Análise da 3ª

Rui: vitória de Lula não resolveu a crise do PT

Presidente do PCO analisa a virada eleitoral, a pressão dos bancos sobre o próximo governo e a perseguição judicial a Flávio Bolsonaro

Lula venceu o segundo turno, mas o PT não recuperou a força que perdeu durante o governo. Rui Costa Pimenta fez esse balanço no Análise da 3ª desta terça-feira (27). O presidente do Partido da Causa Operária (PCO) afirmou que a virada eleitoral dependeu do apoio de setores decisivos da burguesia e que o petista terá de fazer novos acordos com eles para governar.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, à frente dos 53.876.617 de Lula. No domingo (25), o petista chegou a 64.256.232 votos, contra 59.826.041 do senador. Lula somou mais de 10 milhões de votos à sua votação inicial e venceu por uma diferença de 4,4 milhões.

A dimensão dessa virada ocupou boa parte do programa. Pimenta questionou a explicação de que os atos de campanha do PT teriam, sozinhos, conquistado os votos necessários. Chamou atenção para o eleitorado dos outros candidatos de direita no primeiro turno: seria difícil, avaliou, que uma parcela tão grande desses votos migrasse espontaneamente para Lula. O dirigente apontou a atuação da Rede Globo, de suas emissoras associadas e de políticos burgueses presentes nos estados e municípios como fatores decisivos.

“Eu acho que sem um esforço muito grande de todo esse complexo da política burguesa, esse resultado do Lula é inexplicável. Até com esse esforço é um resultado surpreendente.”

Pimenta citou ainda as medidas de governo anunciadas ou executadas durante a campanha para distribuir recursos à população. A ausência de uma reação da burguesia a essas despesas foi apresentada por ele como sinal de apoio à candidatura petista. Ao mesmo tempo, advertiu que seria preciso reunir mais elementos para determinar como cada grupo agiu em cada localidade.

“Ele adotou uma série de medidas de governo que distribuíam dinheiro para a população e a burguesia não protestou. Então isso daí evidencia que a burguesia, logicamente, estava apoiando a candidatura dele. Agora, como eles apoiaram em cada lugar, é difícil de dizer, a gente precisaria ter mais elementos.”

A análise sobre a intervenção dos capitalistas não foi apresentada como denúncia de fraude na contagem dos votos. Considerou os números surpreendentes, mas insistiu que a discussão política deveria partir do que se podia identificar: os interesses dos grupos que apoiaram Lula, a força conservada por Flávio Bolsonaro e os compromissos do governo que começará em janeiro.

A derrota presidencial, afirmou, não autoriza ninguém a decretar o fim do bolsonarismo. Uma parte da direita tradicional gostaria de substituir a família Bolsonaro, mas depende de seus eleitores. Pimenta recordou que a mesma previsão de desaparecimento foi feita depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022. Quatro anos mais tarde, Flávio chegou ao segundo turno com quase 60 milhões de votos.

A ofensiva judicial contra o senador foi o outro grande assunto da transmissão. Na segunda-feira (26), menos de um dia depois da eleição, Alexandre de Moraes proibiu Flávio de deixar o Brasil e ordenou que entregasse seus passaportes comum e diplomático à Polícia Federal. A decisão foi tomada numa investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz. Flávio não entregou os documentos no prazo, e a PF os cancelou nesta terça-feira. Durante o programa, circulavam notícias sobre sua possível saída do País. Depois, um aliado do senador e uma fonte do governo norte-americano disseram à Reuters que ele havia viajado aos Estados Unidos.

Pimenta tratou a medida de Moraes como perseguição política. Relacionou-a à votação recebida por Flávio e à possibilidade de uma bancada bolsonarista pressionar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) no Senado. Para o dirigente, chamar essa atuação do Judiciário de defesa da democracia significa ignorar a disputa de poder travada dentro do regime político.

“Esse ano aqui não houve nada que pudesse ser apresentado como tentativa de golpe, a perseguição vai continuar, evidentemente. A perseguição não tem nada a ver com defesa da democracia. […] Por que o Flávio Bolsonaro está sendo perseguido? Porque ele teve 60 milhões de votos quase, porque ele tem uma bancada muito expressiva no Senado e outra no Congresso, ele pode conseguir aí o impeachment de determinados ministros do STF. Então, a perseguição é por causa disso, é um jogo de poder.”

O presidente do PCO lembrou que seu próprio passaporte foi apreendido pela PF. Reprovou a atitude de setores petistas que denunciaram a perseguição a Lula, mas agora apoiam as restrições impostas ao candidato derrotado. A defesa das liberdades democráticas, sustentou, não pode depender da identidade política de quem é atingido. Na avaliação de Pimenta, novas medidas judiciais contra os bolsonaristas poderão inclusive reforçar sua ligação com a base eleitoral.

A aliança de Lula com o STF também entrou na explicação do voto nulo aprovado pela 39ª Conferência Nacional do PCO. Pimenta rejeitou a ideia de que o Partido estivesse obrigado a apoiar o petista por ter pedido votos para ele em 2022. Naquela eleição, Lula vinha da prisão e da campanha popular contra o golpe de 2016. Em 2026, disputou a Presidência à frente de um governo aliado a representantes da burguesia e aos ministros que o PCO acusa de comandar uma ditadura judicial. A resolução do Partido recusou o voto tanto em Lula quanto em Flávio Bolsonaro.

“O PT assumiu o governo e virou um partido muito conservador. Nós, o PCO, criticamos muito o PT, os quatro governos do PT. O pessoal não se dá conta disso. Agora, nós defendemos o PT contra uma perseguição política. Não quer dizer que a gente concordasse com as ideias do PT. Muita gente se confundiu com isso. Nessa eleição aqui, eu acho que o pessoal abriu o olho, por isso também foi importante que a gente tivesse proposto o voto nulo, que era para destacar essa divergência. Nós não somos o PT, nós não apoiamos a política do PT em geral.”

A vitória tampouco apaga, segundo Pimenta, o resultado do primeiro turno. O PT chegou à disputa final enfraquecido e reuniu eleitores que temiam Flávio, mas não aprovavam o governo. O dirigente criticou a busca de votos à direita, sobretudo a declaração de Lula favorável à redução da maioridade penal. O petista, observou, abandonou durante a campanha uma posição defendida durante décadas por seu partido.

Os bancos já cobram sua parte no novo mandato. Pimenta comentou as notícias sobre negociações de um ajuste fiscal e rejeitou a expectativa de que Lula, depois de reeleito, se voltaria para as reivindicações dos trabalhadores. Perguntado qual ajuste o PCO aceitaria, respondeu que o Partido se opõe a cortes de gastos sociais para garantir o pagamento aos credores da dívida pública. Defendeu suspender esse pagamento, retirar subsídios dos grandes capitalistas e cobrar impostos da burguesia.

O programa também abordou as disputas no Leste Europeu e a eleição em “Israel”. Pimenta afirmou que a União Europeia trabalha para afastar governos nacionalistas próximos da Rússia. Sobre “Israel”, disse que a possível troca de primeiro-ministro não mudaria a política do Estado colonial contra o povo palestino: a defesa dessa política não começou com Benjamin Netaniahu nem se limita a seu partido.

Ao responder a um ouvinte sobre a duração da luta revolucionária, Pimenta voltou ao trabalho que o PCO defende para além das eleições. Recordou que Marx e Engels continuaram a organizar o movimento operário mesmo depois de constatar que a revolução esperada após 1848 não viria imediatamente.

“Eu acho que ser revolucionário não é você fazer política com a garantia de que a revolução vai acontecer. […] Bom, a gente continua trabalhando pela revolução. Ela vai acontecer, mas quando ninguém sabe. […] Marx e Engels também não viram a revolução. Eles participaram de uma revolução, 1848. Eles tinham também […] a expectativa de que a revolução viria. Aí eles se deram conta de que a revolução não viria tão cedo assim. Eles continuaram trabalhando.”

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