Desde janeiro, intensificaram-se as tensões em torno da possibilidade de uma agressão dos Estados Unidos contra o Irã. Informações divulgadas pela imprensa burguesa indicam que ao menos 163 voos de aeronaves militares de transporte teriam partido dos Estados Unidos e do Japão com destino ao Oriente Próximo nas últimas semanas. A Casa Branca declarou que a permanência de um porta-aviões na região dependerá do desfecho das negociações nucleares com a República Islâmica.
Em meio a essa escalada, a Guarda Revolucionária do Irã e as Forças Armadas do país iniciaram, na segunda-feira (16), uma operação naval combinada denominada “Controle Inteligente do Estreito de Ormuz”. A ação é coordenada pela Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) em uma das áreas mais estratégicas do planeta para o comércio de hidrocarbonetos. As manobras ocorrem no Golfo Pérsico e no estreito que liga a região ao mar de Omã, por onde transitam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
O Estreito de Ormuz é um dos principais pontos de estrangulamento do comércio internacional. Ele conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é a principal via de escoamento do petróleo e do gás exportados por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Cuaite, Iraque, Irã e Catar. Quase a totalidade dessas exportações passa por essa rota marítima.
No caso do petróleo, qualquer interrupção no tráfego provocaria um choque imediato nos preços internacionais da energia, afetando economias em todo o mundo, inclusive aquelas que não importam diretamente da região.
Em relação ao Gás Natural Liquefeito (GNL), o Catar figura entre os maiores exportadores do planeta, e praticamente toda a sua produção destinada ao exterior atravessa Ormuz. Países como Índia e Japão dependem desse fornecimento para sua cadeia energética.
Outro setor diretamente impactado é o de fertilizantes, com implicações imediatas para a produção mundial de alimentos. Cerca de 45% da ureia exportada no mundo provém de países que utilizam o Estreito de Ormuz como rota de escoamento. Uma crise prolongada na região elevaria o custo de produção agrícola em países importadores, como Brasil e Índia. A Arábia Saudita consolidou-se como importante fornecedora de fertilizantes fosfatados, enquanto o enxofre, insumo essencial para a fabricação desses produtos, também é amplamente exportado a partir do Golfo Pérsico.
Além disso, ainda que em menor escala, outras mercadorias de alto valor agregado transitam pela rota. Para o Reino Unido, por exemplo, destacam-se importações de ferro, aço e plásticos, enquanto exportações como pasta de madeira e têxteis utilizam o mesmo corredor marítimo. No caso da Índia, além de energia e fertilizantes, há importações relevantes de ouro oriundo dos Emirados Árabes Unidos.
Ou seja, o Estreito de Ormuz é vital não apenas para o abastecimento energético global, mas também para a circulação de insumos essenciais à agricultura e à indústria. Algumas estimativas indicam que a região influencia indiretamente entre 15% e 20% de determinados fluxos globais de commodities energéticas e correlatas.
Diferentes instituições financeiras apresentaram projeções para o preço do barril de petróleo em cenários hipotéticos de interrupção do tráfego no estreito. A The New Arab menciona valores acima de US$120,00 em caso de fechamento da rota. A TD Securities estima preços entre US$100,00 e US$120,00 ou mais em uma hipótese de escalada regional com risco à infraestrutura energética. Projeções associadas ao Morgan Stanley apontam para a faixa de US$110,00 a US$120,00 caso o cenário de tensão se prolongue por mais de três meses, com possíveis efeitos de estagflação na Ásia. A Moneyweb trabalha com a hipótese de variação de até US$108,00, considerando um salto de 80% sobre um patamar de referência de US$60,00 no início de 2026. Já análises citadas pela Bloomberg e pelo Yahoo Finance projetam aumento percentual semelhante, enquanto o DBS Bank estima uma faixa entre US$80,00 e US$100,00 em um cenário de escalada limitada.
Existem dois cenários principais. No primeiro, de crise moderada, com ataques pontuais e sem bloqueio total e prolongado, os preços poderiam situar-se entre US$80,00 e US$100,00, refletindo um prêmio de risco elevado, mas sem interrupção completa do fluxo físico de petróleo. No segundo, de bloqueio total e prolongado, com retirada do mercado de cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente, os preços poderiam ultrapassar US$120,00, dependendo da extensão do conflito e da eventual ameaça à infraestrutura de outros países do Golfo.
Até o momento, exercícios militares iranianos que implicaram restrições temporárias no estreito provocaram apenas reações limitadas nos preços, por serem considerados de baixa probabilidade de evolução para um bloqueio total. A maioria das avaliações financeiras trata o fechamento completo como cenário extremo.
Entretanto, tais projeções tendem a analisar o problema sob o ponto de vista estritamente econômico dos mercados. Pouco se considera a crise que atravessa o sistema capitalista internacional e a necessidade permanente das potências imperialistas de assegurar, por meio da força militar, a manutenção de sua dominação. A situação no Estreito de Ormuz, portanto, adquire significado que ultrapassa o cálculo imediato dos preços do petróleo, mas que diz respeito à disputa mais ampla pelo controle das rotas estratégicas e dos recursos energéticos globais.





