Driss Mrani

Fundador e presidente do Movimento Progressista Marroquino, que visa promover princípios progressistas no Marrocos derrubando a monarquia totalitária que serve ao imperialismo e, então, estabelecer uma república democrática na qual todos os segmentos do povo marroquino participem sem descriminação

Coluna

Perseguição, vigilância e o direito de não viver sob medo

Se aquilo que presenciei foi apenas uma sucessão de coincidências, que assim seja demonstrado.

O episódio que relato neste artigo ocorreu na segunda-feira, 10 de agosto de 2026, aproximadamente entre 19h05 e 19h15, em Brasília. Pela gravidade do que vivenciei, considero necessário registrá-lo publicamente e também encaminhar às autoridades brasileiras as evidências que consegui reunir.

Na ocasião, percebi o que interpretei como uma perseguição por dois homens cuja identidade desconheço. Não posso afirmar, neste momento, quem são essas pessoas ou a que órgão eventualmente estariam vinculadas. O que posso afirmar é aquilo que presenciei, registrei e pretendo apresentar às autoridades competentes.

A situação começou a se tornar particularmente preocupante quando os dois indivíduos aparentemente passaram a acompanhar meus deslocamentos. Em determinado momento, eles me encurralaram nas proximidades dos banheiros do Venâncio Shopping, em Brasília. O estabelecimento está localizado no Setor Comercial Sul, na Asa Sul.

Um dos homens permaneceu dentro do banheiro, enquanto o outro ficou nas proximidades da entrada. Diante da situação, procurei manter a calma. Em vez de entrar em confronto ou provocar qualquer incidente, comecei a registrar imagens discretamente, inclusive por baixo da porta do box, justamente para preservar possíveis evidências.

Em determinado momento, o homem que estava dentro do banheiro percebeu que eu poderia estar registrando sua presença e deixou o local.

Ao sair do box, fui lavar as mãos. O segundo homem também estava lavando as mãos, mas permaneceu no local por mais tempo, aparentemente aguardando que eu saísse para continuar me acompanhando.

Decidi então deixar o banheiro. Quando a porta terminou de fechar, voltei pelo caminho contrário, justamente para evitar ser seguido e, ao mesmo tempo, verificar se minha suspeita de que aquele homem estava me acompanhando tinha fundamento.

Em seguida, fui até um bebedouro próximo e comecei a beber água. Pouco depois, o homem saiu do banheiro, olhou para os dois lados e, em vez de seguir seu caminho ou deixar o local, dirigiu-se também na direção do bebedouro. Naquele momento, considerei que tinha uma indicação muito mais concreta de que ele estava acompanhando meus movimentos.

Então peguei o celular e simulei estar respondendo mensagens, permanecendo deliberadamente atrás dele. Minha intenção era observar seus próximos movimentos e, se possível, registrar sua imagem, sem confrontá-lo diretamente. Ele terminou de beber água e continuou seu deslocamento.

O que ocorreu posteriormente me chamou ainda mais atenção. O indivíduo caminhou deliberadamente de forma a manter uma determinada distância de mim, aparentemente tentando fazer com que eu permanecesse à sua frente.

Decidi então modificar novamente meu próprio deslocamento. Em vez de simplesmente continuar caminhando, permaneci próximo à saída do shopping e observei sua reação. O homem percebeu que eu estava registrando seus movimentos e mudou novamente de direção, utilizando a escada para acessar o primeiro andar.

Posteriormente, ele entrou novamente em um banheiro.

Foi nesse momento que consegui registrar imagens mais claras de seu rosto.

Não pretendo transformar uma situação grave em espetáculo. Pelo contrário. Minha intenção ao registrar essas imagens foi preservar evidências para que possam ser analisadas pelas autoridades brasileiras. Fotografias e vídeos, quando existentes, podem ajudar a esclarecer uma ocorrência e permitir que uma investigação determine quem eram aquelas pessoas, o que faziam no local e se houve ou não uma perseguição deliberada.

Depois de conseguir me afastar daquela situação, procurei permanecer próximo a uma viatura da Polícia Militar, em uma área próxima ao posto da Torre, até ter segurança de que não estava mais sendo acompanhado. Naquele momento, porém, optei por não envolver diretamente os policiais militares na ocorrência, pois minha intenção era formalizar posteriormente o relato perante as autoridades federais.

É importante fazer uma distinção: não afirmo que os indivíduos eram agentes de inteligência ou integrantes de alguma agência estatal. Essa é uma hipótese decorrente da forma como interpretei os acontecimentos, mas cabe às autoridades investigar e identificar os envolvidos.

O que considero inaceitável é que qualquer pessoa, independentemente de sua nacionalidade ou posição política, tenha de viver sob a sensação de estar sendo seguida, observada ou intimidada.

Sou uma pessoa que possui atividade política pública e conhecida. Tenho minhas posições, minhas convicções e minha atuação política, mas isso não significa que alguém tenha o direito de me perseguir, intimidar ou vigiar ilegalmente.

Em uma democracia, divergência política não pode ser confundida com autorização para perseguição clandestina.

Se houve apenas uma coincidência ou um mal-entendido, uma investigação poderá esclarecer isso. Se, ao contrário, houve realmente uma operação de vigilância ou perseguição, é fundamental que as instituições brasileiras saibam quem esteve envolvido, por qual motivo e a serviço de quem.

Por isso, decidi preservar os registros e apresentar as imagens às autoridades. Não cabe a mim substituir uma investigação policial. Cabe-me registrar os fatos, preservar as evidências e exigir que sejam devidamente apurados.

O episódio também serve para lembrar algo elementar: ninguém deveria precisar desenvolver estratégias de fuga, observar portas, memorizar trajetos ou registrar desconhecidos para simplesmente conseguir voltar para casa em segurança.

A democracia não se sustenta apenas pelo direito de votar ou de falar. Ela também depende da garantia de que cidadãos possam exercer suas atividades políticas sem medo de perseguição, intimidação ou vigilância ilegal.

Se aquilo que presenciei foi apenas uma sucessão de coincidências, que assim seja demonstrado. Mas, se houve uma perseguição organizada, espero que as instituições brasileiras tenham a seriedade necessária para investigar e esclarecer os fatos.

A resposta democrática diante de uma suspeita não é o silêncio. É a investigação, a prova e a responsabilização quando houver crime.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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