América do Sul

Sindicatos denunciam entrega da energia do Paraguai ao capital estrangeiro

Campanha “No apaguen la ANDE” denuncia que governo Santiago Peña subsidia grandes empresas com energia barata às custas da estatal e da população

Organizações sindicais e movimentos populares do Paraguai intensificaram a campanha “No apaguen la ANDE” contra os decretos nº 5306/26 e nº 5307/26, editados pelo governo de Santiago Peña, que estabelecem tarifas reduzidas de energia para indústrias eletrointensivas, como centros de dados para inteligência artificial, serviços de nuvem e mineração de ativos digitais. Segundo as entidades, as medidas colocam a produção energética do país a serviço do capital estrangeiro e comprometem o futuro da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE).

De acordo com a campanha, os decretos fixam tarifas entre 25 e 53 dólares por megawatt-hora (MWh) para as chamadas indústrias convergentes e de hiperescala. O valor, no entanto, fica muito abaixo do custo operacional da ANDE. Segundo os sindicatos, a estatal necessita de cerca de 92 dólares por MWh em baixa tensão e 84 dólares em média tensão para manter o fornecimento.

A Ação Sindical Classista (ASC) e o Sindicato de Trabalhadores da Administração de Eletricidade (SITRANDE) afirmam que a política do Executivo viola a carta orgânica da ANDE, que determina que as tarifas devem cobrir os custos operacionais e assegurar a rentabilidade da empresa pública. Pelos cálculos apresentados pelas entidades, o governo impõe um déficit de aproximadamente 40 dólares por unidade de energia consumida por essas empresas.

As organizações denunciam que esse prejuízo tende a ser repassado à população trabalhadora, seja por meio de reajustes tarifários, seja pela deterioração do serviço. Segundo os sindicatos, a redução artificial das tarifas para grandes consumidores pode agravar o quadro de apagões e de instabilidade da rede elétrica.

O decreto nº 5306/26 define como “indústrias convergentes” os operadores de computação de alto rendimento e serviços de nuvem. Já o decreto nº 5307/26 introduz a categoria “Power to X”, voltada à conversão da eletricidade em outros vetores energéticos. Para as entidades mobilizadas, as duas normas transformam a energia excedente do Paraguai em mercadoria barata para setores que geram poucos empregos no país.

Em nota divulgada no âmbito da campanha, as organizações afirmaram que, se os decretos 5306 e 5307 não forem revogados imediatamente, o Paraguai perderá sua energia hidrelétrica barata, confiável e de alta qualidade para a população e para a criação de empregos.

A mobilização exige a revogação imediata das medidas e defende que a energia produzida pelas hidrelétricas binacionais seja destinada ao desenvolvimento industrial do país e ao atendimento da população, e não a subsídios para empresas transnacionais que operam em regime de hiperescala.

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