José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

Reindustrialização e Correlação de Forças

“Se o país tivesse uma política econômica soberana, com projeto nacional de desenvolvimento, teria aqui muitas empresas de primeira linha”

Embora os dados definitivos de 2025 ainda dependam da consolidação anual do IBGE, segundo os dados disponíveis, a indústria de transformação encerrou o ano mantendo uma participação próxima aos 10,8% do PIB, refletindo um cenário de estagnação, apesar dos esforços do governo, de reindustrialização. O esforço pela retomada da indústria no Brasil não é ação trivial que possa ser feita sem um grande esforço nacional.

Como qualquer grande problema do país, a reindustrialização requer uma forte mobilização da sociedade, pois depende de correlação de forças. Os países centrais não querem indústria forte na periferia do sistema. Para esses países, as nações atrasadas devem se concentrar em enviar matérias-primas e commodities para o centro industrial imperialista. Essa dificuldade fica ainda mais nítida em períodos de grave crise internacional, como o atual.

Os problemas econômicos atuais do Brasil não são meros obstáculos no ciclo de crescimento, de redução “normal” da atividade econômica. Na realidade, o país enfrenta uma crise estrutural, somada a uma verdadeira guerra econômica, que se origina dos países imperialistas. É uma política deliberada de liquidação das economias de alguns países, visando inclusive reduzir parte das forças produtivas e o “excesso” de mercadorias ao nível internacional. Excesso, aqui temos que entender bem, em relação àquilo que as pessoas podem comprar, que é o que interessa ao funcionamento da engrenagem capitalista.

É o conhecido problema de sobreprodução de mercadorias, que é relativa, decorrente do fato de que uma parte da produção não é absorvida porque a população não tem dinheiro para comprar. Tal política de guerra não é exclusivamente contra o Brasil, mas sim contra todos os países atrasados com aspirações de desenvolvimento e soberania nacional. Sempre houve tal política, mas ela foi muito intensificada em função da atual crise econômica internacional, que se agravou muito.

Neste momento de grande crise e de disputa acirrada por mercados mundiais, os EUA estão declarando que não aceitam políticas nacionalistas, especialmente quando desenvolvidas em aliança com seus principais inimigos no mundo, China e Rússia. Sempre foi assim: imperialismo é um jogo de força, mesmo. A tresloucada política de “tarifaço” de Donald Trump vai, inclusive, na contramão dessa política imperialista, de obrigar os países a abrirem suas economias. O estabelecimento de elevadas tarifas de importação por parte dos EUA, na gestão Trump, justifica a reciprocidade por parte dos demais países, o que vai contra o interesse dos grandes grupos econômicos dos EUA, que sempre ganharam muito dinheiro com a globalização e a abertura dos mercados nacionais.

Nos países desenvolvidos, que em alguns casos também se desindustrializaram, a indústria nacional já cumpriu o seu papel no desenvolvimento econômico, colocando a renda per capita da população em patamar mais elevado. Além disso, os países imperialistas praticam política industrial que procura tirar vantagens de todas as situações econômicas possíveis, pelo bem ou pelo mal. Ao se desindustrializar, o Brasil está perdendo, gradativamente, a sua maior conquista econômica no Século XX. Entre 1930 e 1980, a economia brasileira cresceu a elevadas taxas (6,8%, entre 1932-1980) baseado no processo conhecido como substituição de importações, com fortes incentivos estatais à industrialização através das políticas cambial, tarifária e fiscal.

Não há desenvolvimento da indústria sem políticas públicas articuladas. O setor privado tem que ser induzido a investir, especialmente na fase atual de financeirização, na qual predominam os investimentos financeiros em detrimento da produção. Nessa etapa, as estratégias empresariais passam a privilegiar resultados financeiros de curto prazo, em vez de investir no longo prazo ou em inovação produtiva. Todas as decisões das corporações acabam se subordinando à lógica financeira.

Com base em estudo da UNIDO (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial), o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) elaborou o ranking dos maiores parques manufatureiros do mundo, com destaque para a posição do Brasil. Segundo a análise, a participação brasileira no valor adicionado da indústria manufatureira global declinou novamente, embora em ritmo inferior à anos anteriores. Segundo o estudo, que vai até 2023, o Brasil seguiu declinando no sistema industrial mundial, especialmente em função de um desempenho inferior dos ramos de maior intensidade tecnológica.

O país está na 15ª posição do ranking mundial da indústria manufatureira, construído a partir do valor adicionado do setor em dólares a preços constantes de 2015. A participação do Brasil no valor adicionado manufatureiro mundial foi de 1,21% em 2023, muito restrito, considerando que se trata da 10ª maior economia do mundo. O país é a 10ª economia do mundo, mas com um percentual ridículo de participação industrial.

O ranking em valor adicionado, em 2023, era:

  • China: com 31,8% da manufatura mundial;
  • EUA, com 15,1%;
  • Japão, 6,6% do total.

A análise da distribuição do valor adicionado entre as principais economias do mundo, pode explicar, em boa parte, a escalada de hostilidades dos EUA em relação à China (já antes de Trump, claro): a participação do gigante asiático em 2023, em valor adicionado, era maior que a soma das 4 potências industriais seguintes (EUA, Japão, Alemanha e Índia), que juntos responderam por 29,5% do valor adicionado da indústria no mundo. Há pouco mais de vinte anos, em 2005, nesse ranking a China aparecia com 13,2%, em 2º lugar, e os EUA, 1º no ranking, participava com 22,6% no total.

Enquanto a China escalou no ranking, entre 2005 e 2023, o Brasil caiu da 10ª para a 11ª posição, e saiu de uma participação de 2,2% do total de valor adicionado produzido no mundo para 1,55%. Segundo o estudo, consideradas as vinte maiores manufaturas do mundo, o Brasil aparece como um dos países que mais desceram no ranking, recuando 5 posições entre 2005 e 2023, desempenho melhor somente que Espanha e Canadá, que recuaram 7 posições.

Quando cai o peso da indústria em relação ao PIB porque as famílias estão consumindo mais serviços, essa pode ser considerada uma trajetória natural. Mas no Brasil ocorreu uma desindustrialização prematura. A indústria começou a perder peso na estrutura produtiva antes da renda da população subir. Nos últimos anos, inclusive, a redução do peso da indústria no PIB ocorreu simultaneamente à queda da renda per capita, o que trouxe muitas consequências negativas para o país, a começar pelo maior impacto sobre a população mais pobre e a maior concentração de renda. Muitos empregos da indústria, por exemplo, migraram para o setor de serviços, que tem menor remuneração média e maior informalidade.

O desenvolvimento dos países imperialistas e dos países atrasados é, como se sabe, desigual e combinado. Combinado aqui no sentido de que o desenvolvimento dos primeiros está relacionado ao atraso dos segundos. Isso significa que, para reindustrializar o país e melhorar a renda da população, é fundamental enfrentar a atual divisão internacional do trabalho, dominada pelos países ricos.

Por essa razão, a implementação de políticas que revertam a redução da indústria no PIB nacional está intimamente ligada ao debate sobre soberania nacional. O problema é fundamentalmente político, se o país tivesse uma política econômica soberana, com projeto nacional de desenvolvimento, teria aqui muitas empresas de primeira linha, com capacidade de disputar mercados mundiais. A conquista de um projeto soberano de desenvolvimento depende do rompimento com a dependência externa. Essa transição, entretanto, é dificultada por condicionantes econômicos e políticos de grande complexidade.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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