Regime federativo, abolição da escravatura, separação da Igreja e do Estado, instituição do casamento civil, regulamentação do trabalho industrial, reforma educacional: essas eram as principais bandeiras defendidas pelos partidários do regime republicano no Brasil, alçados ao poder através do golpe militar de 15 de Novembro de 1889.
A proclamação da República foi conduzida pelos militares, tendo à frente Deodoro da Fonseca, o que se deu através de um golpe palaciano, que quase não encontrou resistência por parte da Monarquia. Os conspiradores tomaram de assalto o quartel general do Rio de Janeiro e o Ministério de Guerra durante a madrugada do dia 15.11. Prenderam o Visconde de Ouro Preto e alguns outros ministros. Consta que o único ferido na quartelada foi o Barão de Ladário, Ministro da Marinha, que desacatou a ordem de prisão e foi baleado.
Concretizava-se dessa maneira o plano do Partido Republicano criando em 1870 – a sua ala majoritária acreditava numa transição pacífica do regime monárquico para a República, ou seja, a evolução natural dos acontecimentos levaria o país a superar o II Império, seguindo leis históricas inflexíveis, dentro do horizonte positivista. Os partidários de August Comte, especialmente os militares brasileiros, acreditavam na ideia de uma evolução natural da sociedade, regida por leis científicas, em direção ao progresso. Daí vem o lema inscrito na bandeia nacional desde o advento da República: Ordem e Progresso.
Silva Jardim (1860/1891) foi um jornalista incendiário que defendeu na imprensa e através de comícios o regime republicano e o abolicionismo. Mas ao contrário da maioria dos demais partidários da República, acreditava que a Monarquia deveria ser derrubada por métodos revolucionários. Defendia abertamente a insurreição popular como a via adequada para mudança de regime, resgatando uma tradição de luta política que remontam à Inconfidência Mineira (1789) e à figura de Tiradentes. E foi justamente o seu radicalismo político que o levou ao isolamento assim que os republicanos moderados tomaram o poder.
Antônio Silva Jardim nasceu em 18 de agosto de 1860 numa pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Seu pai era um professor primário e a família viva em condições modestas, num pequeno sítio. Tinha a saúde frágil mas em contrapartida se destacou logo cedo pelo bom desempenho nos estudos. Quando estudante secundarista, redige um jornal com os seus colegas e o seu primeiro artigo é sobre Tiradentes.
Dada a falta de recursos da família, foi obrigado a começar a trabalhar cedo: inicia como guarda livros numa sapataria e à noite leciona primeiras letras. Em 1877, recebe do pai um valor em dinheiro que o permite ir para São Paulo e matricular-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Mora numa república estudantil e toma contato com os embates políticos candentes da época: liberalismo, republicanismo e abolicionismo. Liga-se a Luiz Gama para não só apoiar a causa abolicionista como auxiliar um movimento clandestino de facilitação de fuga de escravos fugidos das fazendas de café de São Paulo. Passa a colaborar na imprensa, desde quando se notabilizou como jornalista, profissão que exerceria em conjunto com o magistério e a advocacia.
Entretanto, seria lançado à vida pública do país a partir de 1888 quando realiza um grande discurso republicano em Santos, com sucesso estrondoso, o que o lançou definitivamente à carreira política.
Os eventos que precipitaram o comício republicano de Santos tiveram como origem a dissolução da câmara dos vereadores de São Borja pelo Império.
D. Pedro II encontra-se gravemente doente e o risco da sua morte colocaria o país numa situação de perigo. Isso porque a sua sucessora direta era a Princesa Isabel. Diziam os vereadores que a herdeira do trono era “uma mulher obcecada pela educação jesuítica”. E pior: casada como um estrangeiro, o Conde D’eu, o que colocava o Brasil sob o risco de ser governado por um príncipe ligado à Dinastia dos Orléans da França. A soberania nacional estava ameaçada por culpa das regras de sucessão monárquica, fortalecendo o ponto de vista republicano.
Os vereadores de São Borja aprovam monção sugerindo consulta à nação para decidir pela manutenção da Monarquia ou instituição da República, dado o risco de morte de D. Pedro II. O fato repercute pelo Brasil e ganha a adesão das câmaras de São Paulo e do Rio de Janeiro. O presidente do Conselho de Ministro do Império, Barão de Cotegipe, decide reprimir o movimento e dissolve a Câmara de São Borja.
Foi o estopim de uma crise que levou Silva Jardim a convocar o grande comício de Santos em 1888. Numa época em que a esmagadora maioria do povo não sabia ler, eram através dos meetings e comícios públicos que se convocava a massas ao debate político. O orador passava horas fazendo os discursos substituindo através da palavra falada a doutrina republicana dos livros e jornais.
Silva Jardim e os demais republicanos exploravam as contradições internas do Regime Monárquico para defender a República. Já vinham usando a figura impopular do Conde D’eu para atacar o Império através da imprensa republicana, acusando o genro de Dom Pedro II de negociatas e até mesmo de explorar cortiços no Rio de Janeiro. O conde e sua esposa eram o bode expiatório ideal para a propaganda republicana.
O sucesso do comício de Santos leva Silva Jardim a levar adiante uma grande campanha nacional em defesa da república – pretende fazer manifestações por todo o país. Seu objetivo era erguer as massas para a derrubada violenta da Monarquia. Abandona a advocacia, vendendo a sua participação societária da banca que tinha na cidade de Santos. Todo o dinheiro arrecadado foi destinado à campanha.
As manifestações republicanas eram assaltadas pelos chamadas Guardas Negras. A tardia abolição da escravatura do Brasil foi feita ainda sob o regime monárquico, fazendo com que parcela do povo negro, beneficiado pela alforria, depositasse toda sua simpatia à Princesa Isabel. Isso colocava os ex-escravos em choque direto com os republicanos – acusavam-nos de querer restaurar a escravidão.
Os Guardas Negros eram capoeiras e alforriados recrutados com a finalidade de dissolver os comícios republicanos. Atacavam armados de navalhas e cacetes. Conta-se que recebiam dinheiro e orientações da polícia do Rio de Janeiro. Numa manifestação no Salão da Sociedade Francesa, os Guardas Negros cercam o prédio e pedem a cabeça de Silva Jardim. O rebelde republicano resiste. Em suas memórias, descreve o evento da seguinte forma:
“Conservei-me de pé, na tribuna, protestando não me retirar dali….Tirei o meu revólver e dispus-me a defender com a vida a liberdade de pensamento. Aí fiquei para bem simbolizar esse direito; era ali que deveria morrer, ou continuar a falar. De resto, era um melhor ponto para dirigir o combate…”.
Pouco tempo depois, o II Império seria derrubado pelo golpe militar de 15 de Novembro. Deodoro da Fonseca assume o poder provisório e uma nova assembleia constituinte foi convocada para o ano de 1890.
Silva Jardim, representando a ala mais jacobina do movimento republicano brasileiro, é logo preterido por setor moderada predominante no Partido Republicano – cumpre salientar que o partido sequer emprestou o seu apoio público ao comício de Santos, dados os riscos de se desafiar publicamente a autoridade do II Império.
Após a proclamação da República, Silva Jardim tenta ser eleito como deputado constituinte em 1890 mas é derrotado. Frustrado com os rumos políticos do país, viaja à Europa, onde faleceria num acidente na cidade de Pompeia, Itália.




