Neoliberalismo

Pesquisa: brasileiros empobreceram e quase 2/3 têm de fazer bico

Além disso, 41% reduziram o consumo de carne e só 34% consomem leite

Em pesquisa realizada em dez capitais, 61% dos entrevistados relataram ter feito bicos nos últimos 12 meses para complementar a renda. O levantamento também registra cortes na compra de alimentos e dificuldades para arcar com saúde e moradia, um retrato distante da melhora de vida anunciada pela propaganda da burguesia e do governo federal.

A alimentação pesa no orçamento de 87% dos entrevistados, e 41% reduziram o consumo de carne. A compra de laticínios diminuiu para 34% e a de hortaliças, para 30%. Já 35% passaram a consumir mais ovos. Saúde e moradia foram mencionadas, cada uma, por 57% entre as despesas que mais comprometem o dinheiro da família.

Os dados são da pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social, do Instituto Cidades Sustentáveis e da Ipsos-Ipec, apoiada pela Fundação Grupo Volkswagen. Foram ouvidos 3.500 usuários da Internet, a partir de 16 anos, residentes nas capitais pesquisadas há pelo menos dois anos.

Dos entrevistados, 73% disseram ter estudado mais que os pais, mas apenas 46% afirmaram ganhar mais do que eles ganhavam na mesma idade. Para 45%, a renda nominal permaneceu igual à do ano anterior.

Faxinas, manutenção e jardinagem estão entre os serviços realizados para conseguir dinheiro adicional. Mesmo esse esforço pode acabar consumido pelas dívidas. “Essa renda extra que entra não se traduz na percepção de melhoria porque muitas famílias estão endividadas, o que consome o poder de compra”, declarou Vitor Hugo Neia, diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, ao O Globo.

Em São Paulo, a parcela dos entrevistados que buscou trabalhos paralelos aumentou cinco pontos percentuais, e 66% perceberam crescimento da fome e da pobreza. No Rio de Janeiro, 62% recorreram a atividades extras.

A deterioração do emprego, dos salários e dos serviços públicos é consequência da política neoliberal aplicada no Brasil desde os anos 1990, especialmente por Fernando Henrique Cardoso e pelo PSDB. As privatizações entregaram empresas e serviços aos capitalistas. O ajuste fiscal impôs limites às despesas com a população para atender às exigências dos banqueiros que sugam as riquezas da nação.

Lula e o PT não reverteram essa orientação. Os programas sociais aliviaram necessidades imediatas, mas os governos petistas mantiveram o orçamento subordinado aos compromissos com o capital financeiro. No mandato atual, o governo aprofunda essa política com restrições aos salários, redução de recursos sociais e concessões de infraestrutura.

A proposta inicial de Orçamento para 2027 destinou R$157,1 bilhões ao Bolsa Família, abaixo da previsão da proposta de 2026, e não incluiu reajuste do benefício. No funcionalismo, o gatilho do arcabouço fiscal acionado pelo déficit limita o crescimento das despesas com pessoal a 0,6% acima da inflação. O teto incide sobre o gasto total e restringe o espaço para aumentos salariais e contratações.

Ontem, Lula anunciou um reajuste do piso do Bolsa Família, de R$600 para R$691, com pagamentos a partir de outubro. A mudança exigirá a revisão da proposta orçamentária. As demais restrições aos gastos sociais continuam em vigor.

Na saúde e na educação, o governo autorizou mudanças que permitem retirar recursos das duas áreas em 2027. A Lei Complementar 235, sancionada por Lula em 27 de agosto, altera a destinação de receitas e o cálculo de despesas mínimas. O Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento estima uma perda de até R$16,6 bilhões no próximo ano em comparação com as regras anteriores. O cálculo foi divulgado pelo Estadão.

A redução atinge serviços que deveriam aliviar o orçamento doméstico. Se o atendimento público falta, quem dispõe de dinheiro paga pela consulta ou pelo exame; os demais aguardam. O governo restringe o financiamento justamente de uma das necessidades que mais pesam para as famílias ouvidas pela pesquisa.

Para discutir novos ajustes, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou interlocutores da terapia do choque de FHC. Em agosto, a Folha noticiou a preparação de consultas a Pedro Malan e Armínio Fraga sobre um possível quarto mandato de Lula. Malan comandou a Fazenda durante os oito anos do governo tucano; Fraga presidiu o Banco Central no segundo mandato.

Em evento do BTG Pactual, no dia 31 de agosto, o ministro prometeu superávits primários crescentes a partir de 2027, defendeu a manutenção do arcabouço e a contenção do crescimento das despesas obrigatórias. O objetivo é arrecadar mais do que se gasta antes do pagamento dos juros da dívida. Salários, aposentadorias e serviços públicos ficam sujeitos a esse compromisso assumido diante dos banqueiros.

As aposentadorias e pensões já entraram nas discussões. O Valor Econômico relatou avaliações de integrantes da equipe econômica sobre conceder aos benefícios ganhos reais menores que os do salário mínimo dos trabalhadores da ativa. A mudança reduziria os aumentos em relação à regra atual. Durigan negou que a desvinculação estivesse nos planos do governo; nenhuma medida foi aprovada nesse sentido.

O governo também mantém a exploração privada de rodovias e prepara novos projetos ferroviários para os empresários. Em julho, a EPR venceu o leilão de 383 quilômetros da Régis Bittencourt, trecho concedido à Arteris. Nas ferrovias, está previsto para dezembro o leilão do corredor Minas-Rio. A continuidade das concessões preserva o controle empresarial sobre serviços que deveriam ser organizados conforme as necessidades da população.

Nos Correios, Durigan defendeu parcerias privadas para reestruturar a estatal. A venda de patrimônio também faz parte das medidas adotadas. A antiga sede no Centro do Rio foi oferecida em leilão em julho, mas não recebeu propostas naquela ocasião.

Nas propostas para um novo mandato, Lula preservou os compromissos fiscais e deixou de fora a reversão de privatizações e a tarifa zero no transporte público. Também abandonou a defesa da reforma agrária, em uma clara concessão aos latifundiários.

Com essa política, o PT não conseguirá melhorar a vida do povo. Pelo contrário, a situação tende a se agravar, à medida que os banqueiros e grandes capitalistas avançam sobre o governo e a esquerda, que cede e se transforma em velocidade acelerada em uma espécie de social democracia europeia, que abandonou as reivindicações dos trabalhadores e governa inteiramente para o grande capital

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