No dia 19 de janeiro, o grupo português Esquerda Revolucionária, que se declara trotskista, publicou uma matéria em seu sítio sobre as manifestações organizadas pelo imperialismo no Irã, tomando o lado justamente do imperialismo e propagandeando a campanha de notícias falsas sobre o país persa, como se vê logo no primeiro parágrafo:
“Cerca de 500 manifestantes foram assassinados e pode haver mais de 10 000 detidos no balanço repressivo, até 11 de janeiro, do levantamento popular que atravessa o Irão e que tem colocado o regime dos Mulás contra as cordas. A rebelião, que está a atravessar toda a sociedade, tem implicações colossais para o Médio Oriente e o mundo, num momento de luta encarniçada pela hegemonia mundial entre a China e os EUA.”
Além de falsificar a realidade, o grupo esconde que cerca de três mil pessoas das forças de segurança do Irã foram assassinadas durante os confrontos, o que torna o caso inédito no mundo, pois seria a primeira vez que o número de policiais mortos foi seis vezes maior do que o número de “manifestantes”. Uma demonstração, portanto, de que o país estava sob ataque de forças armadas e preparadas, treinadas e financiadas, inclusive, por “Israel” e pelos Estados Unidos.
Também não contam que, após as manifestações pró-imperialistas, ocorreram em todo o país atos massivos de apoio, mil vezes maiores, inclusive, que as manifestações contrárias.
Como o próprio governo reconhece, as manifestações começaram por reivindicações legítimas, de um setor da sociedade iraniana, composto, principalmente, por comerciantes, revoltado com a situação da economia do país. Esses problemas, por sua vez, foram causados não pela política adotada pelo governo, mas sim pelo bloqueio econômico criminoso imposto pelo imperialismo. No entanto, não houve nenhum tipo de repressão policial, e os manifestantes sequer pediam o fim do regime político da Revolução Islâmica.
Por sua vez, aproveitando-se da situação, o imperialismo procurou infiltrar-se nas manifestações a partir de células do Mossad e da CIA instaladas clandestinamente no Irã e passou a organizar ataques armados contra membros das forças de segurança e contra prédios públicos, o que gerou a reação do governo e da própria população.
Houve, por exemplo, o assassinato de crianças por parte dos “manifestantes” ligados ao Mossad, utilizando práticas como as que vêm sendo vistas no genocídio na Palestina.
O texto continua, “explicando” a origem das manifestações:
“A dureza dos confrontos nas ruas, onde foi possível ver manifestantes armados a responder às forças policiais, revela um avanço em relação ao levantamento de 2022, desencadeado após a morte sob custódia de Mahsa Amini, uma jovem curda detida pela polícia moral por não usar o hijab como imposto.”
O que eles consideram “um avanço” é a utilização de armas providas pelo Mossad para que agentes israelenses dentro do Irã ataquem o governo.
Sobre as manifestações de 2022, o grupo Esquerda Revolucionária se refere a atos que tiveram o apoio do imperialismo, contando, inclusive, com orientações geográficas da Open Society no X, como segue abaixo:
During the past five days since the death of #Mahsa_Amini, protests broke out in 114 cities across 29 provinces. In 69 cities, 94 protests took place.
In 18 universities, the students of held protests over #MahsaAmini‘s death.#Iran#IranianProtests#Mahsa_Amini#مهسا_امینی pic.twitter.com/5efAL2vr5k— HRANA English (@HRANA_English) September 21, 2022
Em outro vídeo, também publicado no X, a mulher sob custódia da polícia no Irã aparece desmaiando, o que também colocou dúvidas sobre o que de fato levou à morte da jovem, mas que, independentemente dos fatos, faz com que parte da esquerda até hoje levante o tema como “prova” de crueldade do regime iraniano.
تصاویر دوربین مداربسته پلیس امینت اخلاقی تهران هنگام حضور مهسا امینی pic.twitter.com/lfWwkWViy4
— خبرگزاری فارس (@FarsNews_Agency) September 16, 2022
O texto continua, ignorando as manifestações a favor do regime iraniano por parte da população do país:
“A fúria de centenas de milhares de pessoas que se mobilizam nas ruas foi alimentada por anos de privação, retrocessos sociais e repressão dura dos direitos democráticos mais básicos. De facto, entre os jovens, a adesão aos ‘valores’ religiosos e fundamentalistas do regime capitalista dos Mulás é muito escassa perante a rejeição generalizada à corrupção governamental. Cada vez mais, a base social da ditadura teocrática se estreita e deixa o Governo sem mais apoio que o aparelho militar e policial.”
Apesar de reconhecer que as sanções imperialistas existem, o grupo tenta dar a entender que não são elas o motivo da insatisfação popular. No entanto, ao tentar provar seu ponto, o texto apenas prova que o problema do país são as sanções, pois, sem elas, o governo do Irã poderia negociar abertamente com qualquer país, sem ficar restrito:
“Apesar das sanções dos EUA causarem um prejuízo importante, a economia iraniana está estagnada há muito tempo. Segundo dados do Banco Mundial, o PIB pode contrair 4,4 % em 2025, após uma queda de 0,6 % em 2024. Tendo em conta que toda a economia iraniana se readaptou em torno da Índia, Rússia e China, países que não reconhecem as sanções e que absorvem 80 % do petróleo que Teerão exporta, a queda dos preços provocou um golpe frontal: passou-se de vender o barril a cerca de 100 dólares em 2023 para cerca de 55 dólares actualmente. Se a isso somarmos descontos cerca de 8 % necessários para que os seus parceiros comerciais, fundamentalmente a China, comprem, podemos ter uma ideia da brutal sangria de receitas que isto representa.”
O texto diz: “apesar das sanções dos EUA causarem um prejuízo importante”, para, depois, afirmar: “a economia iraniana está estagnada há muito tempo”, o que dá a entender, para os desavisados, que o Irã estaria com sua economia estagnada desde um período anterior às sanções.
Acontece que o país vem sendo sancionado desde 1979, em grau menor do que o de hoje, evidentemente. As sanções duraram até 1981, sendo reintroduzidas posteriormente em 1987 e aumentadas em 1995.
No entanto, as principais sanções contra o país tiveram origem na luta do imperialismo contra o desenvolvimento nuclear dos iranianos, começando em 2006. Esse pacote de medidas econômicas contra o Irã acabaria em 2016, no acordo firmado com o imperialismo em 2015. Donald Trump, porém, retomou as mesmas sanções apenas dois anos após seu fim, em 2018, ampliando-as em 2019 e 2020.
Em 2020, inclusive, o país foi incluído na lista negra do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), órgão imperialista que luta contra o “terrorismo” e a “lavagem de dinheiro”. Atualmente, somente o Irã, a Coreia do Norte e a Birmânia estão na lista negra.
Quando a Rússia iniciou sua operação militar especial contra a entrada da Ucrânia na OTAN, em 2022, tornou-se o país mais sancionado da história, posto que tomou exatamente do Irã naquele ano.
Ou seja, toda a estagnação de “muito tempo” do Irã é devida justamente às sanções impostas pelo imperialismo. O grupo em questão, no entanto, não parece entender o que é exatamente o imperialismo, pois trata a aproximação do Irã com a China, um país oprimido, como se se tratasse da aproximação com outro país imperialista:
“O Irão é um aliado estratégico chave para a China, com o qual assinou investimentos de 400 000 milhões de dólares para a próxima década, sendo um dos seus principais fornecedores de petróleo. Na luta pela hegemonia mundial e no mapa de áreas de influência, a queda do Governo iraniano e a sua substituição por outro alinhado com os interesses dos EUA seria um golpe excepcionalmente duro para a China.
Por detrás desta situação há um facto objectivo: os laços criados com a China não aliviaram a situação do povo iraniano, o que contradiz aqueles que pretendem apresentar o gigante asiático como uma potência não imperialista, guiada por um “socialismo de mercado” dinâmico e solidário com os povos. O enorme descontentamento atual é também uma resposta a essa esquerda que não quer ver para lá do seu nariz e que acabou por levar a maior surpresa da sua vida com os acontecimentos na Venezuela, nos quais China e Rússia foram cúmplices passivos.”
Caso o leitor tenha dificuldades de entender se a China é ou não imperialista, recomendamos o texto aqui.
Imperialismo chinês? Os ‘trotskistas’ a serviço de Washington
Por fim, o grupo adota a posição “nem-nem”, que também já foi utilizada pelo PSTU durante o golpe contra Dilma Rousseff, com a palavra de ordem de “Fora todos!”. O grupo acaba dizendo que não está do lado do Irã, mas também não está do lado do imperialismo:
“Pouco tempo depois do ataque imperialista à Venezuela e do sequestro de Nicolás Maduro, Trump ameaçou novamente o governo iraniano, afirmando que ‘se matar violentamente manifestantes pacíficos, os Estados Unidos da América virão resgatá-los’, acrescentando que estava pronto para agir. Tudo isto sete meses depois de forças israelitas e estado-unidenses terem bombardeado instalações nucleares iranianas numa guerra de 12 dias e de protagonizarem um genocídio em Gaza que ceifou a vida a centenas de milhares de palestinianos.”
Ou seja, por mais que o governo iraniano se encontre em uma guerra contra “Israel” e o imperialismo, a fórmula dos supostos revolucionários portugueses é a de não ficar do lado de ninguém. Na prática, como o único governo do país é o governo da Revolução Islâmica e seu único inimigo é o imperialismo, que quer derrubar esse governo, a posição do grupo é pela derrubada do regime atual, o que poderíamos dizer que é simplesmente se colocar ao lado do imperialismo, por mais que se diga coisas como:
“Os comunistas revolucionários rejeitam de forma contundente os planos de intervenção imperialista no Irão, assim como a ação de agentes da CIA e do Mossad dentro do país para orientar estas mobilizações segundo os seus interesses políticos e geoestratégicos.”
O imperialismo prepara uma guerra contra o Irã, um país governado por uma força revolucionária que organizou e dá suporte a toda a resistência no Oriente Médio — Ansar Alá no Iêmen, Hesbolá no Líbano, Hamas em Gaza, milícias revolucionárias no Iraque, entre outros — e que enfrentou “Israel” de armas na mão. Mesmo assim, o grupo chama à derrubada do governo do país em meio a essa agressão.





