Negociações no Paquistão

Por que Trump exigiu mais do que sabe que pode conseguir?

Crise interna nos Estados Unidos torna qualquer saída da guerra um grande problema para seu presidente

As negociações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã, realizadas em Islamabade, no Paquistão, foram encerradas neste domingo (12) sem a assinatura de um acordo de cessar-fogo, revelando um profundo descompasso entre as exigências do imperialismo norte-americano e a realidade militar no Oriente Médio. A delegação iraniana rejeitou o que classificou como demandas “excessivas e ilógicas” apresentadas pelo governo de Donald Trump. O impasse central reside na tentativa norte-americana de obter, por meio do acordo, o controle estratégico sobre o enriquecimento de urânio e os lucros do Estreito de Ormuz, objetivos que o imperialismo não logrou alcançar após semanas de enfrentamento bélico direto.

A postura da delegação dos Estados Unidos na mesa de negociações ignorou sistematicamente a correlação de forças estabelecida no terreno. O governo Trump agiu como se tivesse devastado o inimigo, quando, na verdade, o aparato militar norte-americano na região sofreu danos severos que comprometeram sua capacidade de monitoramento. Os norte-americanos foram à mesa de negociação como quem tinha ganhado a guerra, mas deram de cara com um adversário que tinha plena consciência de que a situação não era essa. Enquanto o Irã manteve sua infraestrutura bélica e capacidade de produção de mísseis preservadas, os sistemas de defesa e radares dos Estados Unidos foram neutralizados, deixando as forças imperialistas em uma situação de vulnerabilidade inédita.

As exigências específicas apresentadas pelos negociadores reforçam essa desconexão. Os Estados Unidos demandaram uma fatia conjunta nos lucros do Estreito de Ormuz e a retirada de todo o urânio enriquecido a 60% do território iraniano, além da suspensão do direito de enriquecimento por 20 anos. Essas demandas visavam reverter a vantagem iraniana garantida pela Operação Promessa Cumprida 4. Para o corpo das Guardas Revolucionárias Islâmicas (CGRI), ceder a tais pontos significaria abrir mão da soberania nacional em um momento de superioridade militar. Ao contrário do que diz as bravatas do presidente norte-americano Donald Trump, o Irã se fortaleceu politicamente ao demonstrar que pode sustentar uma guerra sem esgotar suas munições, enquanto o imperialismo enfrenta dificuldades logísticas e uma infraestrutura de defesa “cega” diante da tecnologia de mísseis persa.

A desorientação política do governo Trump apresenta-se como o segundo fator determinante para a paralisia das negociações de paz, expondo um governo que oscila entre a retórica beligerante e o recuo. O impasse é o resultado de uma crise de direção diante de uma conjuntura sem saídas favoráveis. A vacilação de Trump, que em menos de vinte e quatro horas passou de ameaças de destruição total da civilização iraniana para o anúncio de um cessar-fogo, indica que o governo norte-americano atua sob pressão imediata e sem um planejamento de longo prazo. Essa incerteza reflete-se na ausência de datas ou locais definidos para novas rodadas de negociações, o que, na prática, prolonga o estado de indefinição militar e política.

A hesitação é alimentada pelo fato de que qualquer decisão para o governo Trump acarreta prejuízos políticos significativos. De um lado, a continuidade do desgaste militar aprofunda a derrota e expõe a vulnerabilidade das tropas no Oriente Médio; de outro, uma retirada definitiva consolidaria a imagem de que o imperialismo é incapaz de enfrentar uma potência regional como o Irã.  O governo Trump, já fragilizado por erros internos e pela capitulação diante dos setores mais poderosos do grande capital, encontra-se acuado pela eficácia da retaliação iraniana, que transformou a agressão inicial em um problema político de difícil resolução.

Essa crise também é agravada pela falta de apoio à guerra dentro da própria base política do presidente e entre seus aliados históricos. O anúncio de que o Reino Unido não participaria de novas agressões e a recusa da opinião pública norte-americana em sustentar um conflito de grandes proporções deixaram o governo Trump isolado. Sem uma solução militar viável e diante de um cenário econômico global deteriorado pela alta dos combustíveis, o governo Trump demonstra ser incapaz de ditar os termos do fim das hostilidades, restando-lhe apenas a protelação da derrota enquanto busca preservar o que resta de sua imagem doméstica internacional.

Somado ao impasse diplomático e à desorientação do governo, o cenário político interno dos Estados Unidos configura-se como um fator de pressão que inviabiliza uma estratégia coesa e racional. A crise atual é intensamente explorada pelo setor democrata do imperialismo, que utiliza o descontentamento popular e a sabotagem institucional para encurralar o governo Trump. A oposição interna não visa apenas o fim das hostilidades, mas a desestabilização do próprio governo, utilizando manifestações que são dirigidas por organizações financiadas por figuras como o bilionário George Soros.

A atuação da grande imprensa internacional, representada por órgãos como o jornal The Guardian, também foi apontada como parte desse mecanismo de pressão. No programa, observou-se que, enquanto esses veículos pediam o cessar-fogo, mantinham uma linha de crítica agressiva à condução de Trump, expondo as contradições do governo. Para os setores tradicionais do imperialismo, o fracasso de Trump na guerra contra o Irã serve como justificativa para retomar o controle direto da política externa norte-americana, retirando a iniciativa das mãos de um presidente errático.

Essa crise impede que os Estados Unidos aceitem uma paz baseada na realidade dos fatos. Ao invés de uma negociação que reconheça a superioridade tática iraniana, o que se vê é uma paralisia alimentada por conflitos entre diferentes alas dos regimes norte-americano e israelense.

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