Nesta quinta-feira (12), o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixou a relatoria das investigações ligadas ao chamado caso do Banco Master. A medida foi tomada com o fim de conter o desgaste político da Corte e da Procuradoria-Geral da República (PGR) após os novos desdobramentos das investigações sobre o ministro.
Interlocutores do procurador-geral Paulo Gonet e ministros do STF vinham defendendo que Toffoli se afastasse para “distensionar” a crise. A expectativa, segundo relatos de bastidores, era de que ele fosse aconselhado a sair da relatoria durante a reunião convocada para a tarde do dia 12. Caso resistisse, pessoas próximas a Gonet diziam que a PGR poderia endurecer e rever a postura de não pedir formalmente a suspeição do ministro.
A reunião no STF foi convocada depois que o presidente da Corte, Edson Fachin, informou aos ministros o conteúdo do relatório da PF. As conversas e documentos são sigilosos, mas a existência de menções a Toffoli aumentou a pressão sobre a permanência do ministro na relatoria.
Após a reunião, o STF divulgou uma nota conjunta assinada pelos ministros afirmando que não caberia arguição de suspeição nas condições apresentadas, mencionando dispositivos do Código de Processo Penal e do regimento interno. Ao mesmo tempo, a Corte declarou a validade dos atos praticados por Toffoli no caso até aqui e registrou apoio pessoal ao ministro.
Na prática, o tribunal optou por uma “saída negociada”: Toffoli pediu que o tema fosse redistribuído “considerados os altos interesses institucionais”, e a Presidência acolheu a solicitação. O novo relator foi definido por sorteio no sistema interno do STF: o ministro André Mendonça assumiu as investigações relacionadas ao caso Master.
A legislação prevê que a suspeição pode ser arguida pelo próprio ministro ou pela PGR; também há a hipótese de a Presidência admitir a suspeição e submeter ao plenário, possibilidade que, segundo informações divulgadas, estava descartada.
Do lado do Ministério Público, Gonet vinha sendo cobrado por procuradores e por parlamentares para que a PGR se posicionasse sobre a suspeição de Toffoli. Procuradores ouvidos por veículos de imprensa afirmaram que a maioria da categoria defendia o afastamento do ministro da relatoria, diante do potencial de contaminação do processo e do impacto político sobre as instituições.
Antes de se afastar, Dias Toffoli havia admitido ser sócio da empresa Maridt Participações S.A., que negociou participação no resort Tayayá, no Paraná, com fundo ligado ao entorno do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A revelação ocorre no momento em que o próprio Toffoli é relator, no STF, das investigações sobre supostas fraudes bilionárias envolvendo o banco.
O ministro declarou, por meio de nota, que integra o quadro societário da Maridt, empresa administrada por seus irmãos, e que recebeu apenas dividendos, todos devidamente declarados à Receita Federal.
A Maridt detinha participação no grupo empresarial responsável pelo resort Tayayá, empreendimento de alto padrão localizado em Ribeirão Claro (PR). Parte das cotas foi vendida, em 27 de setembro de 2021, ao Fundo Arleen — administrado pela Reag Investimentos, empresa que aparece no radar das investigações relacionadas ao Banco Master. O restante foi alienado em fevereiro de 2025 à PHD Holding.
Toffoli sustenta que assumiu a relatoria do caso Master apenas em novembro de 2025, quando a empresa já não fazia parte do grupo do resort. Afirma também que nunca recebeu qualquer valor de Vorcaro ou de seu cunhado, Fabiano Zettel, pastor e empresário ligado ao fundo comprador.
O caso Banco Master envolve suspeitas de fraudes na tentativa de aquisição da instituição pelo Banco de Brasília (BRB), além de possíveis irregularidades em operações financeiras que movimentaram cifras bilionárias.
A investigação ganhou nova dimensão quando a Polícia Federal apreendeu celulares de Daniel Vorcaro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, mensagens encontradas no aparelho citariam o nome de Toffoli em conversas com o banqueiro. O conteúdo permanece sob sigilo.
Diante do material, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, encaminhou relatório ao presidente do STF, Edson Fachin, responsável por analisar eventual pedido de suspeição.
A suspeição é o mecanismo jurídico que permite questionar a imparcialidade de um magistrado quando existem indícios de vínculo ou interesse no objeto do processo. Embora a PF não seja parte formal da ação, o envio do relatório ao presidente da Corte é claramente uma tentativa de aumentar a pressão sobre o STF por parte da Polícia Federal.
O gabinete de Toffoli havia reagido inicialmente classificando o pedido como baseado em “ilações” e sustentando que a Polícia Federal não possui legitimidade processual para formular tal requerimento. O ministro afirmou que responderá formalmente a Fachin.
Reportagens revelaram que a Maridt possuía capital social declarado de apenas R$150. Apesar disso, participava de empreendimento turístico de alto padrão. O endereço registrado da empresa seria uma residência em Marília (SP), vinculada a um dos irmãos do ministro. A discrepância entre o capital formal e o volume de negócios chamou atenção de investigadores.
Documentos indicam que os irmãos de Toffoli, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, figuravam como administradores da empresa. A PF apura movimentações financeiras envolvendo a Maridt e eventuais repasses ao ministro. Toffoli afirma que recebeu exclusivamente dividendos legais.
A atuação de Toffoli no processo do Banco Master já vinha sendo alvo de muita polêmica antes mesmo da sua recente confissão. Entre os episódios apontados, estão:
- Centralização dos inquéritos relacionados ao banco em seu gabinete;
- Determinação de lacrar material apreendido na Operação Compliance Zero;
- Designação nominal de peritos da PF para análise dos aparelhos;
- Restrição inicial ao uso de tecnologias avançadas de perícia digital.
Posteriormente, parte das decisões foi revista, mas a crise política já havia sido instaurada. Em resposta à pressão, Toffoli determinou que a PF envie ao STF a íntegra de todos os dados telemáticos e periciais coletados no caso, ampliando o controle do Supremo sobre a investigação.
Outro elemento que ganhou as páginas dos jornais foi a viagem do ministro a Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores de 2025, na companhia de um advogado ligado a investigados do caso Master.
No Congresso Nacional, parlamentares protocolaram pedidos de investigação e até de impeachment do ministro.
O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, senador Fabiano Contarato (PT-ES), apresentou requerimentos para convocar os irmãos de Toffoli a prestar esclarecimentos. Também foram solicitadas quebras de sigilo envolvendo empresas e gestores ligados ao caso.





