No dia 31 de dezembro, o cientista político Benedito Tadeu César publicou o artigo O paradoxo do Lula 3: bons números, baixa adesão e disputa política acirrada. O texto tenta explicar por que, mesmo com indicadores econômicos positivos, o governo enfrenta uma resistência persistente na opinião pública. Para o autor, trata-se de um “paradoxo” alimentado pela desinformação e pelo cerco da imprensa conservadora. No entanto, o que o analista chama de paradoxo é, na verdade, a realidade material de um governo que decidiu gerenciar a crise sem romper com as estruturas que esmagam o trabalhador.
O autor celebra a queda do desemprego para 5,4%, mas ignora o que esse número esconde: o abismo da informalidade. O Brasil chega a 2026 com uma massa de subutilizados que ainda ronda os 20 milhões de pessoas. São brasileiros que, embora não contem nas estatísticas de desemprego aberto, estão presos em jornadas insuficientes, bicos intermitentes e na “uberização”. Para esses milhões, o “sucesso” econômico é uma abstração; a realidade é a ausência de férias, de 13º salário e de qualquer horizonte de estabilidade. Falar em “recuperação da renda” sem mencionar que o ganho real é corroído por uma estrutura de serviços e impostos indiretos que pune o consumo é fazer propaganda, não ciência política.
A análise toca levemente nas “amarras do modelo macroeconômico”, mas não tira as consequências lógicas. O governo Lula optou por manter o novo arcabouço fiscal, uma camisa de força que limita os investimentos sociais enquanto garante o pagamento religioso dos juros da dívida pública. Somente em 2025, o Brasil transferiu quase R$800 bilhões para o setor financeiro sob a forma de juros e encargos da dívida. Esse é o verdadeiro ralo por onde escorre o desenvolvimento nacional. Enquanto o orçamento é sequestrado pela agiotagem institucionalizada, o governo mendiga espaço para políticas como a “tarifa zero” ou a valorização real do mínimo, apresentando-as como concessões difíceis diante de um “Congresso hostil”.
Benedito Tadeu César menciona a resistência empresarial à jornada 5×2, mas falha em apontar que o governo capitulou ao não mobilizar a base popular para essa ou qualquer outra questão. A “baixa adesão” que o autor lamenta é o resultado direto da desmobilização: quando o governo escolhe governar por acordo, ele perde o apoio das massas. O trabalhador percebe que, embora o PIB cresça, a participação dos salários no PIB nacional continua estagnada em níveis historicamente baixos.





