O caso do cachorro Orelha despertou, de novo, o sentimento repressivo da classe média, que não consegue ver nenhum dos acontecimentos da vida social sem que tenha a presença de um policial militar cuidando dos costumes e mandando os outros para a cadeia.
Igor Freitas, colunista do Uol e cuidador de um cachorro, escreveu um texto que só pode despertar algum sentimento em quem perdeu totalmente a humanidade, a humanidade por outros humanos.
Afirma que foi uma “decepção perceber que, mesmo nesse estágio da vida, é possível escolher o abuso deliberado contra um animal que representa justamente a pureza, a confiança, a entrega! Quando essa pureza é violada, não se rompe apenas a vida de um ser indefeso, mas um limite ético elementar, algo que deveria ser intuitivo e anterior a qualquer lei”.
Relendo só esse trecho, parece escrito por alguém que nunca circulou pelas ruas de uma cidade como a de São Paulo. A profunda preocupação inocente com o animal desperta, obviamente, raiva em muita gente justamente por isso: o desleixo com milhares de pessoas famintas e sem casa e um super coração com um cachorro. Claro que da raiva.
Para completar, esse petardo: “Deixei de me preocupar com o que será do jovem acusado. Não por indiferença, mas por clareza de que, o que a vida colocar em seu caminho, será problema dele”. Tempos atrás se dizia que “fascistas não passarão”. Aparentemente estão passando, sob a forma delicada e bela de cuidados com os animais.
E continua, o nosso Coronel Telhada de petshop: “Aplica-se a pena, cumpre-se o processo, e a reintegração acontece logo, de forma plena. Às vezes, até premiada, e um indivíduo que comete atos diabólicos se sobressai a quem nunca o fez”.
“Golpistas, fascistas, não passarão!” Pois é.
Aos poucos o sistema está colocando a esquerda pequeno-burguesa nos braços da direita. Já não é possível notar a diferença entre o “bandido bom é bandido morto” dos policiais militares sem farda que viraram os integrantes dessa esquerda.
“Para mim, os atos de natureza profundamente perturbadora que colocam em discussão a complexidade da responsabilização infantojuvenil”. Aqui o redator do Uol não se segurou e flertou com a redução da maioridade penal, sonho antigo da direita brasileira, desde sempre.
Mas é preciso se separar da direita com algum argumento. E a esquerda está profissional nessa jogada. Ser direitista com argumento esquerdista. Vejam bem: “Talvez não por coincidência, as pessoas investigadas sejam bem-nascidas, pertencentes à camada privilegiada da sociedade brasileira, e viram em Orelha um cachorro vadio, sem valor, sem dono. Com desigualdade moral confiaram na inequidade jurídica, pois aqui, a violência que vem de cima é relativizada”.
A “iniquidade” é a palavra bonita para dizer que, sim, esses jovens também merecem ir para cadeia pelo que fizeram!
Mas ele, o colunista, não é da direita, a direita que promovia o linchamento da molecada carioca que passeava nos shoppings, não. Ele é da alta, é culto e civilizado, então “o que se exige não é linchamento ou a exclusão eterna dos envolvidos, mas algo mais básico: tempo, distância e responsabilidade real. A reintegração deve ser conquistada com atitudes”.
Isso é a cadeia, senhor Igor Freitas Elawar. É a FEBEM. São os nossos campos de concentração. Não existe novidade no que o colunista do Uol está falando. Ele só está dizendo que, sim, infelizmente a direita tem razão. Os jovens delinquentes nacionais devem apodrecer na cadeia como os demais adultos. Apodrecer com “tempo, distância e responsabilidade real”, obviamente.
“Quem comete um ato desse tipo precisa ser marcado para sempre, e provar a mudança pessoal por esforço extremo”. Ser marcado como? Com ferretes aquecidos em brasa? O fascismo passou e já está longe. “Ser firme nesse contexto não é ser desumano, mas justo”, está certo.
“O futuro pode existir, sim, mas não nasce pronto no dia seguinte ao fim de uma pena: precisa ser construído com tempo, memória e consequência. Integrar sem critério não é generosidade, é negligência moral. Quando a memória falta, o erro deixa de ser individual”.
A classe média tem essa vantagem. Ela nunca erra, é perfeita. O pequeno-burguês está certo o tempo todo. Este colunista acima acha, inclusive, que não basta uns bons anos de xilindró para os meninos terríveis e malvados do caso Orelha. Mesmo após a cana, de preferência cumprida junto com os adultos, eles precisam de um outro critério para serem integrados a esta sociedade maravilhosa.
Mais de 100 jovens foram trucidados pela polícia carioca recentemente, curiosamente alguns cachorros foram mortos, teve gente que teve a cabeça arrancada fora, mas o sentimento não é o mesmo. Outros três milhões jovens passam fome, mas e daí?
O caso do cachorro Orelha é importante para demonstrar a quantidade industrial de fascistas que existem escondidos sob a fachada de cuidado com os animais. Vários esquerdistas se entregam e torcem pela prisão dos jovens e de todo mundo, com ou sem provas. E isso é importante, pois o fascistão fortão de suástica é fácil de reconhecer e combater, mas o que fazer com o Himmler disfarçado de anjo vegano?
Resta saber quem é mais socialmente perigoso e mentalmente perturbado. Um jovem que tortura um aninal ou um lacaio da imprensa que defende a polícia e a redução da maioridade penal?





