O texto O preço dos sigilos das famílias Toffoli e Moraes, de Eduardo Guimarães, publicado no Brasil 247, mostra que a esquerda pequeno-burguesa está mais preocupada em blindar o Supremo Tribunal Federal (STF) do que em denunciar a podridão do escândalo da venda de dados sigilosos envolvendo as famílias de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
E isso aparece logo no método do texto: ele parte de uma versão “com base em supostas fontes que não querem se identificar” e usa a história do valor “R$250” como eixo para deslocar o debate do que interessa: como funciona o esquema de sigilos no Estado e por que o STF sempre acaba protegido, mesmo quando o caso encosta nele.
O autor abre com ironia — “Foi bem barato mesmo – ou não” — e em seguida tenta guiar o leitor para uma conclusão que não se sustenta: “O que significa isso? Em primeiro lugar, significa que ela sentiu o golpe”. A partir daí, vira uma novela sobre jornalista “negando compra”, como se o centro do problema fosse a reputação de quem publicou, e não o fato de que há um mercado de sigilos dentro do aparelho de Estado.
O texto chega a cravar que alguém “achou necessário negar que tenha comprado os sigilos”, e isso serve para quê? Para deslocar o caso do terreno político para o terreno do “quem disse o quê” e “quem vazou para quem”.
O autor pergunta: “Por que servidores cobraram tão pouco para revelar dados tão importantes?” e especula se seriam “‘Barnabés’ desonestos”. Aqui está um erro clássico: reduzir um esquema estrutural a meia dúzia de funcionários “desonestos”, como se não existisse um sistema permanente de vazamentos, dossiês e venda de informação a serviço.
E o texto sabe disso, mas tenta amenizar: “Se os sigilos dos ministros e familiares custaram pouco… é porque os dados não continham nada demais… Confere? Só que não.” O problema é que ele não leva isso até o fim de forma consequente: se “não continham nada demais”, por que a operação existe? Se “continham”, por que o autor não exige uma ampla investigação — em vez de focar em proteger a “instituição”?
O momento mais revelador é quando o autor reconhece que haveria “indícios de crimes tonitruantes de MINISTROS DO STF” — mas a frase fica no ar, sem consequência prática. Em vez de desenvolver a denúncia política, o texto retorna ao alvo conveniente: “Essa coluna da Malu Gaspar é… cheia de vento”.
E culmina no ponto que resume a operação de blindagem:
“Seria muito mais simples se Malu Gaspar e Lauro Jardim informassem como obtiveram dados sigilosos… Porque ter esses dados já é crime por si só.”
Ou seja: quando o escândalo encosta no STF, o texto troca o eixo do problema.
O texto admite: “a principal pergunta ela não respondeu: quem comprou esses dados sigilosos tão baratinhos?” e reforça “Porque alguém comprou”. Até aqui, correto.
Mas imediatamente puxa para a rota de fuga: “Ou será que foi para fazer chegar a ela e ao seu colega de redação?” De novo, a briga de redação vira centro, e o STF fica em segundo plano — como se o problema real fosse “quem entregou aos jornalistas”, não quem está vendendo e usando isso dentro do regime.
Essa forma de argumentar é sintoma de um fenômeno: setores da esquerda passaram a tratar o STF como “aliado” a ser preservado. A ideia é: se atacar o STF “ajuda a direita”, então se relativiza o escândalo. Esse raciocínio transforma a esquerda em guarda-costas de instituição burguesa.
E é o que a esquerda tem feito no último período. Tornou-se defensora de uma instituição tão reacionária que participou do golpe de Estado 2016 e que, recentemente, foi responsável por afanar os benefícios de final de ano dos trabalhadores dos Correios.





