Luta pela terra

Romaria da Terra celebra vitória histórica da luta camponesa em Sapé

Caminhada na Paraíba recordou militantes assassinados e festejou a conquista da posse da antiga Fazenda Antas por 21 famílias

A 37ª Romaria da Terra da Arquidiocese da Paraíba reuniu comunidades rurais no sábado (17) para celebrar a conquista da posse da antiga Fazenda Antas, em Sapé, por 21 famílias da comunidade Barra de Antas. A terra foi conquistada em 5 de fevereiro, após uma disputa que atravessou mais de seis décadas.

Os participantes saíram do Sítio Terra Santa, em Café do Vento, município de Sobrado, e seguiram até o Assentamento Elizabeth Teixeira. A caminhada, organizada com participação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recebeu o tema “Sementes Lançadas, Vidas Ceifadas, Terra Conquistada”. O destino não foi escolhido por acaso: Sapé foi um dos principais centros das Ligas Camponesas.

Na região atuou João Pedro Teixeira, dirigente assassinado em 1962. Sua morte tornou-se um símbolo do recurso à violência pelos latifundiários para impedir que os trabalhadores rurais se organizassem. Durante a romaria, os participantes lembraram também Margarida Alves, liderança sindical assassinada em 1983, e outros militantes mortos nos conflitos pela terra.

O sentido da celebração, porém, não se limitou às homenagens. A antiga fazenda, objeto de uma luta iniciada por gerações anteriores de agricultores, passou a abrigar famílias que podem produzir na terra conquistada. Para quem depende do trabalho agrícola, essa mudança significa deixar de viver sob a ameaça permanente de expulsão e dispor de uma base para organizar a própria produção.

Durante a missa, o padre Hermínio, um dos fundadores da CPT, recordou uma frase de um agricultor do Agreste paraibano: “No passado, a CPT trazia para nós alimentos. Hoje, nós levamos alimentos para a CPT e para a Romaria da Terra. Que bonito!” A declaração, reproduzida pela entidade, resume a passagem da necessidade de receber alimentos à possibilidade de produzi-los e compartilhá-los.

A conquista de Barra de Antas não apaga o problema do latifúndio. Trabalhadores rurais continuam dependendo de crédito, transporte, equipamentos e canais de comercialização que frequentemente lhes são negados. Grandes proprietários, por sua vez, concentram terras e recursos, enquanto comunidades inteiras precisam passar décadas lutando pelo direito de plantar.

As Ligas Camponesas mostraram que a reforma agrária depende da organização dos trabalhadores, não da boa vontade dos proprietários. A história de Sapé reúne a perseguição sofrida pelos dirigentes e a persistência de seus companheiros. A posse obtida em fevereiro é uma vitória dessa continuidade: a luta prosseguiu mesmo depois dos assassinatos e da repressão que procuraram desmantelá-la.

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