Diante da escalada da guerra promovida pelos Estados Unidos e por “Israel” contra o Irã, centenas de iranianos formaram correntes humanas em torno de usinas de energia e outras instalações estratégicas do país nesta terça-feira (7), enquanto crescem os alertas sobre o risco de uma catástrofe radiológica caso a usina nuclear de Bushehr, no sul do país, seja atingida.
Imagens divulgadas por meios de comunicação iranianos mostram a mobilização popular nas proximidades da usina termelétrica de Kazeroon, na província de Fars. No local, manifestantes apareceram com bandeiras e cartazes para demonstrar apoio à defesa da infraestrutura nacional, num momento em que o país sofre ameaças diretas contra suas usinas e seus sistemas energéticos.
A mobilização ocorreu após um pronunciamento transmitido pela TV estatal iraniana, no qual Alireza Rahimi, secretário do Conselho Supremo da Juventude e dos Adolescentes, convocou a população a proteger as usinas do país. Segundo ele, essas instalações representam “ativos” e “capital nacional”. Ao mesmo tempo, Rahim Nad Ali, vice-chefe da Guarda Revolucionária para assuntos de cultura e artes, anunciou uma ampla campanha sob o lema “Defesa da pátria pelo Irã”, com o objetivo de organizar a participação popular em diferentes frentes.
De acordo com as informações divulgadas, a campanha inclui atividades de segurança, apoio logístico e atendimento de emergência. Entre as tarefas previstas estão patrulhas, inspeções, fornecimento de veículos e equipamentos, apoio financeiro, preparação de alimentos, assistência a casas danificadas e convocação de médicos e enfermeiros para atender feridos. Os voluntários foram orientados a se registrar nas bases do Basij instaladas em mesquitas de Teerã.
O pano de fundo dessa mobilização é o temor crescente em torno da usina nuclear de Bushehr, principal instalação nuclear civil em funcionamento no Irã. A Agência Internacional de Energia Atômica alertou que um ataque à usina poderia provocar um grave acidente radiológico, com consequências severas para a população e para o meio ambiente, dentro e fora do território iraniano. O aviso foi feito após novos bombardeios nas proximidades da instalação, em mais um episódio da guerra em curso desde 28 de fevereiro.
Segundo a própria agência, uma análise independente de imagens de satélite identificou uma das explosões a apenas 75 metros da instalação, embora a estrutura principal da usina não tenha sido oficialmente dada como destruída. Já Mohammad Eslami, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, afirmou que o ataque mais recente causou danos a um dos prédios do complexo, matou um agente de segurança e deixou outros feridos.
O perigo em torno de Bushehr é enorme porque a usina abriga um reator ativo, carregado com grandes quantidades de combustível nuclear altamente radioativo. Caso os sistemas de resfriamento sejam atingidos ou haja interrupção do fornecimento de energia, o combustível pode superaquecer, derreter e liberar material radioativo no ar, no solo e nas águas do Golfo Pérsico. Um desastre dessa magnitude não ficaria restrito ao Irã, podendo afetar toda a região.
Inaugurada em 2011, Bushehr é a única usina nuclear atualmente em operação no país para produção de eletricidade. Ela gera cerca de mil megawatts e fica localizada no litoral sul iraniano, a mais de 760 quilômetros de Teerã. Embora sua produção cubra apenas uma parte limitada das necessidades energéticas nacionais, seu valor estratégico e simbólico é enorme, ainda mais em meio à ofensiva imperialista contra o país.
Nas redes sociais, a possibilidade de um ataque direto à usina gerou uma onda de reações. Diversos internautas lembraram os desastres de Tchernóbil e Fukushima, advertindo que os maiores prejudicados por uma explosão nuclear seriam os povos de toda a região. Outros destacaram que uma escalada desse tipo poderia abrir caminho para um desastre generalizado no Oriente Médio.
Além do risco humano e ambiental, o ataque a Bushehr representaria também uma violação aberta do direito internacional. A Quarta Convenção de Genebra proíbe ataques a instalações que possam liberar forças perigosas contra a população civil, como é o caso de usinas nucleares. Ao longo de décadas, a própria Agência Internacional de Energia Atômica aprovou resoluções condenando ataques ou ameaças contra instalações desse tipo.
A campanha de mobilização popular, no entanto, também foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos. A Human Rights Watch afirmou que a possibilidade de participação de menores de idade, com idade mínima de 12 anos, configuraria uma grave violação. As autoridades iranianas rejeitaram a acusação e disseram que a campanha é voluntária, não obrigatória, e que a referência etária decorre do interesse manifestado por adolescentes e jovens em participar de atividades de defesa e apoio.
Mais cedo, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que mais de 14 milhões de iranianos já declararam disposição para se sacrificar em defesa do país. A declaração, somada às correntes humanas formadas diante das usinas, mostra que a defesa da infraestrutura energética deixou de ser apenas uma questão técnica ou militar e se transformou em um problema nacional, diretamente ligado à soberania do Irã e à sobrevivência de seu povo.





