A Eletronuclear, estatal responsável pela operação das usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, pode ficar sem recursos já nos próximos meses, com risco de comprometer até mesmo a continuidade das duas unidades em funcionamento. O alerta foi feito pelo presidente interino e diretor financeiro da empresa, Alexandre Caporal, em entrevistas recentes ao g1 e à Folha de S.Paulo.
Caporal afirmou que a empresa tem dinheiro em caixa somente até meados de março e que a situação está diretamente ligada ao impasse em torno de Angra 3. Paralisada há cerca de 10 anos, a usina em construção segue gerando despesas anuais que, somadas, ultrapassam R$1 bilhão, entre custos de manutenção e o serviço da dívida contratado para aquisição de equipamentos e avanço físico do projeto.
Angra 3: obra arrastada, custo permanente
O dirigente criticou a indefinição do governo federal sobre a continuidade ou não do empreendimento, cuja decisão, segundo ele, cabe integralmente ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), composto por 17 ministros. “Angra 3 é uma decisão que compete 100% ao governo. A Eletronuclear não tem autonomia para decidir”, declarou.
De acordo com Caporal, a obra acumula cerca de 40 anos de idas e vindas e chegou a aproximadamente 67% de avanço físico. Ele disse que mais de 14 mil equipamentos já foram entregues e estão armazenados em 35 galpões. Para o presidente interino, a manutenção do projeto paralisado é o cenário mais oneroso, porque mantém despesas elevadas sem gerar retorno operacional.
Dívidas com bancos e risco de inadimplência
A Eletronuclear tenta suspender temporariamente a cobrança de dívidas vinculadas ao projeto, estimadas em quase R$7 bilhões, principalmente com Caixa e BNDES. Caporal afirmou que, sem um alívio imediato, a empresa pode se tornar inadimplente em até três meses, o que abriria espaço para cobranças antecipadas por credores e reduziria a margem financeira para manter as operações das usinas em funcionamento.
Em 2024, a estatal obteve uma suspensão de pagamentos por seis meses. Agora, a direção pede novo fôlego até que o CNPE decida o destino de Angra 3. Caporal também defendeu que, se o governo não tomar uma decisão no curto prazo, ao menos viabilize um perdão de cláusulas para impedir que a dívida pressione o caixa de maneira insustentável. “Nenhuma empresa consegue suportar R$800 milhões de dívida sem fonte de recurso específico para isso”, afirmou, ao tratar do serviço da dívida em 2026.
Pedido de aporte e comparação com os Correios
O dirigente citou o caso dos Correios como exemplo de deterioração acelerada de uma estatal sob pressão financeira e afirmou: “se não houver uma solução, seremos os Correios amanhã”. Ele disse que a empresa solicitou um aporte de R$1,4 bilhão ao Tesouro Nacional em 2025, mas que o pedido não foi atendido. Ainda assim, afirmou ao g1 que, neste momento, a Eletronuclear busca antes de tudo a suspensão da cobrança pelos bancos, como medida indispensável para atravessar o período até a decisão do CNPE.
Caporal também relacionou a situação ao alerta feito pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), que apontou Eletronuclear e Correios como estatais que demandam maior atenção. O presidente interino afirmou que o peso financeiro de Angra 3 explica a deterioração recente: a empresa registrou prejuízo de R$66 milhões até setembro de 2025, resultado que, segundo ele, está “praticamente” concentrado nos custos do empreendimento paralisado.
Sem definição, medidas paliativas
Caporal afirmou que apenas uma decisão formal sobre concluir ou encerrar Angra 3 poderá estabilizar as contas da empresa. “Qualquer outra medida vai ser o que a gente tem feito pelo menos nos últimos um ano e meio: medidas extraordinárias de liquidez”, disse. Segundo ele, se a definição ficar para um momento de crise mais aguda, pode ser necessário recorrer a aportes para reduzir os danos financeiros e operacionais.





