O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste sábado (17) uma fotografia com a camisa da seleção brasileira, aderindo à campanha organizada pelo deputado André Janones (Rede-MG). A mobilização convocou apoiadores a vestir verde e amarelo e fazer o “L” nas redes sociais. Com a participação dos perfis oficiais de Lula, de integrantes do governo e de dirigentes partidários, o abandono do vermelho foi assumido pela própria campanha petista.
Janones declarou a finalidade da iniciativa: “isso traz quem não é do nosso campo. Traz aquele eleitor que está indeciso. A gente vai trazer o eleitor moderado, que está no campo democrático, mas que não é de esquerda”. A direção do PT quer conquistar a classe média conservadora que rejeita a esquerda e tem horror à bandeira vermelha, a mesma que serviu de base às manifestações antipetistas pelo golpe de 2016.
A convocação foi distribuída pelo canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, com publicações simultâneas a partir das nove horas. Na fotografia divulgada, Lula vestia a camisa da seleção com um adesivo com a frase “o Brasil é dos brasileiros”. Janja também aderiu, assim como Geraldo Alckmin e sua esposa, Lu Alckmin, Fernando Haddad e Ana Estela Haddad, Simone Tebet e Marina Silva.
Entre os parlamentares, participaram Erika Hilton, Tabata Amaral e Guilherme Cortez, além do prefeito do Recife, João Campos. A ação reuniu ainda cantores como Caetano Veloso, Chico Buarque, Anitta, Pabllo Vittar, Daniela Mercury e Diogo Nogueira.
Uma extensa lista de atores conhecidos pelas novelas da Globo também fez o “L” de verde e amarelo: Renata Sorrah, Débora Bloch, Camila Pitanga, Reynaldo Gianecchini, Humberto Carrão, Sophie Charlotte, Marjorie Estiano, Cláudia Abreu, Débora Falabella, entre outros. A campanha conseguiu reunir numerosas figuras do meio artístico em torno de um PT devidamente afastado da sua cor tradicional.
A quem o vermelho incomoda?
Janones apresentou a mobilização como uma recuperação das cores nacionais. “Vocês sabem que eles tomaram de nós primeiro as ruas, depois as redes sociais e os nossos símbolos. Nós conquistamos as ruas de novo, conquistamos as redes sociais, agora nós vamos retomar os nossos símbolos”, afirmou.
O deputado, no entanto, explicou que pretende atrair quem “não é de esquerda”. A troca de cores atende a esse objetivo: oferecer aos conservadores uma campanha da qual possam participar sem se associar ao vermelho do movimento operário.
A camisa da seleção foi o uniforme das manifestações da classe média fascistoide pela derrubada de Dilma Rousseff. Sob o estímulo da imprensa burguesa, esses setores foram às ruas contra o PT, os sindicatos e as organizações populares. Sua hostilidade ao vermelho expressava a oposição à classe trabalhadora e às suas reivindicações.
A direção petista procura agora agradar esse mesmo meio social. Em vez de combater o preconceito reacionário contra a esquerda, aceita a exigência de esconder sua identificação com os trabalhadores. O partido nascido das greves operárias passa a tratar sua origem como um inconveniente para conquistar o eleitor conservador.
O critério anunciado por Janones é a capacidade de atrair quem rejeita a esquerda, ainda que, para isso, o PT tenha de renegar sua própria história.
Um governo para qual classe?
A participação de tantas figuras da Globo fazendo o “L” mostra o público ao qual essa propaganda procura agradar. A emissora que atuou pelo golpe de 2016 ajudou a difundir o antipetismo e a hostilidade às organizações dos trabalhadores. Agora, personalidades consagradas por ela aparecem como destaque de uma mobilização que dispensa o vermelho para tornar Lula mais aceitável aos conservadores.
O PT sempre procurou conciliar os interesses dos trabalhadores com os dos patrões. Mesmo essa política pressupunha conservar sua ligação com os sindicatos e as massas populares, em nome dos quais negociava com a burguesia. A campanha atual anuncia uma adaptação ainda maior: o partido quer obter a confiança dos setores conservadores livrando-se dos sinais de sua origem operária.
A adesão oficial à iniciativa de Janones é uma declaração política. O PT renega sua função de partido de esquerda, apoiado no povo e nas massas, para disputar a representação da classe média conservadora. Ao trocar o vermelho pelo uniforme dos atos golpistas, sinaliza que pretende governar para a burguesia, dispensando até o compromisso de supostamente negociar em nome dos trabalhadores.




