Neste mês, veio à tona o vazamento de documentos e a revelação pública da contratação do think tank (empresa de propaganda) Labour Together pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, para perseguir jornalistas que denunciaram o financiamento corrupto de sua campanha para liderar o Partido Trabalhista entre 2017 e 2020. O vazamento expôs uma operação iniciada em novembro de 2023 que acusava jornalistas de esquerda de “fake news”, “discurso de ódio”, “antissemitismo” e outros truques inventados pelas agências de inteligência para perseguir opositores.
A contratação ocorreu logo após uma reportagem explosiva do Sunday Times, publicada em novembro de 2023, revelar que o Labour Together falhou em declarar £730.000 em doações usadas para impulsionar a campanha de Keir Starmer à liderança do Partido Trabalhista entre 2017 e 2020. Essas irregularidades resultaram em 20 violações das leis eleitorais britânicas e multa superior a £14.000 aplicada pela Comissão Eleitoral. O contrato com a firma APCO Worldwide, no valor de pelo menos £30.000 a £36.000 (equivalente a cerca de R$210.000 a R$250.000 na cotação atual), foi endereçado diretamente a Josh Simons, diretor do Labour Together na época e atualmente ministro do Departamento de Governo de Starmer.
O objetivo do trabalho, conforme documentos vazados e confirmados por veículos como BBC, The Guardian, Sunday Times e Democracy For Sale, incluía investigar a “origem, financiamento e fontes” da reportagem do Sunday Times, além de examinar outros jornalistas e autores críticos, como Paul Holden (que publicou o livro The Fraud: Keir Starmer, Morgan McSweeney, and the Crisis of British Democracy), Matt Taibbi (jornalista norte-americano), Kit Klarenberg (jornalista do portal investigativo The Grayzone), John McEvoy (Declassified UK), Henry Dyer (The Guardian) e os próprios Pogrund e Yorke.
A APCO entregou um relatório extenso de cerca de 58 páginas, codinome “Operação Canhão”, preparado em parte por Tom Harper (ex-jornalista do Sunday Times e agora na APCO). O documento continha informações pessoais sensíveis, incluindo o histórico religioso de Gabriel Pogrund (referências ao seu judaísmo), relações familiares, motivações ideológicas e alegações infundadas de que as divulgações poderiam decorrer de um “hack” orquestrado por Rússia ou China à Comissão Eleitoral britânica, uma acusação sem provas, descrita pelo Sunday Times como “profundamente pessoal e falsa”. Parte do material foi compartilhada informalmente com figuras do Partido Trabalhista (incluindo atuais ministros e assessores) e encaminhada ao Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido (NCSC, na sigla em inglês), ligado ao Quartel-General de Comunicações (GCHQ, na sigla em inglês, equivalente britânico à NSA), o que comprovou o uso indevido de serviços de repressão do Estado para perseguir, caluniar e desacreditar o jornalismo investigativo contra Starmer.
O Labour Together e Josh Simons negaram qualquer intenção de “espionar” ou difamar jornalistas, afirmando que o objetivo era apurar um suposto hack ilegal. Simons declarou que ficou “surpreso e chocado” com informações “desnecessárias” sobre Pogrund, afirmando ter pedido sua remoção antes de passar o relatório ao GCHQ, e classificou alegações contrárias como “absurdas” ou “bobagem”. Ele insistiu que a APCO “foi além” do contratado e que o foco era proteger o grupo de ataques coordenados.
Keir Starmer negou conhecimento prévio da operação, afirmando publicamente que “não sabia de nada” sobre o relatório da APCO e que o caso “certamente precisa ser investigado”. Em resposta, ordenou que o departamento de governo estabelecesse os fatos, uma apuração informal que gerou ceticismo, pois Simons ocupa cargo na própria pasta responsável. A Associação de Relações e Comunicações Públicas (PRCA, na sigla em inglês), entidade reguladora do setor de relações públicas no Reino Unido, abriu investigação formal contra a APCO por possíveis violações éticas. O Sunday Times considera ações legais contra o Labour Together e a APCO, enquanto o editor do jornal, Ben Taylor, chamou a tentativa de ligar os jornalistas a interesses russos de “fantasia e ficção”.
O Labour Together foi fundado em 2015 e liderado inicialmente por Morgan McSweeney, ex-chefe de gabinete de Starmer que renunciou recentemente em meio a controvérsias por nomear Lord Peter Mandelson, amigo de Jeffrey Epstein, como embaixador nos Estados Unidos. Foi financiado por grandes doadores, incluindo figuras ligadas ao lobby sionista no Reino Unido. O grupo atuou como motor da oposição a Jeremy Corbyn e da estratégia que levou Starmer ao poder.





