Crítica ao PT

Rui: mentira sobre Nossa Senhora Aparecida expõe farsa das ‘fake news’

Boato contra Flávio Bolsonaro foi impulsionado por setores governistas e levou Rui Costa Pimenta a denunciar uso eleitoral da política de censura

Durante a Análise Política da Semana realizada no sábado (26), Rui Costa Pimenta comentou a notícia falsa que tomou conta das redes sociais na reta final da campanha presidencial: a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito.

A história é falsa. Não existe proposta de Flávio Bolsonaro nesse sentido. O boato recuperou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que pretendia alterar a expressão “Padroeira do Brasil” para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008 e não tinha qualquer relação com Flávio Bolsonaro.

Para Rui, o episódio mostra uma contradição central da campanha contra as chamadas “fake news”. Durante anos, setores ligados ao PT defenderam a criação de instrumentos cada vez mais duros de censura, remoção de publicações e punição de pessoas acusadas de divulgar informações falsas. Na eleição de 2026, porém, uma informação falsa que prejudicava o candidato bolsonarista foi amplamente difundida por setores da própria esquerda.

“O PT, o Lula, me lembro que ele discursava e falava o seguinte: ‘tem que prender quem mentir’. […] Bom, nessa eleição nós temos fake news também e a mais significativa delas é a de que o Flávio Bolsonaro, se ganhasse a eleição, ia retirar o título de padroeira do Brasil para Nossa Senhora Aparecida”, afirmou Rui.

O boato ganhou grande repercussão na quinta-feira (24). Segundo levantamento da Palver divulgado pela Folha de S.Paulo, 37% das mensagens monitoradas tratavam a informação falsa como verdadeira, acompanhada de manifestações de indignação entre católicos e pedidos para que não votassem em Flávio. Outro monitoramento citado pelo jornal apontou que perfis de esquerda foram responsáveis por dois de cada três conteúdos publicados sobre o assunto.

A falsa informação ganhou ainda mais alcance depois de uma declaração transmitida pela GloboNews sobre uma suposta movimentação de setores evangélicos para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. A emissora posteriormente se retratou e esclareceu que o caso utilizado como referência era o antigo projeto de 2007, sem vínculo com o atual candidato do PL.

Flávio Bolsonaro negou a história e afirmou que jamais proporia a retirada do título. O candidato é evangélico, mas declarou que respeita todas as religiões. Sua campanha procurou utilizar o episódio para acusar adversários ligados ao PT de espalharem deliberadamente uma mentira durante a reta final da eleição.

Para Rui, porém, a importância do episódio não está em defender Flávio Bolsonaro, mas em expor a utilização política da própria noção de “fake news”.

“Não é que tinha que prender quem falasse mentira? Então tem que prender um monte de gente do PT, porque essa mentira é muito cabeluda. Isso aí mostra que quem acreditou na história das fake news acreditou numa conversa muito mole”, disse.

O candidato do PCO vem criticando há anos a política de combate judicial às chamadas notícias falsas. Para ele, entregar ao Judiciário, às plataformas ou ao Estado a tarefa de determinar quais afirmações políticas podem circular cria um mecanismo de censura que inevitavelmente será utilizado de maneira seletiva.

O episódio de Nossa Senhora Aparecida dá força a essa crítica porque demonstra que a mentira eleitoral não pertence exclusivamente a um setor.

O discurso dominante nos últimos anos procurou vincular “fake news” quase automaticamente ao bolsonarismo. A própria vitória de Jair Bolsonaro em 2018 foi repetidamente explicada por setores da esquerda como resultado de uma suposta máquina de notícias falsas nas redes sociais. Essa interpretação ajudou a justificar a expansão das decisões judiciais sobre conteúdo político na Internet, inclusive o chamado inquérito das fake news do STF.

Agora, diante de uma eleição disputada, a informação falsa atingiu precisamente o candidato da direita.

A repercussão foi tamanha que o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou na sexta-feira (25) que as plataformas retirassem conteúdos que apresentassem como verdadeira a informação de que Flávio pretendia destituir Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. Mendonça classificou a narrativa como “notoriamente inverídica” e determinou atuação preventiva das redes contra sua circulação.

A intervenção do TSE, entretanto, não muda a crítica apresentada por Rui. Para o PCO, não deveria caber ao tribunal controlar a discussão política nas redes, seja contra a direita, seja contra a esquerda. Uma mentira deve ser denunciada, desmentida e combatida politicamente, e não transformada em justificativa para ampliar o poder de censura do Estado.

O caso é particularmente revelador porque não havia qualquer dificuldade em demonstrar a falsidade da história.

O projeto utilizado para sustentar o boato é público. Trata-se do PL 2.623/2007, que foi arquivado quase duas décadas atrás. Flávio Bolsonaro não era seu autor, não apresentou proposta semelhante durante a campanha e negou expressamente que pretendesse fazê-lo.

Mesmo assim, a mentira circulou em grande escala porque tinha utilidade eleitoral: poderia criar medo entre os católicos e desgastar a candidatura do PL.

Segundo a análise de Rui, é justamente assim que funciona a política das “fake news”. A definição do que deve ou não ser perseguido não ocorre num vazio político. Governos, tribunais, partidos e grandes meios de comunicação possuem seus próprios interesses e também participam da disputa.

“Quem acreditou que a direita bolsonarista era contra a censura também ficou muito decepcionado nessa eleição, porque a quantidade de processos que os bolsonaristas, junto com o PT, lançaram contra os adversários é inacreditável. Então ninguém é sério nesse negócio”, afirmou.

Rui chamou atenção, portanto, para os dois lados da questão. O episódio não provaria que apenas o PT utiliza acusações falsas, assim como as campanhas anteriores não provaram que apenas a direita o fazia. Também não significaria que o bolsonarismo tenha uma posição consequente em defesa da liberdade de expressão. Ambos os grandes blocos recorrem ao Judiciário quando consideram conveniente retirar conteúdos ou atingir adversários.

O resultado é o fortalecimento permanente dos tribunais sobre a política.

O caso de Nossa Senhora Aparecida mostra também como o medo pode ser explorado numa campanha eleitoral. Um assunto religioso extremamente sensível foi utilizado para apresentar um candidato como ameaça direta à fé de milhões de pessoas, embora não houvesse proposta alguma que sustentasse a acusação.

Para Rui, a resposta não deve ser criar mais censura. O episódio demonstra justamente o contrário: quando uma informação é falsa, deve-se mostrar os fatos e desmontá-la publicamente.

A história sobre Nossa Senhora Aparecida durou pouco antes de ser desmentida, mas deixou exposta uma contradição que não desaparecerá depois das eleições. Os mesmos setores que exigiram punições, bloqueios e até prisão em nome do combate à mentira política demonstraram que, diante de uma disputa eleitoral, a própria utilização de informações falsas pode se tornar uma arma conveniente.

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