O presidente do Equador, Daniel Noboa, decretou na sexta-feira (13) um toque de recolher noturno em quatro províncias do país e manteve o estado de exceção em parte do território nacional. No mesmo dia, a polícia reprimiu em Quito uma grande mobilização contra as reformas trabalhistas e econômicas do governo, convocada por organizações sociais, sindicatos e coletivos populares.
A medida oficial suspende o direito de livre circulação entre 23h e 5h e entrou em vigor à 0h de domingo (15). O decreto mantém o estado de exceção em Manabí, Guayas, Santa Elena, Los Ríos e El Oro, além dos cantões La Maná, na província de Cotopaxi, e Las Naves e Echeandía, na província de Bolívar.
A desculpa apresentada pelo governo alegadamente se baseia em informes técnicos, notas oficiais e relatórios de inteligência segundo os quais a maior parte dos episódios de violência armada ocorre à noite e de madrugada. Os dados mencionados no decreto apontam que as províncias de Guayas, Los Ríos, El Oro e Santo Domingo concentram cerca de 70% dos fatos violentos registrados no país, muitos deles supostamente ligados à disputa territorial e às rotas do narcotráfico.
Os números apresentados pelo próprio governo mostram aumento dos homicídios nessas regiões. Em Guayas, os casos subiram 23%, de 157 para 193. Em Los Ríos, o crescimento foi de 77%, de 30 para 53. Em El Oro, a alta foi de 75%, de 20 para 35. Já Santo Domingo de los Tsáchilas registrou aumento de 50%, apesar de anúncios anteriores sobre uma suposta redução dos homicídios em nível nacional.
O governo equatoriano informou que o toque de recolher terá exceções para profissionais da saúde, integrantes das Forças Armadas, da Polícia Nacional, de órgãos complementares de segurança e de entidades encarregadas da gestão de riscos, emergências e desastres. O Executivo sustenta que a restrição à circulação noturna facilitará as operações das forças de segurança e reduzirá a exposição da população civil à violência armada.
Enquanto o governo anunciava o endurecimento repressivo, a polícia atacou em Quito milhares de manifestantes reunidos na praça de Santo Domingo. Segundo as organizações convocantes, a mobilização transcorreu em um cenário de forte presença militar. A repressão foi feita com bombas de estrondo e gás lacrimogêneo.
O ato foi convocado pela Frente Popular, pela Frente Unitária de Trabalhadores (FUT) e pela União Nacional de Educadores (UNE). Os manifestantes denunciaram o Acordo Ministerial MDT-2026-059, que autoriza jornadas de trabalho de até 10 horas diárias, além da Lei de Mineração, que facilita a exploração em Galápagos, e de outras medidas impulsionadas pelo governo Noboa.
José Villavicencio, da União Geral de Trabalhadores do Equador (UGTE), classificou as medidas como “antioperárias”. Dirigentes sindicais denunciaram que o governo favorece grandes empresários, mantém o congelamento salarial e reduz os recursos destinados a áreas como saúde e educação.
A jornada desta sexta-feira foi apresentada pelas organizações como a primeira grande mobilização nacional de 2026. Os protestos também foram dirigidos contra a chamada Lei GAD, que, segundo os manifestantes, pode afetar programas sociais mantidos por prefeituras e governos provinciais.
Dirigentes sociais afirmaram ainda que os atos expressam descontentamento com o desrespeito, por parte do governo, aos resultados de consultas populares realizadas no país. Nessas consultas, a população rejeitou propostas como o trabalho por hora e a instalação de bases militares estrangeiras.
Diante da repressão policial e da ausência de negociação com o governo, líderes como Edwin Bedoya, da FUT, anunciaram a convocação de uma convenção nacional para definir novas medidas de pressão. Entre as possibilidades colocadas pelas organizações está a preparação de uma greve nacional.
Além de Quito, houve mobilizações em pelo menos outras 19 cidades equatorianas, entre elas Guayaquil, Esmeraldas, Riobamba, Cuenca, Machala, Loja e Lago Agrio.




