O artigo PCM: Lutar contra o imperialismo, desmascarar o oportunismo, fortalecer o caráter de classe da luta anti-imperialista, publicado no sítio Em defesa do comunismo no dia 2 de fevereiro, traz uma concepção no início que pode levar a muita confusão, especialmente porque em determinado trecho do texto, como veremos, tratam a questão da Venezuela como um choque inter-imperialista.
O texto é de autoria do Comitê Regional do Partido Comunista do México (PCM) na Península de Yucatán. No trecho inicial, diz que “A guerra imperialista contra os povos não se explica pelos atos de um governo isolado, possui um caráter de classe definido. Não há interesse, portanto, na defesa nacional, pois à burguesia importam só seus interesses econômicos”.
Considerando o que foi escrito como em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, a guerra é uma ferramenta da burguesia para conquistar novos mercados, matérias-primas e esferas de influência e impor seu domínio.
No caso de guerras inter-imperialistas, como a I Guerra Mundial (1914-1918), Lênin alertou que havia aí uma armadilha. Em nome da “defesa da pátria”, as elites convenceram os trabalhadores a lutarem pelos interesses da burguesia.
Lênin estava certo, em vez de transformarem a guerra imperialista em guerra civil, ou seja, derrotar os próprios governos e abrir caminho para a revolução. No entanto, muitos partidos socialistas traíram os trabalhadores e apoiaram os governos de seus países. No que ficou conhecido como “nacional-patriotismo”.
Por outro lado, o marxismo defende as guerras justas, como em uma guerra de libertação nacional. Para Lênin, se a Índia lutasse contra a Inglaterra para se tornar independente, essa seria uma guerra justa, mesmo que a Índia fosse liderada por uma burguesia local, pois enfraqueceria o imperialismo mundial.
O mesmo conceito encontramos em Trótski, que disse em sua entrevista a Mateo Fossa, que “Existe atualmente no Brasil um regime semi-fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto, que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil ‘fascista’ contra a Inglaterra ‘democrática’. Por quê? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse, ela colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. É preciso não ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões por trás de qualquer máscara que eles utilizem!”.
Ataque à Venezuela
Sobre o que ocorreu na Venezuela, o ataque ao país e sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cília Flores, o texto demonstra sua incompreensão do que seja o imperialismo. Diz que “esses fatos não se enquadram em uma política binacional nem em um conflito estritamente bilateral entre os Estados Unidos e a Venezuela. Eles estão ligados ao conflito inter-imperialista que hoje ameaça desaguar em uma guerra imperialista generalizada”.
Em seguida, completam dizendo que “o polo imperialista liderado pela China e pela Rússia havia conseguido posicionar interesses estratégicos no sul do continente americano por meio dos chamados governos progressistas. Esse golpe e os acontecimentos posteriores à posse de Delcy Rodríguez permitem observar com clareza o alinhamento geopolítico que se busca impor e reordenar na região”.
Essa concepção é completamente absurda. O imperialismo, uma vez consolidado, com a partilha concluída, jamais aceitaria a formação de outro polo imperialista para com ele repartilhar mercados e recursos mundiais. Isso está fora de questão.
Basta ver que tanto a Rússia quanto a China são assediadas pelo imperialismo. A OTAN nunca deixou de expandir em direção a Moscou, o que obrigou os russos a enfrentarem a Ucrânia em uma guerra por procuração.
A China, por sua vez, além do assédio a Taiauan, tem sofrido com investidas separatistas na região de Xin Jiang por parte do imperialismo, bem como a formação de alianças militares.
Lembrando que ambos os países sofrem sanções econômicas, o que seria inconcebível se esses realmente compusessem um bloco imperialista. Essa falsa concepção tem servido apenas como desculpa para que a esquerda não se oponha ao verdadeiro imperialismo. Essa posição serve também para enfraquecer a defesa de países como a Venezuela e o Irã.
Oportunismo
O PCM diz que “setores do oportunismo estão tentando se aproveitar dessa situação. Diante das ameaças de Trump de intervir no México, eles conclamam a uma suposta defesa da soberania nacional por meio do apoio incondicional à presidenta Claudia Sheinbaum, a quem colocam discursivamente no campo progressista da América Latina” e acusam o governo de estar “completamente alinhado, não apenas no plano ideológico, mas também por meio de tratados comerciais concretos e compromissos materiais, ao polo imperialista”.
Em seguida, recorrem a Lênin para dizer que o México “também está inserido na fase imperialista do capitalismo”, o que não significa que seja um país imperialista, muito pelo contrário, é um país sob ameaça constante dos Estados Unidos, principal país do imperialismo.
Conforme os EUA pressionam ou ameaçam o México, o dever de um partido comunista é se juntar na luta contra os agressores. O que o PCM faz no texto é um malabarismo para se fugir da luta e ainda coloca a culpa em Lênin. Isso fica claro no trecho que diz que “enquanto a classe trabalhadora não conseguir erradicar o capitalismo de seu país, ela não tem pátria e é explorada da mesma forma no México, na Venezuela e em qualquer ponto do mundo capitalista”. Uma falsificação evidente.
O PCM sabe, ou deveria saber, que se acovardar na luta contra o imperialismo é o mesmo que apoiá-lo, por mais que tente se esconder atrás de frases torcidas.





