Eleito neste domingo (8) pela Assembleia dos Peritos como novo Líder da Revolução Islâmica, Saied Mojtaba Hosseini Khamenei, de 56 anos, assumirá a condução política e religiosa da República Islâmica do Irã após o assassinato de seu pai, o aiatolá Saied Ali Khamenei, na agressão lançada por Estados Unidos e “Israel” em 28 de fevereiro. Sua escolha ocorre em meio à guerra contra o país e foi apresentada pelas autoridades iranianas como uma resposta direta à tentativa imperialista de desorganizar o comando do Estado iraniano.
Nascido em 1969 na cidade sagrada de Mashhad, Mojtaba Khamenei cresceu no interior do núcleo dirigente da Revolução Islâmica. Sua infância e juventude transcorreram no período de consolidação do novo regime inaugurado em 1979, o que lhe deu contato direto, desde cedo, com o funcionamento das instituições do Estado, os processos de decisão e a organização política da República Islâmica.
Ao contrário de outras figuras que ascenderam por meio de cargos formais de governo, Mojtaba Khamenei consolidou sua posição por canais menos visíveis. Ao longo de décadas, construiu relações com o aparato de segurança, com instituições religiosas e com diferentes círculos políticos do país. Esse acúmulo de influência, sem exposição pública contínua, fez com que seu nome passasse a ocupar um lugar central nas avaliações sobre os rumos da política iraniana.
Sua formação religiosa foi desenvolvida sobretudo nos seminários de Qom, principal centro teológico do islamismo xiita no Irã. Ali, dedicou-se ao estudo da jurisprudência islâmica e dos fundamentos da lei islâmica, alcançando os níveis mais avançados da formação clerical. Ele lecionou durante mais de 17 anos cursos avançados nessas áreas, o que lhe garantiu reconhecimento entre religiosos e estudiosos.
Essa base religiosa foi combinada com uma trajetória ligada à defesa do país. Durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, Mojtaba passou a atuar junto ao Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, servindo em unidades militares ao lado de combatentes que mais tarde se transformariam em importantes comandantes do aparato de segurança iraniano. Esses vínculos, forjados no período que o Irã denomina de “Defesa Sagrada”, são apontados como um dos fatores centrais para a confiança que hoje recebe da chefia militar do país.
Foi justamente essa combinação, autoridade religiosa, relações com o aparelho militar e trânsito político, que o colocou em posição única para assumir a liderança em um momento de guerra aberta. Mojtaba desempenhou papéis importantes na coordenação de iniciativas políticas, na construção de canais de comunicação entre órgãos do Estado e na ligação entre o gabinete do Líder e outros ramos do governo.
Seu nome ganhou projeção mais ampla especialmente a partir da crise política de 2009, quando o Irã enfrentou uma de suas principais tensões internas. Desde então, passou a aparecer de maneira recorrente nas discussões sobre o equilíbrio de forças dentro da República Islâmica e sobre a sucessão da liderança.
A eleição de Mojtaba Khamenei tem também um sentido político mais amplo. O assassinato de Saied Ali Khamenei foi apresentado por autoridades iranianas como parte de uma tentativa dos Estados Unidos e de “Israel” de desferir um golpe de “decapitação” contra a direção do país, paralisando o processo decisório iraniano e favorecendo uma transição conveniente aos interesses imperialistas. Nesse quadro, a escolha do novo líder aparece como uma defesa da soberania nacional diante da ingerência estrangeira.
Donald Trump chegou a atacar publicamente Mojtaba Khamenei e a indicar sua preferência por uma sucessão alinhada aos objetivos regionais dos EUA. Nessas condições, a eleição promovida pela Assembleia dos Peritos foi tratada no Irã como uma demonstração de unidade entre o clero, o aparato militar e os diferentes setores do regime contra a tentativa de imposição externa.
A transição recebeu apoio de amplos setores do Estado iraniano. O presidente Massoud Pezeshkian declarou que a escolha abre uma nova etapa para a autossuficiência e a prosperidade do povo iraniano. O vice-presidente Reza Aref manifestou apoio afirmando que Mojtaba Khamenei é uma pessoa sincera e capaz para a liderança, conhecedora dos problemas do sistema e do Estado. O chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni-Ejei, assinalou que a decisão foi tomada por maioria esmagadora da Assembleia dos Peritos e exaltou o papel do órgão na preservação da estabilidade nacional.
Também as Forças Armadas iranianas, por meio do quartel-general Khatam al-Anbiya, declararam prontidão para a obediência completa ao novo líder e renovaram sua lealdade aos princípios da Revolução Islâmica. O apoio não ficou restrito ao interior do Irã. Entre os aliados regionais, Mahdi al-Mashat, chefe do Conselho Político Supremo do Iêmen, afirmou que a escolha é um indicador da força e da coesão do Irã. O Ansar Alá declarou confiança de que o país avançará rumo a uma grande vitória. No Iraque, o Cataebe Hesbolá classificou a nomeação como demonstração da profundidade de visão da Assembleia dos Peritos.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, ressaltou que os inimigos calculavam que o assassinato de Khamenei deixaria o país num impasse. Para ele, a eleição de Mojtaba demonstrou a capacidade institucional da República Islâmica de manter a continuidade de sua direção mesmo sob ataque direto.




