O artigo Trump contra os trabalhadores dos EUA e do mundo, de Julio Anselmo, publicado na sexta-feira (6) no sítio Opinião Socialista, do PSTU, repete seu erro em caracterizar o imperialismo, o que impede que a classe trabalhadora ataque esse inimigo de forma eficaz.
Desde o primeiro parágrafo já se encontram desvios grosseiros de análise, pois não é fato que “no último período, o mundo assiste a uma ofensiva econômica e militar sem precedentes por parte do imperialismo estadunidense”. Basta examinar o período posterior à Guerra no Vietnã. Tivemos a Invasão do Iraque, destruição da Iugoslávia, inúmeros ataques no continente africano, destruição da Líbia, invasão no Afeganistão. E este último marcou um ponto de declínio acentuado na capacidade militar do imperialismo.
Apesar de Donald Trump fazer diversas ameaças, seu antecessor, Joe Biden, foi quem provocou ao máximo países como China e Rússia. Foi Trump quem sequestrou Nicolás Maduro e Cília Flores, mas Biden ampliou o cerco ao país vizinho, além de ter pressionado o governo Lula, que não reconheceu as eleições presidenciais e impediu a entrada da Venezuela no BRICS. Para dominar o governo e a economia venezuelana seria necessário que a invadissem por terra, o que não foi feito.
No mesmo parágrafo lê-se que “dos tarifaços, passando pelas ameaças contra a América Latina, a Groenlândia e agora o Irã, até uma intervenção militar direta na Venezuela e o plano de ocupação de Gaza. No plano interno, Donald Trump promove uma caça aos imigrantes, passando por cima das leis do próprio país, mas também sofrendo uma forte resistência do movimento de massas. O que está por trás das ações dos EUA?”.
Os tarifaços, como se viu, sempre tiveram que ser de algum modo negociados e a eficácia das medidas é praticamente nula. As ameaças à Groenlândia, até o momento, são muito mais verbais. Quanto ao Irã, Trump mandou uma enormidade de navios para cercar o país, mas recuou após os iranianos ameaçarem uma resposta à altura. Uma atitude muito diferente do que o imperialismo vinha apresentando.
O governo Biden também foi muito mais contundente sobre a Faixa de Gaza, e o governo atual que negociou o acordo de paz, ainda que seja precário, dado que os sionistas nunca respeitem acordos.
A deportação de imigrantes também foi massiva nos governos anteriores, apenas não foram feitas da maneira espalhafatosa do governo atual. Esta medida, combinada com a imposição de tarifas, mostra que o Trump age como se fosse presidente de um país atrasado, que fosse obrigado a medidas protecionistas de sua economia.
A China
Um dos problemas dos Estados Unidos, talvez o principal, é a China. Durante a ofensiva neoliberal as grandes empresas, atrás de lucros e saída da crise, transferiram a produção para o mercado chinês, com uma mão de obra extremamente barata. Embora esse movimento já estivesse ocorrendo, com a transferência de empresas para o México, a escala era muito inferior e não representou uma desindustrialização acentuada dos EUA como agora.
Não é simplesmente que “a manutenção do funcionamento ‘normal’ da economia capitalista mundial passou a favorecer o emergente imperialismo capitalista chinês”. Além de não existir nenhum “imperialismo emergente”, o capitalismo é anárquico, ninguém nunca calculou que a migração da indústria pudesse enfraquecer tanto o país central do imperialismo, e que resultaria no enfraquecimento geral da dominação do grande capital.
O equívoco do PSTU fica muito patente no parágrafo que diz que “a concentração e centralização do capital, características do imperialismo, quando atingem níveis gigantescos, tendem a aprofundar o parasitismo financeiro. É isso que se expressa hoje nos EUA. Já o capitalismo chinês combina maior dinamismo na capacidade produtiva, taxas de lucro altíssimas e pujança comercial, além de se beneficiar do fato de ainda estar no movimento inicial de seu imperialismo com a exportação de capitais começando. Isso dá a ele uma vantagem relativa na disputa nos termos econômicos postos hoje no mundo. Por isso, consegue inundar a Europa com carros elétricos, adquirir ativos estratégicos ao redor do mundo e avançar sobre regiões historicamente dominadas pelos EUA, como a América Latina, aumentando a disputa por lucros com os monopólios capitalistas dos EUA”.
A concentração de capital, em si, não é característica do imperialismo, o próprio capitalismo no seu início necessitou de uma concentração de capital. O capitalismo dá um passo adiante e se torna imperialismo quando se junta ao capital financeiro e sua dominação se estende a todos os continentes, onde controla os mercados, rotas, a produção e as riquezas. Tudo isso é garantido pelo uso da força, que hoje se expressa na OTAN e outros acordos militares na região que chamam de Indo-Pacífico.
É uma fantasia acreditar que o imperialismo ficará assistindo outro imperialismo surgir, crescer, e dominar seus mercados. A própria história comprova esse fato, pois as duas Guerras Mundiais foram disputas por mercados e o atrito que surgiu da tentativa de países de capitalismo tardio, como Alemanha e Itália, de buscarem uma posição mais favorável na partilha do mercado mundial.
A exportação de capitais, como a China tem feito, é muito diferente da ação do imperialismo. Os chineses nunca ameaçaram a Venezuela e nem outro país, buscam sempre acordos. Ao passo que os países imperialistas se impõem pela força. Iniciam guerras, promovem golpes de Estado, invasões e destruição de países inteiros. Se a China fosse um país imperialista, jamais seria assediada ou teria seus territórios dominados, como foi Hong Kong; ou contestados, como atualmente Taiuã.
Continua…





