Em meio à escalada da agressão norte-americana contra a Venezuela, incluindo o bombardeio de Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o presidente colombiano Gustavo Petro afirmou que voltará a pegar em armas caso os Estados Unidos ataquem a Colômbia. A declaração foi publicada nesta segunda-feira (5) na rede X, após novas ameaças do presidente norte-americano Donald Trump.
Petro reagiu a acusações atribuídas a Trump que tentam vinculá-lo, e também dirigentes venezuelanos, ao narcotráfico. Segundo o presidente colombiano, os arquivos judiciais do próprio país, que há décadas enfrentam grandes cartéis de cocaína, não trazem qualquer prova de ligação de Maduro ou da primeira-dama Cilia Flores com o tráfico de drogas. Petro afirmou que esse tipo de acusação parte, sobretudo, de setores alinhados à oposição venezuelana, e não de “achados” judiciais verificáveis.
O presidente colombiano sustentou ainda que o Judiciário do país atua de forma independente do Executivo e sofre forte influência de forças políticas hostis ao seu governo. Por isso, disse, quem quiser entender o comércio de cocaína deve consultar os registros dos tribunais colombianos, e não repetir acusações de caráter político. Petro acrescentou que seu próprio nome nunca apareceu em processos ligados ao narcotráfico ao longo de mais de cinco décadas e declarou rejeitar “profundamente” o que classificou como calúnias.
Ao tratar do tema, Petro relacionou a violência ligada às drogas não a uma política de Estado, mas à demanda transnacional, aos mecanismos de lavagem de dinheiro e às políticas militarizadas de “guerra às drogas” impulsionadas do exterior, medidas que, segundo ele, não eliminaram o tráfico e tiveram como efeito o massacre de populações civis.
‘Caracas foi bombardeada’
Nas mesmas publicações, Petro condenou a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e afirmou que, na história recente, trata-se da primeira vez que uma capital sul-americana foi bombardeada por Washington. “Amigos não se bombardeiam”, escreveu, acrescentando que o episódio ficará marcado.
Petro também advertiu para o fato dos EUA reconhecerem abertamente que pretendem administrar a Venezuela durante um suposto “período de transição” e impor controle sobre setores estratégicos, como energia. Ele chamou atenção para o fato de que a infraestrutura petrolífera venezuelana permaneceu amplamente intacta durante o ataque e apontou que guerras apresentadas como “justiça” frequentemente se organizam em torno do controle de recursos.
Embora tenha dito rejeitar uma retaliação, Petro defendeu que o ocorrido impõe à América Latina a necessidade de repensar seus alinhamentos políticos e econômicos e reforçar a unidade regional. O presidente colombiano criticou mecanismos regionais como a Celac, afirmando que regras de consenso absoluto permitem que governos preservem relações de submissão a potências estrangeiras, bloqueando posições comuns.
Mortos transformados em ‘narco-terroristas’
Petro condenou, ainda, reações comemorativas em setores políticos diante do bombardeio e acusou esses círculos de apagar a história de libertação da América Latina associada a Simón Bolívar. Ele mencionou mortes de civis resultantes do ataque, citando o caso de uma mulher colombiana que trabalhava de maneira informal em Caracas para sustentar a filha.
Dirigindo-se diretamente a Trump, Petro afirmou que o presidente norte-americano deu ordens ilegais no plano internacional que levaram à morte de cidadãos colombianos, posteriormente rotulados como “narco-terroristas”. O mandatário colombiano rejeitou essas designações, afirmando que atingem pessoas oriundas de comunidades pobres, sem vínculo com organizações criminosas, e servem de justificativa para políticas de militarização, perfilamento e punição coletiva.
‘Pegarei em armas’
As declarações de Petro ocorrem após Trump acusar, no domingo (4), a bordo do Air Force One, o presidente colombiano de “orquestrar” o comércio de cocaína e insinuou que ele também poderia ser removido. Questionado se os Estados Unidos lançariam uma operação militar contra a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.
Na publicação desta segunda-feira, Petro escreveu: “embora eu não tenha sido um homem militar, eu sei sobre guerra e clandestinidade. Jurei não tocar numa arma de novo desde o Pacto de Paz de 1989, mas pela Pátria pegarei em armas novamente, a contragosto”. Antes de ser eleito, em 2022, Petro integrou o movimento guerrilheiro M-19, que depôs as armas e ingressou na vida política institucional no fim dos anos 1980.
Petro alegou que, durante seu mandato, reprimiu o comércio de cocaína e interrompeu o crescimento das plantações de folha de coca, iniciando um grande plano de substituição voluntária de cultivos com camponeses produtores. Ele afirmou também que operações aéreas contra cartéis exigem “precisão cirúrgica” para evitar a morte de crianças e camponeses e, assim, não alimentar as fileiras de grupos insurgentes.
Ainda em resposta às ameaças, Petro declarou ter exigido a renúncia de todo oficial militar “que prefira a bandeira dos EUA à bandeira da Colômbia”.





