Parceria DCO-COTV

Plantão Irã: o que vem após o fim do cessar-fogo?

Programa tratou da situação no Líbano, da posição do Hamas em Gaza e da indefinição sobre a trégua entre Irã e EUA

No Plantão Irã desta terça-feira (21), programa diário da Causa Operária TV (COTV) em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), inaugurado em 17 de março e exibido às 16 horas, os comentaristas discutiram a situação no Líbano, a posição do Hamas diante das exigências norte-americanas para Gaza e a incerteza em torno do prazo do cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos. Ao longo da transmissão, o programa apresentou um panorama da ofensiva imperialista na região e destacou a disposição das forças de resistência em manter o enfrentamento caso a guerra seja retomada.

No bloco sobre o Líbano, Pedro Burlamaqui comentou a continuidade das violações israelenses, apesar da trégua firmada após a guerra. Ele destacou a divulgação de uma imagem que mostra um soldado sionista destruindo uma estátua de Jesus Cristo em uma cidade do sul libanês e relacionou o episódio à manutenção dos bombardeios, das demolições e das tentativas de ampliar a ocupação militar da faixa de fronteira.

Ao comentar o caso, Victor Assis afirmou que a ação não demonstrava força, mas a degradação política do sionismo e a dificuldade de impor seus objetivos no terreno:

“Primeiro destacar o caráter criminoso e asqueroso da política sionista. Embora choque muito esse tipo de ação, isso acompanha o sionismo durante toda a sua história. E longe de demonstrar força, isso é uma demonstração profunda de covardia. O sionismo se impôs por meio de ações violentas desse tipo, desde a sua constituição, porque era um grupo que sempre foi apoiado, financiado, armado por países muito poderosos.”

Na mesma intervenção, Assis sustentou que a fragilidade do cessar-fogo no Líbano não decorre de um equilíbrio militar, mas da recusa de “Israel” em aceitar uma correlação de forças desfavorável:

“A situação realmente é frágil, mas ela não é frágil no sentido de que há uma espécie de empate no campo de batalha. Muito pelo contrário, ela é frágil justamente porque ela está relativamente bem definida, a superioridade do Eixo da Resistência está clara, mas ‘Israel’ se nega a entrar em um acordo que reflita essa correlação de forças. Ele tenta a todo custo forjar um acordo de cessar-fogo que não corresponda ao campo de batalha.”

Ainda sobre o Líbano, o programa tratou da chamada “zona tampão” que o exército israelense busca impor em território libanês, avançando de cinco a 10 quilômetros para dentro do país e atingindo 21 vilas. Burlamaqui lembrou que o Hesbolá já respondeu à tentativa de ocupação com novas ações militares e com uma declaração segundo a qual confrontará qualquer imposição de nova presença militar israelense no sul do país.

Francisco Muniz criticou a política do governo libanês de participar de novas conversações com “Israel”, mediadas pelos Estados Unidos, sem a presença do Hesbolá. Segundo ele, a própria continuidade dos ataques durante a trégua mostra o valor real dessas negociações:

“Eu acho que negociar com ‘Israel’ é um negócio que soa quase como uma piada de mau gosto, considerando as circunstâncias atuais, mas também as circunstâncias de sempre. ‘Israel’ não tem respeito por nenhum tipo de negociação. O próprio fato de que eles estão atacando o Líbano nesse momento aqui, quando foi acertado um cessar-fogo, mostra que é uma besteira, uma bobagem você se propor a negociar com ‘Israel’.”

Na parte dedicada à Palestina, o programa destacou a resposta do Hamas à proposta norte-americana de desarmamento da resistência em Gaza. Segundo Burlamaqui, as Brigadas al-Qassam rejeitaram completamente o plano apresentado no Egito pelo chamado Conselho de Paz de Gaza e o classificaram como uma armadilha que poderia abrir caminho para uma guerra interna no território palestino. Ao mesmo tempo, o setor político do Hamas reafirmou a disposição de seguir nas negociações para a segunda fase do acordo de cessar-fogo, embora “Israel” tenha violado a trégua milhares de vezes em seis meses.

Assis afirmou que, até o momento, o Hamas tem respondido politicamente a essas violações, denunciando “Israel” como a parte interessada em sabotar o cessar-fogo. Segundo ele, essa linha de conduta tem produzido resultados:

“O Hamas responde a essas violações, mas não militarmente, pelo menos não com uma ação militar direta. Ele tem respondido politicamente e até o momento é uma estratégia que tem se mostrado bastante eficaz. A resposta política é denunciar ‘Israel’ como a parte que não tem vontade, que não tem interesse em sustentar o cessar-fogo. Obviamente que esse tipo de denúncia não é buscando uma intervenção da dita comunidade internacional, da ONU, de nenhum país imperialista. É uma denúncia para as massas, para a opinião pública.”

Ele também afirmou que a trégua, mesmo sob ataques contínuos, favorece a reorganização política e material da resistência palestina:

“Mesmo nos termos que estão colocados, ele é economicamente e militarmente favorável ao Hamas, pois permite uma recomposição da resistência palestina, e também politicamente é bastante positivo, porque faz com que a população palestina, a população em volta, reconheça o valor que tem a resistência armada.”

Na parte final do programa, o centro da discussão passou a ser o prazo do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos. Burlamaqui informou que havia divergências sobre o horário exato do término da trégua, depois de Donald Trump indicar uma interpretação distinta da anunciada inicialmente. Ao mesmo tempo, o programa lembrou que Abdul Malik al-Huti, líder do Ansar Alá, declarou que o Iêmen retomará o combate caso os EUA e “Israel” voltem a atacar o Irã.

Muniz destacou a importância dessa ameaça, lembrando o papel desempenhado pelo Iêmen nas ações contra o imperialismo desde o início da guerra em Gaza. Segundo ele, a possibilidade de bloqueio do estreito de Babelmândebe amplia o alcance da crise:

“Durante o período em que o conflito estava mais centrado na Faixa de Gaza, o Iêmen cumpriu uma função importante na ofensiva do Eixo da Resistência. E o Iêmen causou muitos problemas justamente por conta desse impedimento de passagem de navios durante aquele período. Isso pode complicar muito a situação do conflito e gerar uma crise de proporções mundiais.”

O programa também tratou das tensões em torno do Estreito de Ormuz e da denúncia iraniana de que os Estados Unidos romperam a trégua ao atacar um navio iraniano e ao manter operações de bloqueio contra embarcações ligadas ao país. Burlamaqui mencionou ainda o sequestro de um navio comercial associado ao Irã no oceano e a continuidade da navegação de petroleiros iranianos escoltados pela marinha do país.

Ao analisar essas ações, Assis afirmou que Trump tenta pressionar o Irã para alterar os termos do acordo, mas sem dispor de instrumentos para isso:

“Esses ataques não mudam em absolutamente nada a situação no campo de batalha. O que muda é a situação política, diplomática. Muda no seguinte sentido: os Estados Unidos provam mais uma vez que não são confiáveis e que, portanto, as exigências que o Irã vai ter que fazer para garantir a sua segurança vão ter que ser maiores.”

Na parte final, Burlamaqui leu a declaração do porta-voz da chancelaria iraniana segundo a qual ainda não havia decisão sobre a participação do país em novas negociações no Paquistão, justamente por causa das “mensagens contraditórias”, do “comportamento conflitante” e das “ações inaceitáveis” dos norte-americanos. Também foi mencionada a informação, divulgada por meios iranianos, de que as Forças Armadas do país estariam em preparação total para uma retomada da guerra e teriam “novas surpresas” para os agressores.

Assis avaliou que o conflito se aproxima de um desfecho, ainda que a imprevisibilidade de Trump mantenha aberto o risco de novas provocações antes do encerramento definitivo da guerra:

“O que acontece é que os Estados Unidos estão muito insatisfeitos com as condições do acordo de cessar-fogo, estão insatisfeitos no sentido de que eles não querem levar essa derrota para casa. Eles não conseguem reverter, não parecem ter nenhuma carta na manga, não têm o que apresentar, enquanto o Irã promete surpreender e sempre tem surpreendido.”

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