Na manhã desta quinta-feira (29), a Polícia Federal (PF) prendeu um homem investigado por “atos preparatórios de terrorismo” e sob suspeita de integrar uma “organização terrorista internacional”. A prisão ocorreu em Bauru, no interior do estado de São Paulo, a cerca de 330 quilômetros da capital.
A investigação que levou à prisão, conforme noticiado pela própria PF, foi realizada com “apoio do FBI” e autorizada pela 3ª Vara Federal de Bauru. O FBI é a sigla em inglês para Birô Federal de Investigação — o equivalente à Polícia Federal dos Estados Unidos. Diante da disparidade de estrutura das duas polícias e do caráter subserviente do regime brasileiro, é ridículo falar em “apoio” ou “cooperação”. Se a PF realiza uma operação em conjunto com o FBI — isto é, com o Estado norte-americano — é porque se trata de uma ação autorizada — e, frequentemente, encomendada — pelo imperialismo.
O homem preso é apontado como responsável por planejar um “ataque suicida” na cidade com uso de um colete explosivo. Nenhuma prova dos supostos “atos preparatórios” foi apresentada a público. Horas depois do anúncio feito pela PF, o jornal O Estado de S. Paulo divulgou uma foto do colete que supostamente seria utilizado pelo investigado.
No mesmo dia, a Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou uma operação no interior do estado, na cidade de Gaúcha do Norte, tendo como alvo um jovem investigado por utilizar redes sociais para supostamente difundir “ideologias neonazistas”, “incitar atentados violentos contra escolas” e “planejar atentados contra populações vulneráveis”. O investigado, de apenas 20 anos, foi preso após ordem expedida pela Justiça com base em investigações realizadas pela Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI).
Novamente, o Estado norte-americano estava envolvido. Segundo informações do portal Hipernotícias, as investigações tiveram início a partir de um alerta da Agência de Investigações de Segurança Interna (HSI, na sigla em inglês), agência ligada à Embaixada dos Estados Unidos, que teria encaminhado as informações para a unidade especializada em Mato Grosso.
“O investigado demonstrava estar em estágio avançado de radicalização, com intenções de vandalizar mesquitas e praticar atos de violência contra a população negra”, disse o delegado responsável pelas investigações, Guilherme da Rocha.
O nome da operação que levou à prisão do jovem — Enigma — foi dado em alusão à quebra da criptografia da máquina nazista Enigma pelas forças aliadas. Da mesma forma, a DRCI teria superado as tentativas do investigado de se manter anônimo.
A prisão e investigação de brasileiro por meio dos serviços de informação imperialistas e sionistas têm se tornado cada vez mais comuns desde a Operação Dilúvio de Al-Aqsa de 7 de outubro de 2023, quando a Resistência Palestina expôs ao mundo a face genocida e criminosa do Estado de “Israel”. Não apenas os serviços têm entregado informações sobre os cidadãos brasileiros como têm claramente influenciado as autoridades públicas para que tomem medidas repressivas contra os investigados.
O caso que melhor expressa esta ofensiva é o do comerciante Lucas Passos Lima, condenado inicialmente a 16 anos de cadeia por supostamente realizar “atos preparatórios de terrorismo”. Conforme se tornaria evidente durante o processo, os tais “atos preparatórios” consistiam em atividades banais, como realizar pesquisas na Internet e viajar para o Líbano.
Outro caso semelhante é o de um jovem do Rio Grande do Sul que foi preso preventivamente — isto é, sem julgamento — por “planejar atos terroristas”. Durante cumprimento de ordem judicial na residência do investigado, a Polícia Federal alega que foram encontradas facas, machadinhas, soqueiras, bastões, porretes, munição, colete balístico, material incendiário e gás de pimenta — nenhum deles armamento capaz de produzir um ataque de grande impacto.
As investigações e prisões têm objetivos claros. Em primeiro lugar, trata-se de uma forma de aumentar a perseguição aos defensores da Palestina no Brasil. Ainda que Lucas Passos Lima não fosse conhecido publicamente como um defensor dos palestinos, a possibilidade de prender alguém por ter viajado a um país árabe abre o precedente para prender praticamente qualquer ativista que tenha alguma relação com as nações do Oriente Médio — nações que, de acordo com a doutrina da Polícia Federal, são, por definição, “terroristas”.
O segundo objetivo é o de aumentar a repressão em geral sobre o povo brasileiro. O aumento da espionagem e a criação de dispositivos jurídicos arbitrários para a condenação de brasileiros é uma condição fundamental para que o imperialismo mantenha a sua dominação na próxima etapa de ataques contra o povo trabalhador.
Outro lado
O Diário Causa Operária (DCO) entrou em contato com a Polícia Federal solicitando esclarecimentos sobre o caso do homem de Bauru. A corporação respondeu, afirmando que as informações públicas estão limitadas à nota oficial publicada no início do dia. “Sem mais detalhes”, diz no e-mail encaminhado a nossa redação.
Em seguida, este Diário enviou uma segunda mensagem, questionando o fato de que a imprensa burguesa, citando conversa entre a Reuters e agentes da PF, veiculou que o suspeito seria do Estado Islâmico (EI). Não obtivemos, no entanto, resposta acerca deste questionamento.
O espaço segue aberto para mais esclarecimentos.





