O artigo Por que Trump e a CIA escolheram Delcy Rodríguez para uma “transição” tutelada na Venezuela? publicado no sítio Esquerda Diário, do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT), nesta quarta-feira (7), é parte da campanha de desmoralização que visa enfraquecer o governo venezuelano, sob ataque feroz dos Estados Unidos.
Chama a atenção a virulência do título no qual se lê “transição”, entre aspas. E qual é a fonte do MRT? A CIA. No olho do artigo, escrevem o seguinte:
“Meios de comunicação norte-americanos revelaram que relatórios da CIA influenciaram a decisão de Trump de apoiar Delcy Rodríguez — vice de Maduro — como figura de um governo de transição, deixando de lado Corina Machado. A manobra expõe novamente que os Estados Unidos não têm interesse na ‘democracia’ nem na ‘liberdade’: em sua disputa pelo controle de recursos estratégicos como o petróleo, precisam do oficialismo e das Forças Armadas para garantir ordem e estabilidade”.
E, com base nessa informação “super confiável”, o MRT chega à conclusão de que o “chavismo responde a essa brutalidade imperialista com gestos conciliatórios. Diante disso, é necessária a construção de um forte anti-imperialismo, protagonizado pela classe trabalhadora e pelos setores populares”. Ou seja, toma como verdade o que dizem os americanos, e ainda chama o povo para fazer oposição ao governo. Enquanto Trump bate de um lado, o MRT bate do outro. Bela dupla.
Entrando especificamente no texto, no primeiro parágrafo escreve que, “segundo o The Wall Street Journal, um relatório confidencial da inteligência norte-americana concluiu que ‘altos funcionários do regime de Nicolás Maduro — entre eles Delcy Rodríguez — estariam em melhor posição para liderar um governo temporário em Caracas e manter a estabilidade no curto prazo’. O critério central reside em sua ligação com as Forças Armadas e com as principais estruturas do poder estatal”.
Papagaios do imperialismo
Como um grupo que se diz de esquerda corrobora o que está sendo dito na imprensa burguesa? Até uma criança sabe que os norte-americanos vão tentar minar o governo de todas as formas possíveis. Para sorte deles, contam com a ajuda desses grupos que se fingem muito radicais e revolucionários.
Não bastasse isso, continuam e afirmam que “Trump apostou em uma transição controlada de cima para baixo, com o aval das elites militares e econômicas, mesmo que isso implique reciclar dirigentes do próprio regime chavista. Nesse contexto, a Casa Branca deixou de lado María Corina Machado e Edmundo González Urrutia, por considerá-los incapazes de se impor frente aos aparelhos de segurança e às estruturas herdadas do chavismo”.
Considerando que Trump tenha feito uma aposta, isso significa que terá êxito, ou que realmente tem um acordo? O MRT não acha estranho que Corina Machado e Urrutia sejam tidos como fracos pelos Estados Unidos, que afirmava que teriam vencido as eleições? Eis a prova de que não venceram, de que tudo não passa de uma fraude, e que a população apoia o governo.
Além de repetir e dar por certo o que diz o The Wall Street Journal, o MRT traz que o “The New York Times foi explícito: para Trump, o foco na Venezuela é o petróleo, não a ‘promoção da democracia’. É a partir dessa lógica que a inteligência norte-americana concluiu que uma figura como Machado teria sérias dificuldades para governar sem provocar maior desestabilização”.
Afirmarem que “os planos de Washington seguem na linha de negociar com os funcionários do oficialismo”, é uma maneira de ajudarem os agressores, pois levanta suspeitas e enfraquece o governo.
O MRT segue atacando, diz que os EUA não têm interesse em iniciar um processo eleitoral, e muito menos “romper com o regime de forma estrutural. São apenas pretextos que serviram de álibi para reconfigurá-lo segundo seus próprios moldes, assegurando negócios e controle geopolítico”. E, pior, que “isso também foi confirmado por Marco Rubio, que afirmou que a condução do processo na Venezuela se dará com a participação de ‘todo o aparato de segurança nacional’”.
O autor do artigo virou porta-voz não apenas da CIA, mas de Marco Rubio, que teria afirmado que “agora há outras pessoas no comando do aparato militar e policial de lá; elas terão que decidir agora que direção querem tomar. Esperamos que escolham um caminho diferente daquele escolhido por Maduro”.
É interessante a citação, pois, na pressa de acusar o governo, o MRT não se deu ao trabalho de analisar o conteúdo. Se os americanos esperam que as autoridades escolham um caminho diferente do escolhido por Maduro, significa que estes não estão alinhados, e isso desmascara o jogo sujo e a má-fé do MRT.
A subserviência, no entanto, vai longe. O artigo diz que “nas últimas horas, uma publicação recente de Trump na Truth Social reafirmou essa nova relação em favor dos interesses dos Estados Unidos. ‘Tenho o prazer de anunciar que as Autoridades Provisórias da Venezuela entregarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade e autorizado aos Estados Unidos’”. E o que Trump diz é verdade? Deve-se confiar?
Em vez de criticar a fala, o MRT ainda reforça, escreve que “como afirmam os documentos de inteligência revelados pelo The Wall Street Journal, o trumpismo precisa e está disposto a sustentar esse regime para alcançar seus objetivos e reafirmar seu domínio colonialista sobre a região”.
É exatamente isso que o leitor acaba de ler. O MRT se vale de “documentos de inteligência revelados” pela imprensa imperialista para atacar o governo venezuelano.
Adiante, afirmam que “nesta terça-feira, diante das pressões de Trump, [Delcy Rodrígues] respondeu evasivamente, assegurando que ‘crescemos em força, crescemos espiritualmente para enfrentar os desafios, as agressões, as ameaças’ e afirmou: ‘A quem me ameaçar, digo: meu destino não é decidido por ninguém, senão por Deus, essa é minha resposta’”. O que há de “evasivo” na fala de Rodrígues? Nada, mas o MRT se utiliza de um linguajar venenoso e sórdido.
No penúltimo parágrafo, o MRT diz que “diante de uma ofensiva imperialista como a que está sendo conduzida pelos Estados Unidos, o chavismo responde com covardia, moderação e subordinação, como toda a burguesia latino-americana e suas representações políticas”. No entanto, são eles que estão subordinados, pois servem de papagaios da imprensa imperialista, de Marco Rubio, e do próprio Donald Trump.




