Política internacional

Trump inaugura ‘Conselho da Paz’; Hamas exige fim da agressão

Presidente dos EUA deu prazo público de 10 dias para um acordo com o Irã e voltou a ameaçar escalada

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inaugurou na quinta-feira (19), em Washington, o chamado “Board of Peace” (“Conselho da Paz”) e, na abertura do encontro, estabeleceu um prazo público de 10 dias para que o Irã feche um acordo “significativo” com os EUA. Trump afirmou que, se não houver entendimento, “coisas ruins acontecem” e que os presentes “vão descobrir” o desfecho “nos próximos, provavelmente, 10 dias”, sinalizando que os EUA “podem ter de ir um passo além”.

“Tem se provado, ao longo dos anos, que não é fácil fazer um acordo significativo com o Irã. Temos de fazer um acordo significativo; caso contrário, coisas ruins acontecem”, declarou. Trump citou Jared Kushner e Steve Witkoff, dizendo que ambos teriam “uma boa relação” com representantes iranianos.

O aviso foi feito dias depois da segunda rodada de conversas indiretas entre Irã e EUA, realizada na terça-feira (17), em Genebra, na Suíça, após uma primeira rodada em 6 de fevereiro, em Omã. Após o encontro em Genebra, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que houve “bom progresso” e que os dois lados chegaram a um entendimento amplo sobre “princípios orientadores” para um possível acordo. Araghchi também reiterou o que chamou de direito “inerente, não negociável e juridicamente vinculante” do país de enriquecer urânio para fins civis.

Prazo público e ameaça de nova ofensiva

A imposição de um prazo público por Trump ocorre em meio ao reforço de meios militares norte-americanos no Oriente Próximo. Foram mencionados, em diferentes informes militares, o deslocamento de dois grupos de porta-aviões, bombardeiros adicionais e 13 destróieres, o maior aumento de presença militar na região desde a invasão do Iraque em 2003.

Trump teria sido informado sobre prontidão militar para um ataque que poderia ocorrer “já no sábado”. Segundo o Wall Street Journal, Trump estaria pesando alternativas que incluem atingir a própria liderança iraniana, com objetivo de “mudança de regime”, além de opções centradas em instalações nucleares e de mísseis.

Trump voltou a dizer que o Irã “não pode ter arma nuclear”. Do lado iraniano, a posição reiterada é a de que o país não busca arma nuclear, que aceita discutir limitações e inspeções rigorosas em troca de alívio de sanções, mas não aceita a exigência norte-americana de “enriquecimento zero”. Também foi citado que os EUA tentam incluir restrições ao programa de mísseis; autoridades iranianas rejeitam concessões nesse ponto, descrito pelo país persa como princípio de defesa não negociável.

A tensão se conecta diretamente à guerra de 12 dias travada em junho de 2025 entre “Israel” e o Irã, quando os EUA bombardearam instalações nucleares iranianas. Após esses ataques, o Irã declarou que a ofensiva não deterá seu programa e manteve que suas atividades são pacíficas.

Nos dias anteriores, Trump já havia falado em fechar um acordo “no próximo mês”, ameaçando “consequências muito traumáticas” se não houver entendimento. Do lado iraniano, houve resposta pública do aiatolá Ali Khamenei, que escreveu que um navio de guerra “é perigoso”, mas “mais perigosa” seria a arma capaz de mandá-lo ao fundo do mar.

Gaza: dinheiro, tropas e desarmamento

No mesmo encontro em Washington, Trump anunciou que os EUA aportarão US$10 bilhões à iniciativa ligada à suposta reconstrução de Gaza. “O Conselho da Paz está mostrando como um futuro melhor pode ser construído”, disse, acrescentando que o valor seria “muito pequeno” diante do custo total da guerra, que descreveu como equivalente a “duas semanas de combate”.

Trump afirmou que a guerra em Gaza “acabou” após o cessar-fogo de outubro, embora “Israel” tenha assassinado centenas de palestinos e feito bombardeios quase diários desde então. Ele chamou os episódios de “pequenas chamas” e condicionou uma suposta “estabilidade duradoura” ao desarmamento do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas, na sigla em árabe), ameaçando reação dura caso isso não ocorra. Ao mesmo tempo, declarou que o Hamas “merece crédito” por devolver os corpos de prisioneiros israelenses.

Trump disse que Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Barém, Catar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Cuaite prometeram, juntos, mais de US$7 bilhões para o pacote. Em seguida, Cuaite, Arábia Saudita e Catar anunciaram US$1 bilhão cada, e os Emirados, US$1,2 bilhão. Trump acrescentou que o OCHA, órgão da ONU, buscaria levantar mais US$2 bilhões em apoio humanitário.

Trump também afirmou esperar participação de China e Rússia nos esforços ligados a Gaza. “E a China vai estar envolvida. E eu acho que a Rússia vai estar envolvida”, declarou.

Além do fundo, foi anunciada a formação de uma força internacional de “estabilização” para Gaza. Indonésia, Marrocos, Cazaquistão, Cosovo e Albânia foram citados como países que enviariam tropas. Egito e Jordânia declararam que vão treinar policiais. O presidente indonésio Prabowo Subianto afirmou que seu país poderia contribuir com até 8.000 soldados.

O plano prevê uma força liderada por um general norte-americano, com vice indonésio, começando na cidade de Rafá, sob controle de “Israel”. O objetivo declarado seria treinar uma nova polícia, com meta de 12.000 policiais e 20.000 soldados.

Hamas reage: ‘fim total da agressão’ e do cerco

Em resposta à reunião em Washington, o Hamas divulgou uma nota exigindo “fim total da agressão”, levantamento do cerco a Gaza e garantia integral dos direitos nacionais do povo palestino, incluindo “liberdade e autodeterminação”. O Hamas afirmou que realizar uma sessão sobre Gaza enquanto persistem violações e ataques ao cessar-fogo impõe aos participantes a obrigação de pressionar “Israel” a encerrar a agressão, abrir as passagens, permitir entrada irrestrita de ajuda humanitária e iniciar imediatamente a reconstrução.

O partido também cobrou de mediadores que assegurem a implementação do que foi acordado, impeçam “Israel” de bloquear obrigações humanitárias e políticas e atuem para estabelecer um cessar-fogo permanente. O Hamas declarou que qualquer esforço internacional real para “estabilizar” Gaza deve enfrentar a causa do problema: a ocupação sionista.

O porta-voz do partido, Hazem Qassem, afirmou que qualquer força internacional precisa “monitorar o cessar-fogo e impedir que a ocupação continue sua agressão”. Sobre desarmamento, disse que o tema poderia ser discutido, sem compromisso direto com entrega de armas, enquanto “Israel” mantém ataques.

Leia, abaixo, a nota do Hamas na íntegra:

“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Declaração à Imprensa

Em resposta à realização da sessão especial do Conselho de Paz sobre a Faixa de Gaza, hoje nos Estados Unidos da América, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) reafirma que qualquer processo político ou arranjos discutidos acerca da Faixa de Gaza e do futuro do nosso povo palestino devem partir de uma cessação total da agressão, do levantamento do bloqueio e da garantia dos direitos nacionais legítimos do nosso povo, em especial o seu direito à liberdade e à autodeterminação.

A realização desta sessão em meio à continuidade dos crimes da ocupação e às suas violações reiteradas do acordo de cessar-fogo impõe à comunidade internacional e às partes participantes do Conselho a adoção de medidas concretas que obriguem a ocupação a cessar sua agressão, a abrir as passagens fronteiriças, a permitir a entrada de ajuda humanitária sem restrições e a iniciar imediatamente o processo de reconstrução.

O Movimento também convoca as partes internacionais e os mediadores a assumirem suas responsabilidades para garantir a implementação do que foi acordado, impedir que a ocupação bloqueie as obrigações humanitárias e políticas, e trabalhar seriamente para consolidar o cessar-fogo de forma permanente.

Qualquer esforço internacional genuíno para alcançar a estabilidade em Gaza deve assentar-se no enfrentamento das raízes do problema, que reside na ocupação, no fim de suas políticas agressivas e na capacitação do nosso povo palestino para obter a plenitude de seus direitos, sem qualquer redução.

Movimento de Resistência Islâmica – Hamas

Quinta-feira, 2 de Ramadã de 1447 H

Correspondente a: 19 de fevereiro de 2026”

Reações: França, Noruega e Belarus

A França declarou surpresa com o envio de um representante da Comissão Europeia à reunião, alegando que o órgão não tem mandato do Conselho para representar os países-membros. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores francês, Pascal Confavreux, afirmou que, para Paris, o órgão deveria se concentrar em Gaza em conformidade com resolução do Conselho de Segurança da ONU e que, enquanto houver ambiguidade, a França não participará.

A Noruega informou que sediará na primavera uma reunião do Ad-Hoc Liaison Committee (AHLC), mecanismo de ajuda aos palestinos, e disse que não ingressará no “Conselho da Paz”. Um porta-voz afirmou que mantém contato com os EUA sobre como tratar o plano para Gaza no AHLC, ressaltando que EUA e União Europeia são vice-presidentes do grupo.

Bielorrússia, por sua vez, acusou os EUA de não emitirem vistos para sua delegação, apesar de convite para integrar o órgão como membro fundador. O Ministério das Relações Exteriores bielorrusso disse que pretendia ser representado pelo chanceler Maxim Ryzhenkov e que solicitou vistos com antecedência, mas não os recebeu, questionando a “consistência” do evento.

Rubio: ‘plano B é voltar à guerra’

O secretário de Estado Marco Rubio afirmou no encontro que “não há plano B para Gaza”, acrescentando: “plano B é voltar à guerra”. Rubio apresentou a reconstrução como o único caminho capaz de produzir uma “paz duradoura e sustentável”. O vice-presidente JD Vance falou brevemente, elogiou Trump e afirmou que o desafio não é apenas firmar acordos, mas fazer com que a paz “se sustente”.

Mais de 40 países e a União Europeia enviaram representantes para a reunião. Alemanha, Itália, Noruega, Suíça e Reino Unido não aderiram ao órgão, mas participaram como observadores.

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