O programa Plantão Irã, transmitido diariamente às 16 horas pela Causa Operária TV (COTV), em parceria com o Diário Causa Operária (DCO), analisou nesta quinta-feira (23) os principais acontecimentos da guerra contra o Irã, com destaque para o estreito de Ormuz. A edição foi apresentada por Francisco Muniz, Victor Assis e Pedro Burlamaqui.
Inaugurado em 17 de março, o Plantão Irã tem acompanhado diariamente a agressão imperialista contra a República Islâmica, a situação da resistência no Oriente Próximo e os desdobramentos da ofensiva dos Estados Unidos e de “Israel”.
Um dos principais temas do programa foi a confirmação, pelo Irã, do recebimento das primeiras receitas provenientes das taxas de trânsito cobradas de navios comerciais que atravessam o estreito de Ormuz. Burlamaqui lembrou que, poucos dias depois da agressão imperialista, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) anunciou o fechamento do estreito. Com o desenvolvimento da guerra, o país passou a ampliar seu controle sobre a região e a estabelecer regras próprias para a navegação.
Segundo o apresentador, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que a reabertura do estreito sob regras iranianas, incluindo a cobrança de taxas, é uma resposta ao que chamou de “bullying norte-americano”.
Victor Assis destacou que a medida é plenamente legítima e comparou a situação de Ormuz com a do canal de Suez, controlado pelo Egito.
“Primeiro, queria destacar a legalidade do ato. O que o Irã está fazendo, embora seja uma novidade para a situação iraniana, não é novo no mundo. A gente tem uma situação muito parecida com o canal de Suez, controlado pelo Egito. No caso de Suez, existe um pedágio cobrado pelo tráfego de navios. Um grande porta-contêiner pode chegar a gastar algo em torno de US$800.000. Um navio de carga média acaba desembolsando entre US$200.000 e US$300.000. Então o Irã não está inventando nada. É uma coisa já estabelecida no direito internacional”, afirmou.
Para Assis, a guerra não enfraqueceu a posição iraniana em Ormuz. Ao contrário, permitiu que o Irã consolidasse sua presença militar e política no estreito.
“O fato de o Irã implementar o pedágio antes de um acordo de cessar-fogo, antes do fim da guerra, mostra a evolução do controle iraniano sobre a região. A guerra, em vez de enfraquecer o domínio do Irã sobre Ormuz, fortaleceu esse domínio. O Irã estabeleceu de maneira muito clara um poder enorme de ação na região, deixando claro que qualquer outro país que tente reivindicar Ormuz vai se dar muito mal”, disse.
O comentarista também afirmou que existe um debate no próprio Irã para transformar essas medidas em lei. Segundo ele, o Parlamento iraniano discute normas para proibir a navegação de embarcações de países hostis, como os Estados Unidos e “Israel”, exigir autorização iraniana para a passagem pelo estreito e tornar permanente a cobrança de pedágio.
Ainda durante o programa, Burlamaqui noticiou que agências iranianas relataram a ativação de baterias de defesa aérea em diferentes áreas de Teerã. Não existia, até aquele momento, confirmação oficial sobre o motivo da ativação. Um correspondente da Al Jazeera afirmou ter visto as baterias em funcionamento, e um ex-general norte-americano citado pela emissora levantou três hipóteses: exercícios militares, resposta a VANTs hostis ou preparação diante de uma possível agressão norte-americana.
Outro tema foi a destruição causada pelos ataques imperialistas contra a infraestrutura civil iraniana. Segundo dados apresentados no programa a partir de levantamento da Bloomberg, apenas cerca de um terço da infraestrutura destruída na capital iraniana durante a agressão tinha alguma relação com as forças armadas ou estruturas de combate. Ao todo, 2.816 prédios foram atingidos. Desse total, 32% tinham ligação militar, 25% eram ligados à indústria, 21% a civis, 19% a prédios comerciais e 2% a prédios governamentais.
Burlamaqui também citou a declaração do vice-presidente iraniano de que o país irá a fóruns internacionais denunciar os ataques contra centros científicos. Universidades iranianas também foram atingidas. O embaixador iraniano nas Nações Unidas classificou os ataques norte-americanos e israelenses contra infraestrutura civil e de comunicação como atos de terrorismo de Estado.
Francisco Muniz afirmou que a destruição de infraestrutura civil é compatível com o método do imperialismo.
“Eu vejo como algo natural, se você comparar com o que o imperialismo vinha fazendo no período anterior. Na faixa de Gaza, imperialismo, ‘Israel’. ‘Israel’ é o nome do imperialismo. É o esperado, porque esse é o modus operandi. São forças de destruição de outros países. Se o imperialismo não está destruindo um país através do estrangulamento econômico, através de sanções econômicas, através de uma pressão política, ele destrói através do aparato militar mesmo, de forma mais direta”, afirmou.
Muniz comparou os ataques dos Estados Unidos e de “Israel” contra civis com a forma como o Irã tem respondido militarmente, buscando atingir alvos estratégicos e militares. Para ele, a diferença mostra o caráter destrutivo da política imperialista. Ele acrescentou que a destruição da infraestrutura civil serve como tentativa de aterrorizar a população e provocar uma revolta contra o governo iraniano.
“Isso que os Estados Unidos fazem é uma falta de qualquer consideração com a vida humana. É uma estratégia terrorista, tentar terrorizar a população para ver se assim ela se volta contra o governo, coisa que a gente tem visto que não tem efeito nenhum. Pelo contrário, a tendência com esses ataques é fazer com que a população se enfureça ainda mais com os invasores”, disse.
O programa também analisou uma declaração de Donald Trump em sua rede social. O presidente norte-americano afirmou ter ordenado à Marinha dos Estados Unidos que “atire e mate” qualquer embarcação iraniana que estivesse instalando minas no estreito de Ormuz. Na mesma declaração, Trump afirmou que caça-minas norte-americanos estariam atuando no estreito.
Burlamaqui relacionou a ameaça à declaração do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, segundo a qual o Irã está disposto a negociar, mas enfrenta constantes quebras de compromisso, bloqueio militar e ameaças por parte dos Estados Unidos.
Assis avaliou que a ameaça de Trump mostra a incapacidade do imperialismo de levar adiante uma negociação séria.
“É mais uma demonstração da incapacidade do imperialismo de levar adiante uma negociação honesta, séria. O governo norte-americano se sente no direito de fazer o que bem quiser. A gente já tinha visto isso na Venezuela, no mar do Caribe, no próprio Pacífico, quando o governo norte-americano assassinou dezenas de homens que, segundo o governo norte-americano, eram narcotraficantes. Eles não foram julgados por nenhum país, não foram condenados a nada. Foram sumariamente assassinados”, afirmou.
Para o comentarista, o Irã tem o direito de controlar sua costa e impedir a aproximação de embarcações estrangeiras hostis. Ele afirmou ainda que as ameaças de Trump não alteram o curso da guerra.
“Quando a gente fala bravata, nós não estamos falando necessariamente que Trump não vai fazer. O que nós estamos dizendo é que as condições dele de ter sucesso com as ações não correspondem à realidade. Trump falou que ia acabar com a civilização iraniana. É uma bravata. Ele é incapaz de fazer isso. Ele não tem poder para fazer isso”, afirmou Assis.
O programa também comentou o deslocamento do porta-aviões USS George H.W. Bush para a região do oceano Índico. Para Assis, a movimentação tem caráter ameaçador, mas não significa que os Estados Unidos tenham condições de impor uma derrota ao Irã.
Na parte final, o Plantão Irã tratou de denúncias relacionadas às liberdades democráticas. Burlamaqui relatou o caso de Gabriela Saldanha, estudante norte-americana de 20 anos presa na Flórida após enviar a um grupo de WhatsApp uma mensagem irônica pedindo que Benjamin Netaniahu enviasse “bombons” para estudantes de sua universidade. A palavra foi interpretada como eufemismo para bombas.
Muniz criticou a prisão da estudante e afirmou que o caso revela o avanço da censura nos Estados Unidos e em outros países.
“Qual é o efeito que uma brincadeira feita num grupo restrito de amigos tem sobre a realidade? É uma coisa muito cretina você prender a pessoa por causa disso. Isso é o sentido da censura, da política de censura que inclusive a esquerda defendeu no Brasil. A serventia disso é estabelecer um clima de terror dentro da sociedade norte-americana, um clima de medo de falar as coisas em grupos de discussão privados”, disse.
Segundo Muniz, o objetivo dessa política é impedir críticas ao imperialismo, a Netaniahu, a Trump e aos governos imperialistas.
O último tema abordado foi a situação de uma família palestina mantida na área restrita do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, após ter sua entrada no Brasil recusada pelas autoridades migratórias. Segundo Burlamaqui, Hany e Etimad Algu chegaram ao Brasil em 16 de abril com o filho Kenan, de um ano. A família vivia na Faixa de Gaza, deixou a região em meio ao genocídio sionista e pediu refúgio formalmente às autoridades brasileiras. Etimad está grávida de três meses e sofre de anemia severa; a criança também apresenta problemas de saúde.
Assis afirmou que o tratamento dado à família palestina contrasta com a atuação do Estado brasileiro diante de agentes ligados a “Israel”.
“Esse pessoal saiu de uma zona de guerra. Está muito mais vulnerável do que o povo brasileiro, então deveria ter um tratamento superior, respeito, acolhimento, cuidado. Imagina a quantidade de trauma, de perturbação que a pessoa tem por ter saído da guerra. Você leva adiante toda uma peregrinação, boa parte do trajeto provavelmente a pé, vai para outro país, consegue dinheiro para fazer a viagem, chega aqui, e o mínimo de um governo solidário era abrir as portas”, disse.
O comentarista afirmou ainda que a Polícia Federal ajudou um soldado israelense denunciado por crimes na Faixa de Gaza a deixar o Brasil, enquanto famílias palestinas seguem submetidas a detenções administrativas em aeroportos.
“Isso mostra como o Estado brasileiro inteiro está a serviço de países estrangeiros, dos Estados Unidos, de ‘Israel’, e pior, de países estrangeiros que são países opressores, responsáveis pelos massacres e guerras que a gente vê no mundo inteiro”, afirmou.





