O futuro do Brasil, artigo de Emir Sader publicado neste sábado (24) no sítio A Terra é Redonda, apesar do nome, envereda por outros assuntos, como colonialismo e O Capital. No entanto, vamos nos concentrar na primeira parte.
No olho do artigo tem-se que “entre os avanços democráticos e as heranças do colonialismo, o Brasil enfrenta o desafio de superar o ciclo neoliberal para definir sua soberania no século XXI”.
Após a infiltração do identitarismo na esquerda, essa questão da “herança colonial” tem aparecido insistentemente. Seja para justificar nosso atraso, seja para culpar o país por seu passado escravagista. Para os identitários, o Brasil tem uma dívida com os negros e exigem “reparação histórica”.
Essa “reparação” ignora que a escravidão não acabou, pois a classe trabalhadora, quando tem sorte, vive na escravidão assalariada. Há ainda outro fator: o Brasil é um país completamente miscigenado. O que torna a questão ainda mais complicada.
No primeiro parágrafo, Sader diz que “neste primeiro quarto do século XXI o Brasil se reafirmou como uma democracia, que derrotou uma tentativa de golpe militar, que restabeleceria uma ditadura no país”. Mas o país está longe de ser uma democracia. Na verdade, é uma ditadura judiciária que se fecha a cada dia.
Não houve tentativa de golpe militar, boa parte dos presos dos protestos do 8 de janeiro são manifestantes civis. No entanto, houve golpe em 2016, orquestrado pelos EUA, e que teve como peça-chave o Supremo Tribunal Federal, que hoje é apontado como o órgão que teria debelado a suposta tentativa de golpe militar. Pela primeira vez na história, um juiz teria parado militares com o uso de uma caneta.
No segundo parágrafo lê-se que “ao mesmo tempo, retomou um ciclo de expansão econômica, chegando a gerar uma situação de pleno emprego. As políticas sociais, tanto as de educação como especialmente as de saúde pública, se estenderam, com o fortalecimento e a elevação das ações do SUS, como o maior programa de proteção da população do mundo”.
Como se pode falar de pleno emprego quando mais de 50 milhões de brasileiros dependem do Bolsa Família. O SUS, não é segredo, está a cada dia mais e mais sucateado. O mesmo se pode dizer da educação. Tudo isso é consequência direta do golpe de 2016.
Adiante, Sader diz que “o Brasil passou a ser um protagonista internacional importante, como país e como membro dos Brics, em que o país passou a ser um país importante nas articulações da política internacional”. Mas Lula tratou de enfraquecer o bloco ao vetar a entrada da Venezuela. Se fosse admitida, os
BRICS controlariam mais de 60% do petróleo mundial.
O veto de Lula também facilitou enormemente a intervenção imperialista no país vizinho.
Maioria
Quando Sader diz que “o país ainda se encontra na situação em que o governo não conta com maioria no Congresso, não apenas tem que negociar suas iniciativas, tem que ver algumas delas derrotadas, teve que incluir no governo membros do centro político”, fica devendo uma explicação essencial: desde o início o PT se afastou da base. Os acordos foram feitos por cima, como a indicação de Geraldo Alckmin como vice na chapa.
Para Sader, o governo “tem, ao mesmo tempo, de enfrentar uma situação em que a violência é ainda um fenômeno do cotidiano das cidades do país, com a questão da segurança são as de maior preocupação da população”. Essa informação está incorreta. A maior preocupação do brasileiro é o endividamento e aumento do custo de vida.
O problema da segurança pública surgiu para justificar a terrível truculência da polícia, que assassina cidadãos impunemente. No ano passado, houve a pior chacina no Rio de Janeiro, e a imprensa burguesa correu para dizer que a população em sua maioria estaria de acordo. Uma fraude, sem dúvida.
Para encobrir os crimes do Estado, fortaleceu-se a desculpa de que “há regiões das maiores cidades do país em que o chamado crime organizado controla tudo o que ocorre, impondo o medo e mesmo o terror na população”.
Já perto do final, Sader pergunta: “Diante desse cenário, que projeções se podem fazer sobre o futuro do Brasil?”. A resposta não poderia ser outra: “Tudo depende das eleições que terá o país neste ano”. Eleições é tudo o que move a maioria da esquerda no País. Não se vê trabalho de base, salvo raríssimas exceções.
Sobre as eleições, para Emir Sader, “uma primeira possibilidade é que ela não altere significativamente o quadro político atual, com a reeleição do Lula, mas com a manutenção da hegemonia da direita, em aliança com o centro, na Câmara e no Senado”. Quando as eleições alteraram significativamente algo no Brasil? A última eleição de Lula que havia levantado expectativas na classe trabalhadora. Hoje, a única certeza que se firma é a de que as eleições não poderão resolver as contradições e diferenças sociais.
Embora o autor diga conjecture que com a manutenção da hegemonia da direita “o cenário político atual se prolongará”, tudo indica que a presença da direita crescerá, uma vez que há um divórcio entre a esquerda e a base. Esse divórcio é indício de uma mudança de base social do PT, que tem se voltado para a classe média. A população tem se distanciado da esquerda, pois esta tem se dedicado a apoiar as instituições do Estado, principalmente o STF.
O debate que está colocado é qual política seguir no próximo período.





