Entrevista

Rui Pimenta: sequestro de Maduro é ‘cortina de fumaça’

Presidente nacional do PCO conversou com Leonardo Attuch, da TV 247, sobre os últimos acontecimentos da política nacional e internacional

Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, na TV 247, o presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, realizou um balanço crítico dos três anos dos atos de 8 de janeiro e das recentes movimentações de Donald Trump.

Ao analisar a cerimônia em Brasília que marcou os três anos do 8 de janeiro, Rui Costa Pimenta classificou o evento e o veto de Lula à lei da “dosimetria” como um “jogo de cena”. Segundo ele, existe um acordo tácito entre o bolsonarismo, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo.

“O Lula vai lá, veta, o pessoal que apoia ele fala: ‘está vendo, ele está lutando em prol da democracia’. Na verdade, ele sabe que o veto dele vai ser derrubado”, afirmou o dirigente, referindo-se ao processo como uma “enorme pizza”.

Para Pimenta, a própria viabilidade de um acordo sobre as punições demonstra que as instituições não tratam a “tentativa de golpe” com a gravidade alardeada publicamente. Ele acredita que o veto presidencial cairá naturalmente, pois o entendimento já estaria selado, inclusive em acordo com o presidente norte-americano Donald Trump.

Sobre o futuro eleitoral da direita, o presidente do PCO indicou que a manutenção da inelegibilidade de Jair Bolsonaro faz parte do ajuste político atual. “Acho que parte do acordo é que o Bolsonaro vai continuar inelegível, só que ele vai ter uma redução na pena dele”, previu.

Pimenta observou que o cenário para 2026 ainda está em desenvolvimento, mas destacou a movimentação de Flávio Bolsonaro como um nome palatável para o “grande capital”. Conforme explicou o analista, o filho do ex-presidente estaria tentando se desvincular da imagem radical do pai para se apresentar como um político mais flexível e propenso a transações, buscando ocupar o espaço que a burguesia tentou consolidar com nomes como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior.

Questionado sobre os riscos de uma eventual prisão prolongada de Bolsonaro, Rui Pimenta reiterou sua posição contrária à repressão judicial como método de luta política. Ele alertou que, caso o ex-presidente morra sob custódia, poderá se tornar um “mártir da direita”.

“Eu não sou partidário da repressão política como método para a esquerda. É uma ilusão da esquerda achar que pode reprimir os adversários através do sistema.”

Segundo Pimenta, a esquerda deveria focar em mobilizar e convencer o povo em torno de um programa próprio, em vez de atuar como “coadjuvante” do aparato repressivo do Estado.

A reportagem também abordou a possível chapa entre Aldo Rebelo e Fábio Wajngarten. Pimenta vê o movimento não como uma linha auxiliar do bolsonarismo, mas como uma tentativa de delimitar um campo “nacionalista e conservador, mas não bolsonarista”.

Quanto ao PCO, o dirigente confirmou que o Partido planeja realizar um congresso no início do ano para decidir sobre uma candidatura própria à presidência. Ele esclareceu que o objetivo não seria dividir os votos de Lula, mas sim utilizar a campanha como uma tribuna ideológica. A candidatura serviria para “defender um programa que fosse além dessa transação institucional que é a política do PT”, focando nos setores mais críticos e pensantes da esquerda.

No campo internacional, Pimenta ofereceu uma interpretação pragmática sobre o sequestro de Nicolás Maduro e a atuação de Donald Trump. Para ele, a agressividade de Trump é, em grande parte, uma “cortina de fumaça”. “Os Estados Unidos precisam do petróleo da Venezuela e eles não podem conseguir esse petróleo à força”, explicou.

De acordo com o dirigente, Trump utilizou o sequestro como um golpe de propaganda para justificar a retomada da compra de petróleo sem parecer que estava capitulando diante do governo venezuelano. Pimenta acredita que o chavismo continua governando e que figuras como Delcy Rodríguez devem ser apoiadas contra o que chamou de “intriga da imprensa burguesa”.

Finalizando a entrevista, Rui comentou sobre o escândalo envolvendo o Banco Master e sua relação com o chamado “Centrão”. Ele descreveu o conflito como uma guerra entre os grandes bancos e um setor secundário da burguesia, com fortes conexões políticas.

“Se o Michel Temer está na parada, isso significa que um setor importante do regime político está envolvido com o Banco Master”, afirmou, referindo-se ao ex-presidente como o “vampiro da política nacional”. Pimenta concluiu que essa “massa podre” no Congresso representa uma gangrena que o governo Lula ainda terá dificuldades em enfrentar.

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