiaram abertamente o Batalhão Azov para fustigar a Rússia. Remover Trump para colocar no poder os arquitetos da destruição da Líbia e da Síria é apenas trocar o carrasco barulhento por um que usa luvas de seda e retórica humanitária.
O cinismo da análise de Guimarães atinge o ápice ao ignorar o dado fundamental da realidade interna dos EUA: o povo norte-americano não apoia essa guerra. Pesquisas realizadas em 2025, por institutos como o Quinnipiac University Poll, mostram que entre 60% e 70% da população é contra a agressão à Venezuela. Trump não está atacando para ganhar popularidade; ele está atacando apesar da vontade do seu próprio eleitorado. Ele não é um político verdadeiramente independente, mas um refém disciplinado pelo complexo militar-industrial.
A única posição honesta para a esquerda brasileira não é fazer uma oposição eleitoral a Trump, que terá como único resultado uma recuperação do Partido Democrata. É preciso uma luta de conjunto contra o imperialismo. É preciso pressionar o governo brasileiro para que se coloque ao lado do povo venezuelano — inclusive militarmente, se necessário. Acima de tudo, é preciso uma mobilização de todos os povos, com um programa próprio, independente do imperialismo e de seu aparato de propaganda, do seus agentes na polícia e no Judiciário e de seus políticos que traem o povo.




