No programa Análise Política da 3ª, da Rádio Causa Operária, exibido nesta terça-feira (6), o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, fez um balanço duro do terceiro governo Lula. Segundo ele, o Planalto “decepcionou uma quantidade gigantesca” de eleitores, ao aplicar uma política econômica neoliberal, restringir a política social a iniciativas menores e, sobretudo, adotar uma orientação repressiva na política interna e um alinhamento ao imperialismo na política externa.
Pimenta afirmou que o eleitorado que apoiou Lula “esperava mais”, inclusive, “uma certa independência política em relação ao imperialismo”. Para o dirigente do PCO, o governo terminou por levar adiante “uma política neoliberal na economia” e, no terreno social, não apresentou “nenhum grande programa social”. Ao tratar das medidas anunciadas, Pimenta observou que, quando surgem iniciativas, elas “têm um caráter eleitoral”.
No plano econômico, Pimenta disse que, do ponto de vista de resultados concretos, “foi um governo sem nenhuma grande realização positiva”. Ele apontou como “ponto alto” dessa orientação a escolha de Gabriel Galípolo para a presidência do Banco Central e a manutenção de juros elevados. “O ponto alto dessa política foi a escolha do Galípolo para presidente do Banco Central e taxa de juros de 15%”, declarou. Pimenta também disse que, apesar dessa linha, o governo “não conseguiu aprovação para sua política de ajuste fiscal”.
Ao comentar a defesa do governo com base em indicadores, Pimenta foi categórico: “defensores do governo vão alegar que índices econômicos são maravilhosos, o que é uma bobagem. Ninguém vive com índices econômicos, vive com a realidade”. Na avaliação do dirigente, “a economia brasileira é uma economia distorcida”, e a leitura oficial não corresponde ao cotidiano da maioria da população.
Para Pimenta, contudo, “o pior do governo” não foi apenas a economia. O dirigente do PCO disse que, na política, o PT “enveredou por política de repressão”, e que setores governistas usaram o bolsonarismo como pretexto para defender medidas arbitrárias. “Usando o bolsonarismo como pretexto, vários setores lançaram uma política de censura, de apoio às medidas arbitrárias do STF, de Alexandre de Moraes, e criaram ambiente de repressão total no País. Essa eu acho a parte pior do governo”, disse.
Segundo ele, há uma contradição central: um governo que se apresenta como popular atuaria “no sentido diametralmente oposto” ao que seria necessário para uma política progressista, que, em suas palavras, deveria elevar a consciência política das massas. “O governo apresenta todas as suas debilidades como grande vitória”, afirmou.
Política externa: Palestina e Venezuela
Pimenta acrescentou que, acima de tudo, “o pior de tudo” foi a política externa. Sobre a Palestina, ele classificou a atuação do governo como “lamentável”. Pimenta disse que, embora Lula tenha condenado o genocídio, isso não diferenciou o Brasil, pois “até os países imperialistas condenaram” a matança. Para o presidente do PCO, o problema central foi o tratamento dado à resistência palestina: “fez campanha contra a resistência palestina, que o governo classificou como tendo atos de terrorismo, o que é absurdo”, afirmou.
Ao tratar da Venezuela, Pimenta disse que o governo brasileiro se colocou em posição “muito delicada” ao não reconhecer as eleições no país. Segundo ele, o Planalto alegou falta de atas, mas “todo mundo sabia” que o processo eleitoral ocorria sob pressão do imperialismo. Pimenta declarou que o governo “deu ouvido” à oposição venezuelana dirigida por Corina Machado e citou, como episódio decisivo, o veto do Brasil à entrada da Venezuela no BRICS.
“Depois o governo fez uma coisa que espantou todo mundo, que foi vetar a Venezuela no BRICS, que facilitou a intervenção militar dos Estados Unidos”, disse Pimenta. Na sequência, ele concluiu que o Planalto foi surpreendido pela escalada dos acontecimentos: o governo, segundo ele, foi “pego totalmente na contramão” com o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Crítica à esquerda
No programa, Pimenta também denunciou o que chamou de falência política da esquerda brasileira diante dos ataques imperialistas. Ele criticou a formulação segundo a qual seria possível “defender o povo, mas não o governo” em situações de agressão externa. “Numa guerra, o ataque é contra o governo, o Estado venezuelano. Você não pode encarar a nação de um ponto de vista abstrato”, afirmou, defendendo que território, instituições e organizações sociais fazem parte do problema concreto.
Pimenta destacou que apoiar um país atacado não significa endossar cada medida de seu governo, e condenou a confusão entre as duas coisas: “eles confundem não apoiar a política de todo governo com não apoiar o governo contra o imperialismo. Uma política errada neste nível leva que você se coloque ao lado do imperialismo”, declarou.
O dirigente do PCO também afirmou que existe uma propaganda permanente contra os países mais atacados pelo imperialismo, citando Cuba, Venezuela, Irã, Rússia e China, e que parte da esquerda termina capturada por essas pressões. “Isso é declaração de indigência política total, se deixar levar por essa propaganda”, disse. E concluiu: “se você tem medo da opinião pública, você não pode ser revolucionário. Você é um escravo ideológico do imperialismo”.
Pimenta ainda citou a postura de setores da extrema direita internacional para sustentar que há, nesses agrupamentos, uma orientação mais coerente do que a da esquerda amiga do imperialismo. Ele mencionou o Reagrupamento Nacional, da França, e afirmou que não se trata de “partido de brinquedo”, pois “almeja poder político” e pode chegar ao governo. Segundo Pimenta, esses setores reconhecem que, no poder, teriam atrito com os Estados Unidos e, por isso, acabam apresentando uma posição “mais honesta” ao dizer que “quem tem que resolver é o povo venezuelano”.
Julgamento-farsa de Maduro
Outro ponto abordado por Pimenta foi o julgamento de Maduro nos Estados Unidos, que ele qualificou como “julgamento-farsa”. O dirigente disse considerar revelador que o sistema jurídico norte-americano “não se envergonhe” de julgar um presidente estrangeiro sequestrado. “Eles não têm jurisdição em primeiro lugar, a acusação é fictícia, e é um espetáculo que revela para o mundo inteiro o que é o imperialismo”, afirmou.
Na avaliação de Pimenta, a operação de acusar Maduro por drogas tem alcance limitado. “Não acho que propaganda contra drogas vá surtir um grande efeito. A maioria das pessoas não aceita isso”, disse, mencionando que viu levantamento em que apenas cerca de um terço nos EUA seria favorável ao que ocorreu na Venezuela e acrescentando que, se essa é a margem lá, no Brasil a resistência seria ainda maior.
Pimenta também comentou a postura de Maduro diante do tribunal. Disse que, no lugar do presidente venezuelano, sequer constituiria advogado e rejeitaria a autoridade do julgamento: “eu não reconheço isso aqui”. Para Pimenta, ao afirmar ser “prisioneiro de guerra”, Maduro indicou que não reconhece o tribunal, embora tenha dito que iria se defender. Ainda assim, Pimenta avaliou que o caso pode ser usado politicamente: “o julgamento deve ser usado como tribuna”, afirmou.
O dirigente do PCO também rejeitou versões disseminadas contra a direção venezuelana. “Toda intriga de que Maduro estava a ponto de fugir da Venezuela, que ia fazer acordo com Trump para escapar, era tudo mentira”, declarou. Pimenta disse que continuam circulando afirmações de que a vice-presidente venezuelana seria de direita e estaria negociando com Trump, e concluiu: “a desinformação é enorme”.
Segurança, espionagem e ataques do sionismo
Ao tratar do sequestro de Maduro, Pimenta afirmou que houve falha grave de segurança do governo venezuelano. Ele disse que Maduro subestimou a capacidade do imperialismo e mencionou relatos sobre procedimentos de proteção que não foram seguidos no momento da operação, além de registrar que seguranças cubanos foram assassinados durante a ação.
Pimenta ampliou o comentário para a atuação do sionismo e relatou que, em episódios recentes, como a eliminação da direção do Hesbolá, a operação se apoiou em um trabalho sistemático de espionagem e infiltração, mais do que em explicações simplistas. Ele afirmou que algo semelhante teria ocorrido no Irã, com assassinatos e ataques precedidos por operações clandestinas, e citou acusações segundo as quais parte da espionagem teria se apoiado em agentes vinculados a estruturas internacionais do setor nuclear, tema que, segundo ele, veio à tona após os acontecimentos.
Balanço e perspectiva
Ao final, Pimenta sintetizou que o governo Lula é “uma decepção em geral para o eleitorado” e que há “um enfraquecimento geral” do governo. Para ele, a experiência reforça um impasse: “o governo Lula mostrou que não há caminho pela via eleitoral. Ele ganhou e não conseguiu fazer nada de importante”. E concluiu com uma provocação política sobre o horizonte imediato: “a próxima etapa é: vamos ganhar eleição. Mas vão ganhar e fazer o quê no governo?”.
Pimenta foi ainda mais direto ao afirmar que, se um eventual novo mandato servir para repetir escolhas como as de Galípolo no Banco Central, sustentar censura na Internet e se alinhar com Trump contra a Venezuela, “melhor deixar a direita assumir”, porque, segundo ele, não haveria mudança.




