O artigo A polarização das eleições e a busca pelos 10% decisivos, de Alberto Cantalice, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (25), parte de uma certeza, a de que Lula enfrentará o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, no segundo turno das próximas eleições.
No artigo, o autor escreve que “A disputa pela faixa presidencial em 2026 será definida pelo atual ocupante do cargo, Lula e o candidato apoiado pelo bolsonarismo Flávio Bolsonaro. Essa pedra já foi cantada por inúmeros comentaristas políticos ou coordenadores de pesquisas de opinião. Apesar do favoritismo de Lula, não existe decisão de véspera. O embate será duríssimo”. Faltou a Cantalice combinar com a burguesia, que parece ter outros planos, e nenhum deles, a princípio, inclui Lula na disputa.
Inicialmente, a ideia era tirar Bolsonaro da corrida, colocá-lo na cadeia e negociar acordo para que este apoiasse um candidato mais ao gosto do grande capital. O nome mais apropriado, à direita, seria aparentemente o de Tarcísio de Freitas, que se vangloria de ser privatizador.
A segunda parte do plano seria desgastar Lula por meio de CPIs ou campanha na grande imprensa, como já se viu inúmeras vezes. Com o desgaste, a ideia é que o presidente desistisse de tentar a reeleição e apoiasse um candidato “alternativo” à esquerda.
Jair Bolsonaro, no entanto, dobrou a aposta e lançou seu filho como pré-candidato. Flávio Bolsonaro tem se esforçado em parecer um bom rapaz para o “mercado”. Seria uma espécie de Bolsonaro que saberia se comportar à mesa.
Pesquisas e legado
Cantalice escreve que “a largada na disputa se dará nos finais do mês de junho. Até lá, seguem as articulações para montagem dos palanques estaduais. O crescimento do principal adversário do candidato do PT foi bafejado, inicialmente, pela transferência de votos do pai (inelegível e preso) para o filho. Um movimento que só não era esperado pelas viúvas da terceira via e da candidatura presidencial natimorta de Tarcísio de Freitas. Só quem não conhece a dinâmica operacional da família Bolsonaro que se iludiu”.
Jair Bolsonaro sabia que poderia transferir seus votos para seu filho, por isso preferiu manter seu capital político dentro da própria família do que emprestar a outro candidato que, no fundo, não deve a ele nenhuma lealdade. E iludido ficou quem quis. A burguesia deu uma cartada, mas tem outras cartas na manga. Tentou primeiro uma, e está pronta para jogar as outras.
Bolsonaro calculou corretamente que, a depender da gestão que um Tarcísio eleito faria, poderia prejudicar sua imagem, pois entraria na história como avalista.
Fenômeno muito diferente aconteceu em 2018, quando o PT se iludiu e, em vez de denunciar o golpe da prisão de Lula e não participar das eleições, achou que Fernando Haddad herdaria as intenções de voto do ex-presidente.
Falta muito, mas…
Cantalice tem razão ao dizer que as pesquisas atuais “medem o momento da ainda distante disputa eleitoral”, e que “seria ilógico e de certo modo até amadorístico, que dirigentes políticos entrassem em modo desespero”. Em seguida, lembra “uma frase recente dita por Lula: ‘Ainda não ganhei, mas vou ganhar’. Experimentado nas disputas políticas, eleito três vezes presidente da República, ele sabe que ainda falta muita água para rolar debaixo da ponte”. Exatamente, muita água vai rolar, mas elas estão dando sinais de que serão turbulentas e podem derrubar a ponte.
Otimista, Cantalice diz que “é no começo da campanha, onde o tempo de TV aberta, rádios e os impulsionamentos nas redes digitais permitirão ‘casar’ as entregas feitas pelo governo, com o mandatário. Coisa que muito justamente é proibida pela legislação brasileira, em períodos não eleitorais”. Elogiar a legislação eleitoral brasileira é uma verdadeira loucura. Além disso, o problema está justamente aí, nas “entregas”.
Até o momento, o governo não entregou praticamente nada além de marketing. Fala em desemprego no nível mais baixo, que a economia vai bem. No entanto, basta andar pelas ruas de São Paulo, por exemplo, para se ver que não vai bem. As famílias estão endividadas, muitas pessoas morando nas ruas e outros tantos trabalhando com entregas de aplicativos. Ou seja, desistiram de tentar um trabalho com carteira assinada. O quadro não é bom.
Para o petista, com a cabeça afundada em planilhas e cálculos, “o processo eleitoral será como tudo indica, decidido por 10% do eleitorado. Já que praticamente um terço está fechado com Lula e outro terço com o Bolsonarismo. Desse terço restante, 20% tendem a não comparecer. Média que vem se mantendo ao longo de muitos pleitos eleitorais”.
Alianças
Além de estar amarrado com o Supremo Tribunal Federal, metido em um grande escândalo que pode arrastar Lula para a areia movediça, o PT está atado a Geraldo Alckmin, Simone Tebet; Eduardo Paes e Rodrigo Pacheco. Enquanto a classe trabalhadora continua a ser negligenciada e capturada pelo bolsonarismo, o petista quer ir mais fundo, diz que “precisa-se manter e ampliar as alianças com os setores do PSD e do MDB e até de partidos do Centrão, que por atração regional precisem estar com Lula”.
É uma política completamente direitista que tem desiludido setores inteiros que depositaram confiança em uma gestão petista na última eleição.
Para surpresa de ninguém, Cantalice afirma que “de muito valerá nessa campanha a previsibilidade e responsabilidade da equipe econômica: Haddad e Tebet, que sob o comando de Lula recuperaram as contas nacionais do descalabro deixado pela dupla Bolsonaro/Guedes”.
Dificilmente juros de 15% ao ano serão um bom cabo eleitoral. A recuperação das contas, embora Cantalice se esquive de dizer, é feita cortando na carne do trabalhador. Isso, seguramente, será explorado pela direita, que terá a grande imprensa e as instituições do Estado a seu favor. O otimismo de Cantalice, portanto, está baseado muito mais na esperança do que em certezas.





