O PT e o PSOL anunciaram, na terça-feira (27), apoio ao deputado estadual Doorgal Andrada (PP) para presidir a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) a partir do próximo ano. O candidato também foi apoiado pelo PL, partido de Jair Bolsonaro. Dois dias depois do segundo turno, a esquerda parlamentar se juntou aos bolsonaristas que, durante a campanha eleitoral, apresentou como uma ameaça à “democracia”.
Doorgal reuniu o apoio de 71 dos 77 deputados estaduais e ficou virtualmente eleito para suceder Tadeu Leite (MDB). A composição incluiu PT, PV, PCdoB, PSOL, Rede, PL, Republicanos, PSD e o próprio PP. O entendimento aproximou os partidos que disputaram os votos dos mineiros em campos adversários e agora negociaram uma candidatura comum para dirigir o Legislativo.
A esquerda chegou a avaliar o lançamento do deputado Ulysses Gomes (PT). Após conversas entre seus parlamentares e reuniões com Doorgal, entretanto, desistiu de disputar o cargo. Preferiu aderir ao candidato do Progressistas, que já contava com o apoio de partidos da direita. É uma tentativa de melhor se posicionar na única luta que travam os parlamentares: a luta por cargos e verbas.
João Magalhães (PSD), líder do governo na Assembleia, e Bruno Engler (PL), líder da bancada bolsonarista, também abriram mão de concorrer para apoiar Doorgal. Petistas e psolistas passaram, portanto, a defender a mesma candidatura escolhida pelo dirigente parlamentar do PL.
O candidato apoiado pela esquerda pertence ao PP. Não se trata de um parlamentar petista que conseguiu votos de outras bancadas, mas da adesão do PT e do PSOL a uma candidatura da direita. Os dois partidos abandonaram a possibilidade de apresentar uma alternativa para participar do acordo que deverá comandar a Assembleia.
Da ‘ameaça fascista’ à aliança com o ‘fascismo’
Durante a eleição, PT e PSOL fizeram uma campanha histérica pelo voto em Lula e em seus candidatos em nome da luta contra o “fascismo”. Apresentaram o bolsonarismo como um perigo que exigiria a união de todos os setores interessados em defender a “democracia”. Aos trabalhadores, esconderam todos os ataques do governo e pediram que votassem nos candidatos indicados pela esquerda parlamentar.
Os que recusaram essa orientação foram acusados de favorecer a extrema direita. A campanha procurou transformar o voto em Lula em uma obrigação política, como se qualquer outra posição significasse colaborar com os inimigos da população.
Depois de pedir votos contra o “fascismo”, PT e PSOL abandonaram a candidatura própria e se juntaram aos bolsonaristas na disputa pelo comando da Assembleia. A “luta contra o fascismo” é uma verdadeira encenação para enganar os trouxas da classe média.
Será que o PL deixou, de uma hora para outra, de ser “fascista”? Também não foi anunciada qualquer mudança na política do PP que justificasse o apoio de partidos que se apresentam como representantes dos trabalhadores. Bastou a perspectiva de um entendimento sobre a direção da ALMG para que os adversários eleitorais se tornassem amigos do peito.
A contradição é flagrante. Se o PL representava uma ameaça de tamanha gravidade, por que PT e PSOL decidiram ajudá-lo a eleger o presidente da Assembleia? A escolha desse presidente interfere na condução dos trabalhos legislativos e na relação entre as bancadas. É uma decisão política pela qual os partidos participantes precisam responder.
A busca de cargos e de participação na direção do Legislativo explica a disposição da esquerda parlamentar para se acomodar ao acordo com a direita. O combate ao “fascismo”, usado para cobrar os votos da população, não impediu a negociação com os bolsonaristas quando os interesses dos parlamentares entraram em discussão.
Para justificar a decisão, o PT declarou em nota à imprensa: “O apoio à candidatura está associado à expectativa de uma Presidência aberta ao diálogo com todas as bancadas e comprometida com o respeito às prerrogativas parlamentares e ao papel fiscalizador da Assembleia”.
É o bom e velho truque do PT e da burocracia parlamentar. Sempre há um bom motivo para apoiar a direita.
A justificativa tampouco esclareceu por que seria necessário desistir de Ulysses Gomes. Um candidato do próprio PT poderia defender as prerrogativas dos parlamentares e o direito de fiscalizar o governo. Ao retirá-lo da disputa, a esquerda contribuiu para a quase unanimidade em torno do deputado do PP, elevando o capital político dele.
O apoio de 71 deputados mostra a amplitude da acomodação. PT e PSOL resolveram participar da eleição do candidato comum, assumindo responsabilidade por sua vitória. A posição das duas bancadas ajudou a fortalecer uma direção parlamentar organizada em entendimento com o PL.
É a mágica da “frente ampla contra o fascismo”: uma frente tão ampla que até mesmo os “fascistas” participam dela.
Os eleitores que atenderam ao chamado para derrotar o bolsonarismo receberam, logo depois da votação, a notícia de que seus representantes se aliaram ao partido de Bolsonaro. Para a população, o discurso era de combate sem concessões. Entre os deputados, prevaleceu a disposição de negociar com os mesmos políticos denunciados nos palanques, para preservar e galgar cargos.


