Irã

Por que Khamenei não se escondeu?

Martirizado no posto de trabalho, Khamenei refutou com a própria morte as mentiras de que havia se escondido enquanto seu povo enfrentava os bombardeios

O Irã anunciou na terça-feira (2) que o corpo do Líder da Revolução Islâmica, Aiatolá Ali Khamenei, assassinado na agressão conjunta dos Estados Unidos e de “Israel”, será sepultado em Mashhad, ao lado do santuário do Imã Ali ibn Musa al-Rida, no Santuário do Imã Reza, conforme determinado em seu testamento. Um grande cortejo de despedida está sendo organizado na capital, Teerã, com detalhes a serem anunciados em breve.

Khamenei nasceu em Mashhad; seu pai, Sayyed Javad Khamenei, também está sepultado no pórtico Tawhid Khaneh do mesmo santuário. A televisão estatal iraniana confirmou que ele foi martirizado em seu local de trabalho, no exercício de suas funções, refutando as alegações, difundidas por veículos ligados ao regime israelense, de que estaria escondido em local seguro e não revelado.

O Irã prossegue pelo quarto dia consecutivo com seus ataques de retaliação contra alvos israelenses e na região do Golfo. Segundo a agência Fars News, o país está nos estágios finais da escolha de um novo Líder, com anúncio previsto para as próximas horas ou dias. Khamenei não havia designado um sucessor específico, deixando a decisão a cargo da Assembleia de Especialistas, conforme determina a constituição iraniana.

A escritora e assessora de comunicação iraniana Sheida Eslami analisa, no texto abaixo, traduzido pelo Diário Causa Operária (DCO), o significado político e jurisprudencial da recusa de Khamenei em aceitar proteção extraordinária — e do seu martírio em sua própria trincheira.

Por que o Líder do Irã recusou proteção especial, liderando da linha de frente até o último instante

Por Sheida Eslami

Na visão de mundo predominante dos líderes ocidentais, a vida de um governante é um ativo estratégico que deve ser preservado a qualquer custo e mediante o maior distanciamento possível do povo — sobretudo quando há uma ameaça direta, imediata e declarada proveniente de algum movimento ou autoridade, de um país hostil ou de um perigo natural inevitável.

Essa estratégia, construída sobre o princípio da “proteção absoluta”, apesar de suas vantagens, transforma o líder numa espécie de figura quase mítica que se oculta atrás de muros eletrônicos, concreto armado e complexas camadas de sistemas de inteligência, tornando-se inacessível.

Essa abordagem transmite, de forma inconsciente, uma mensagem de superioridade de classe e de distribuição desigual do risco à nação.

O Líder mártir da Revolução Islâmica, Aiatolá Saied Ali Khamenei, era, no entanto, herdeiro de uma escola de pensamento na qual o papel do líder como modelo deriva de seu alinhamento com o sofrimento do povo.

Essa tradição teve origem na conduta do fundador da Revolução Islâmica, Imam Khomeini, durante os oito anos da guerra imposta pelo regime Bath do Iraque contra o Irã. Apesar da ameaça evidente à sua vida, Khomeini permaneceu na capital bombardeada e alvo de mísseis, vivendo em sua residência comum em Jamaran, para que o povo compreendesse que o líder não estava disposto a se abrigar em refúgios seguros pré-estabelecidos e extraordinários enquanto seu povo não dispunha dessa opção.

Esse comportamento era uma mensagem simples, porém eloquente: um líder que não se coloca ao nível dos membros mais vulneráveis e menos privilegiados da sociedade não pode reivindicar conhecimento da dor e do sofrimento dos diferentes segmentos sociais e, portanto, não possui as qualificações para liderar.

O líder mártir do Irã aplicou esse manifesto moral com toda a seriedade. Enquanto o aparato de segurança iraniano gerenciava profissional e continuamente as ameaças de inteligência, ele insistia em que seu estilo de vida devesse estar em harmonia com o povo e ao seu nível.

Abrigos ultrasseguros, deslocamentos sigilosos e isolamento completo foram por ele recusados — não por negligência do perigo ou por descumprimento dos princípios convencionais de proteção, mas pela compreensão de que uma proteção não convencional causaria, em longo prazo, danos indiretos à legitimidade da liderança.

Era uma luta constante contra tornar-se um governante desconectado da nação; uma batalha na qual ele preferia preservar o vínculo espiritual com a umma em detrimento do mero conforto e da segurança.

A espada da vingança e a violação da dignidade humana

A agressão militar israelense e americana que atingiu a residência do Líder é um exemplo claro de “terrorismo de Estado e não-estatal”, sem qualquer justificativa além da eliminação física de uma voz dissonante no cenário internacional.

Essa ação não foi um ataque militar contra infraestrutura de poder, mas uma tentativa covarde de criar um vácuo de poder por meio do terror e do assassinato em massa.

Quando um governo, para eliminar um líder político, recorre ao assassinato de membros de sua família, isso deixa de ser uma operação meramente militar. Reflete o medo aterrorizante que o inimigo nutria pelo referido líder e o colapso moral completo do inimigo, que ultrapassou todas as fronteiras da humanidade.

Essa brutalidade descarada revela a incapacidade do Ocidente de enfrentar um discurso ideológico profundamente enraizado. Em vez de travar o combate no campo das ideias ou da política, recorre à ferramenta suprema do autoritarismo: a eliminação física do líder máximo de um país.

Contudo, esse ato cego produziu efeito contrário. Enquanto o Ocidente buscava a “eliminação física”, afundou-se ainda mais no isolamento e no ódio popular, ao passo que o Líder do Irã, por meio do martírio em sua própria trincheira, tornou-se um símbolo eterno de resistência.

A tutela divina contra a compulsão da arrogância

É preciso compreender que essa decisão de permanecer até o fim também carregava um profundo argumento jurisprudencial: se o Jurista Supremo convida o povo ao sacrifício pela preservação dos fundamentos do sistema, ele próprio deve estar na vanguarda desse sacrifício quando o perigo se apresenta.

Este é um pacto não escrito com Deus, no qual a obediência aos mandamentos divinos e a preservação da existência da revolução têm precedência sobre a preservação do corpo mortal.

O martírio no próprio lugar que era a encarnação do serviço e da responsabilidade demonstrou que o Líder da Revolução Islâmica se sustentava não sobre o poder militar, mas sobre o poder moral.

Ao resistir às exigências de proteção extraordinária, o Aiatolá Khamenei traçou um caminho para a futura liderança do Irã — um caminho no qual o líder deve sempre permanecer acessível e viver entre o povo no estado mais natural e espontâneo possível, guiando-o efetivamente em direção a ideais mais elevados.

Esta foi uma declaração final de posição: a morte no cumprimento do dever é mais honrosa e gloriosa do que uma longa vida de isolamento sob camadas de medidas de segurança que marginalizam a nação.

O sangue sagrado do Aiatolá Khamenei, Líder da Revolução Islâmica do Irã, como o martírio mais simbólico, não apenas fortaleceu o laço entre o povo e a liderança, como também removeu definitivamente a máscara da hipocrisia daqueles que afirmam defender a dignidade humana enquanto, na prática, se tornam seus maiores violadores.

Removeu também a máscara das mentiras, das narrativas fabricadas, da propaganda negra e dos ataques à reputação daqueles que alegavam que o líder iraniano havia se escondido em uma fortaleza inexpugnável, fugido para a Rússia ou viajado para a Venezuela, deixando o povo iraniano sozinho no auge das ameaças externas.

Análise jurisprudencial-política da recusa do Líder à proteção não convencional

O martírio do Aiatolá Khamenei, para além de sua origem terrorista e de sua dimensão política, revela uma dimensão ideológica vital diretamente ligada aos fundamentos jurisprudenciais-políticos do sistema da República Islâmica e ao conceito de “Tutela do Jurista” como um princípio progressista e dinâmico de governança.

Sua firme recusa em aceitar medidas de segurança extraordinárias e “não convencionais” — que vão além dos protocolos padrão e alteram fundamentalmente o estilo de vida — estava enraizada em um profundo argumento jurisprudencial-político que pode ser denominado “compromisso com a paridade moral”.

No âmbito da jurisprudência política xiita, o líder (jurista supremo) não ocupa meramente uma posição executiva, mas carrega uma responsabilidade baseada em deveres, cuja legitimidade deriva da plena adesão aos mesmos princípios que ele exige do povo.

Quando o líder convoca a nação à paciência diante das dificuldades, à resistência às sanções e à preservação de um estilo de vida islâmico-revolucionário contra as tentações materiais ocidentais, qualquer ação prática que indique um “privilégio de estilo de vida” para preservar a própria vida contradiz fundamentalmente essa mensagem.

O argumento subjacente é que a Tutela do Jurista, dada sua natureza orientadora, representa um compromisso incondicional com a piedade e com o papel de modelo. Se o jurista supremo se abriga em espaços protegidos inacessíveis ao público em geral, impondo assim à sociedade custos que contradizem o apelo público à simplicidade e à firmeza, isso cria progressivamente uma lacuna epistemológica.

Do ponto de vista jurisprudencial, essa lacuna pode enfraquecer a “capacidade de compreender e implementar o mandato”. Poderia um líder que se protege em um recinto extraordinariamente fortificado ainda convocar o povo ao sacrifício e à luta?

Tal ação obscureceria na prática a legitimidade moral e, segundo alguns juristas, também a legitimidade governamental. Portanto, a recusa do Aiatolá Khamenei foi uma decisão defensiva para preservar a essência espiritual da Tutela do Jurista — uma escolha entre a sobrevivência corporal ao custo da perda do espírito da liderança, ou a aceitação do risco de aniquilação física para preservar a integralidade da liderança espiritual.

O registro eterno do caminho da Revolução pelo sangue puro

A visão do Aiatolá Khamenei jamais se limitou à gestão cotidiana ou à mera garantia da segurança física contra ameaças imediatas; seu horizonte esteve sempre centrado na “gestão civilizacional da Revolução Islâmica”.

Nessa perspectiva, a Revolução Islâmica não é apenas um estabelecimento político, mas um projeto histórico de apresentar ao mundo um modelo alternativo — um projeto que requer ideais, símbolos e pontos de inflexão trágicos para sua continuidade.

Ele compreendia plenamente que, diante de inimigos dotados de recursos materiais e militares superiores, não é possível alcançar a vitória apenas pelo poder defensivo. O único meio eficaz de confronto é a resistência sustentada e a criação de símbolos duradouros na memória histórica da umma.

Nesse quadro, o martírio funciona como o instrumento máximo de gestão. Não foi uma morte comum; o martírio do líder na trincheira da responsabilidade tornou-se uma fórmula que define o caminho futuro para os líderes que o sucederão.

Esse modelo enviou uma mensagem direta às potências globais: vocês podem eliminar um líder com mísseis avançados, mas não podem destruir uma ideia selada com seu sangue. Esse sangue, como a essência do movimento, servirá de bússola ideológica para as futuras gerações do Irã e da região.

Com essa escolha, ele efetivamente fez a transição de um líder limitado ao período de sua vida natural para um “arquiteto civilizacional”, assegurando uma eternidade gloriosa aos ideais da Revolução por meio da perda de sua existência material.

Este é o sacrifício supremo em uma estratégia de longo prazo — uma estratégia que inscreveu o caminho da verdadeira liderança, ainda que pelo oferecimento do próprio sangue, nas páginas mais sombrias e difíceis da história mundial, para que qualquer um que no futuro deseje carregar a bandeira desta revolução saiba que seu custo real é sempre mais elevado do que o esperado.

Sheida Eslami é escritora, assessora de comunicação e crítica cultural radicada em Teerã.

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