Nas últimas semanas, a população foi submetida a uma sequência de campanhas que, à primeira vista, parecem não ter ligação entre si. Ora é a “saúde mental” dos estudantes, ora a “defesa dos animais”, ora o “combate à violência contra a mulher”. Para a esquerda pequeno-burguesa, cachorra do regime, tudo aparece como tema “nobre” e “civilizatório”. O resultado, no entanto, é sempre o mesmo: mais poder para o Estado, mais mecanismos de punição e, no centro de tudo, a mordaça sobre a Internet.
O caso mais recente é a proibição do uso de celular em sala de aula em universidades privadas de São Paulo. A justificativa vem embrulhada em um palavreado pseudo-científico, com “dopamina”, “córtex pré-frontal” e a tese de que a pessoa só “amadurece” aos 24 anos. Na prática, trata-se de um balão de ensaio: testa-se a aceitação social de uma restrição e, em seguida, amplia-se o alcance.
A propaganda de que o celular seria uma espécie de “droga” é a porta de entrada para a proibição total. Começa-se pelos “muito jovens”, passa-se aos universitários, tratados como crianças, e a tendência é avançar para locais de trabalho e espaços públicos. O objetivo é simples: controlar o acesso à informação. O maior meio de comunicação de massas da história, que poderia ser instrumento de organização e denúncia, é transformado em ameaça a ser contida pela polícia, pelo Judiciário e por normas administrativas.
Em paralelo, a comoção fabricada em torno do caso do “cão Orelha” serviu de pretexto para pedidos abertos de censura, inclusive a proibição de plataformas inteiras, como o Discord. Enquanto a polícia realiza operações rotineiras nas periferias que resultam em mais de 6.000 mortes por ano (cerca de 20 por dia), setores da esquerda pequeno-burguesa se mobilizam por um animal para exigir mais repressão e mais controle das redes. É o método da chantagem moral, que seleciona um caso exemplar para exigir um Estado mais forte e uma população mais vigiada.
O mesmo mecanismo aparece no chamado “pacto contra o feminicídio” dos Três Poderes. Um problema real é usado de maneira demagógica para ampliar o aparato penal. O que se vende como “educação” e “proteção” costuma vir acompanhado, nas medidas concretas, de regulação das redes, perseguição a perfis e ataques ao anonimato, isto é, ao direito de expressão de quem não tem proteção econômica, política ou institucional.
Fato é que o imperialismo em decomposição acelerada não convive com liberdade de expressão. Precisa empurrar a população para a defensiva, criando um ambiente em que qualquer oposição à censura seja tratada como defesa de crimes. Quem denuncia a mordaça é acusado de “apoiar” maus-tratos a animais, violência contra mulheres ou “adultização” de crianças. A chantagem moral vira base ideológica do Estado policial.
O que ocorre na Espanha, onde um governo dito “socialista” avançou com restrições ao acesso de menores às redes e mecanismos de fichamento digital, indica o rumo dessa ofensiva. A burguesia fecha o cerco. E a esquerda que aplaude esse processo, embriagada com a conversa de “proteção”, ajuda a preparar o instrumento que será usado contra ela própria.
Não existe “lado bom” na repressão burguesa. Defender a proibição de celular, o banimento de plataformas ou a censura de canais e perfis significa, na prática, reforçar o monopólio da informação nas mãos da Rede Globo e da imprensa capitalista, que manipulam e mentem em escala industrial, inclusive para justificar guerras e golpes. A “proteção” oferecida por esse regime é, na realidade, a mordaça.





