Rússia

Putin: programa nuclear é ‘prioridade absoluta’

Presidente fez pronunciamento no momento em que país eslavo rompe tratado atômico com os Estados Unidos

Em pronunciamento pelo Dia do Defensor da Pátria, divulgado entre 22 e 23 de fevereiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que o desenvolvimento da tríade nuclear russa — formada pelos vetores terrestres, marítimos e aéreos — segue como “prioridade absoluta” do Estado russo. A declaração foi feita no momento em que o acordo New START, último marco formal de limitação nuclear entre Rússia e Estados Unidos, já havia expirado no início de fevereiro.

Putin vinculou a declaração à guerra na Ucrânia e ao fortalecimento geral das Forças Armadas russas. Segundo ele, o governo pretende reforçar Exército e Marinha com base na experiência acumulada no conflito e no apoio da indústria científica e tecnológica do país.

“O desenvolvimento da tríade nuclear, que garante a segurança da Rússia e permite assegurar de maneira eficaz a dissuasão estratégica e o equilíbrio de forças no mundo, continua sendo uma prioridade absoluta.”

Desde a expiração do New START, Rússia e Estados Unidos — as duas maiores potências nucleares do planeta — deixaram de estar vinculados por um tratado bilateral de desarmamento estratégico. O acordo, assinado em 2010, limitava cada lado a 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas em até 700 sistemas de lançamento e previa inspeções presenciais regulares.

Mesmo após o fim do tratado, a Rússia afirmou que manteria uma postura “responsável” e que não seria o primeiro a tomar medidas de escalada, desde que os Estados Unidos adotasse o mesmo comportamento. Ainda assim, o término do New START abre uma nova etapa de instabilidade internacional, porque elimina o último mecanismo formal de verificação e limitação direta entre as duas potências.

A própria RT destacou que, do lado norte-americano, o governo Trump passou a defender que futuros acordos incluam a China, exigência rejeitada por Pequim sob o argumento de que o arsenal chinês é muito inferior ao russo e ao norte-americano. Na prática, essa exigência foi apresentada no momento em que o sistema de controle existente expirava, aprofundando a crise do regime de não proliferação.

Na manhã desta terça-feira (24), o Serviço de Inteligência Externa da Rússia (SVR) divulgou uma acusação grave: segundo o órgão, Reino Unido e França estariam discutindo uma operação clandestina para transferir componentes, equipamentos e tecnologias nucleares de fabricação europeia à Ucrânia. O SVR também afirmou que uma das hipóteses em discussão seria o fornecimento de uma ogiva francesa TN 75 — usada em mísseis balísticos lançados por submarinos — e, alternativamente, o incentivo à construção de uma chamada “bomba suja”, artefato convencional carregado com material radioativo para provocar contaminação prolongada.

A declaração do SVR foi apresentada como uma tentativa de Londres e Paris de alterar o equilíbrio militar no conflito e dar a Kiev maior poder de pressão nas negociações. O serviço russo afirmou que a Ucrânia poderia buscar “termos mais vantajosos” para cessar as hostilidades caso passasse a contar com armamento nuclear ou, ao menos, com um dispositivo radioativo.

Também segundo o SVR, a Alemanha teria se recusado a participar dessa operação. O órgão qualificou a iniciativa atribuída a britânicos e franceses como “perigosa” e disse que os governos dos dois países estariam perdendo o contato com a realidade.

A denúncia provocou reação imediata. O presidente da Duma, Viacheslav Volodin, anunciou a intenção de submeter ao Parlamento russo uma resolução formal pedindo que os legisladores britânicos e franceses investiguem o caso. Já o porta-voz do Crêmlin, Dmitry Peskov, classificou o alerta como “potencialmente muito perigoso”, por envolver risco direto ao regime de não proliferação nuclear.

Trata-se de um salto na crise europeia. A guerra na Ucrânia já vinha sendo usada pelos governos da OTAN para justificar uma corrida armamentista em escala continental. Com a denúncia do SVR, o governo russo passou a colocar no centro do debate a hipótese de uma transferência direta de capacidade nuclear ao regime da Ucrânia, o que elevaria o conflito a um patamar ainda mais explosivo.

A questão se conecta a outro movimento recente: a discussão aberta, dentro da própria OTAN, sobre o deslocamento de armas nucleares para outros países do Leste Europeu.

No fim de semana, Peskov declarou que a Rússia passará a mirar suas armas nucleares contra a Estônia caso a OTAN instale armamento nuclear no território estoniano. A resposta veio após declarações do chanceler da Estônia, Margus Tsahkna, segundo as quais Tallinn não se opõe à possibilidade de receber armas nucleares da aliança militar ocidental.

“Não ameaçamos a Estônia, nem qualquer outro país europeu”, disse Peskov, em entrevista reproduzida pela RT. “Mas, se armas nucleares forem implantadas em território estoniano e forem apontadas para a Rússia, então nossas armas nucleares serão apontadas para o território estoniano.”

A advertência resume o nível de deterioração do quadro europeu. Nos últimos meses, outros governos da OTAN também passaram a defender abertamente novos arranjos nucleares. A RT citou que o presidente da Polônia, Karol Nawrocki, sugeriu que o país deveria desenvolver seu próprio programa nuclear. Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz afirmou, na Conferência de Segurança de Munique, ter tratado de “dissuasão nuclear europeia” com o presidente francês Emmanuel Macron. Antes disso, dirigentes de seu partido já haviam defendido acesso alemão ao guarda-chuva nuclear francês e britânico.

Em outras palavras, o fim do New START coincide com uma ofensiva política para ampliar a presença nuclear da OTAN no continente, ao mesmo tempo em que a guerra na Ucrânia segue sendo utilizada como instrumento de reorganização militar da Europa sob comando do imperialismo.

O governo russo, por sua vez, também associa a crise atual ao golpe de 2014 na Ucrânia, apoiado pelo Ocidente, e à transformação da entrada na OTAN em eixo da política externa de Kiev. Esse argumento aparece de forma recorrente nas declarações do Kremlin e foi retomado nos textos da RT ao lembrar que Moscou considera rompido, desde 2014, o compromisso de neutralidade que existia na etapa pós-soviética.

A escalada nuclear na Europa ocorre paralelamente a outra frente de tensão envolvendo Rússia, Estados Unidos e Irã.

Em reportagem publicada em 23 de fevereiro, a Gazeta do Povo — com base em investigação do Financial Times — informou que Moscou e Teerã firmaram, há cerca de dois meses, um acordo secreto estimado em 500 milhões de euros para o envio de sistemas portáteis de defesa aérea ao Irã. Segundo o texto, o pacto prevê a entrega de pelo menos 500 sistemas Verba e 2.500 mísseis 9M336 ao longo de três anos.

O Verba é um míssil portátil guiado por infravermelho, empregado contra aeronaves de baixa altitude, mísseis de cruzeiro e drones. A reportagem apontou que esse acordo seria o maior esforço recente de reconstrução da defesa aérea iraniana após os ataques sofridos por Teerã na guerra do ano passado contra “Israel”.

Esse ponto é central para entender a conjuntura. Enquanto Washington amplia a pressão militar contra o Irã, com reforço de porta-aviões, caças e meios navais no Oriente Médio, a Rússia aparece como parceiro estratégico de Teerã na recomposição de sua capacidade defensiva.

A mesma matéria informou que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, declarou à CBS que há “boa chance” de avanço em uma nova rodada de negociações nucleares com os Estados Unidos, possivelmente em Genebra, numa reunião com o enviado norte-americano Steve Witkoff. Araqchi afirmou:

“Podemos chegar a um entendimento sobre princípios e questões fundamentais e garantir que o programa nuclear do Irã seja pacífico e assim permaneça para sempre, enquanto as sanções forem suspensas.”

Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano Donald Trump estabeleceu um prazo de 10 a 15 dias para a diplomacia e indicou que considera um ataque limitado ao Irã como instrumento de pressão. A combinação entre ultimato militar e negociação sob ameaça repete o método clássico do imperialismo: aumentar a presença armada na região para impor condições políticas ao país cercado.

É nesse cenário que a fala de Putin sobre a tríade nuclear ganha dimensão maior do que um pronunciamento protocolar. Não se trata apenas de uma mensagem às tropas russas na data militar do calendário oficial. A declaração foi feita num quadro de ruptura dos mecanismos de controle nuclear, expansão da retórica atômica da OTAN, denúncias russas de transferência de capacidade nuclear à Ucrânia e crescente confronto no Oriente Médio, onde Rússia e Irã aprofundam cooperação em defesa antiaérea.

Também por isso, a referência de Putin ao “equilíbrio de forças no mundo” foi colocada no centro de sua fala. Moscou procura apresentar a modernização de seu arsenal estratégico como resposta à ofensiva militar e diplomática do bloco imperialista, especialmente dos Estados Unidos e de seus aliados europeus. O Kremlin insiste em afirmar que seu objetivo é a dissuasão, mas a sequência de fatos mostra que o ambiente internacional caminha para um nível de tensão muito superior ao que existia mesmo nos anos recentes da guerra na Ucrânia.

De um lado, há o desmonte do arcabouço de controle de armas construído ao longo de décadas. De outro, cresce a pressão para incorporar novos países da OTAN a esquemas nucleares e para elevar o grau de enfrentamento direto com Moscou. Ao mesmo tempo, o Oriente Médio volta a se converter em centro de uma crise militar aberta, com ultimatos norte-americanos ao Irã e movimentos russos para sustentar a defesa de Teerã.

A consequência mais imediata é a normalização da linguagem nuclear na política internacional. O que antes aparecia como tema restrito a tratados e negociações técnicas passou a ocupar, diariamente, declarações presidenciais, falas de chanceleres, comunicados de inteligência e debates parlamentares.

No caso russo, a linha anunciada por Putin é clara: reforçar todas as capacidades militares com base na guerra em curso e manter a tríade nuclear no topo das prioridades do Estado. No caso da OTAN, os próprios dirigentes europeus têm ampliado as discussões sobre “dissuasão” e redistribuição de meios nucleares. E, no caso do Irã, a combinação entre pressão militar norte-americana e recomposição defensiva com apoio russo amplia o risco de um choque regional de grandes proporções.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.