O governo do Afeganistão denunciou que o Paquistão bombardeou na noite de segunda-feira (16) o Hospital Omar de Tratamento de Dependentes Químicos, em Cabul, assassinando ao menos 400 pessoas e ferindo cerca de 250. Segundo as autoridades afegãs, o alvo atingido era uma unidade civil com dois mil leitos, e todos os mortos e feridos eram civis.
O ataque ocorreu por volta das 21h no horário local. Hamdullah Fitrat, vice-porta-voz do governo afegão, informou que grandes partes do hospital foram destruídas e que equipes de resgate seguiram trabalhando para conter o incêndio e retirar corpos dos escombros. Em imagens divulgadas por emissoras locais, bombeiros aparecem tentando apagar as chamas no meio da destruição.
Também na segunda-feira (16), Zabihullah Mujahid, porta-voz do governo afegão, afirmou que o Paquistão voltou a violar o espaço aéreo do país e atingiu um hospital de reabilitação em Cabul. Segundo ele, o bombardeio constitui “um ato contrário a todos os princípios aceitos” e “um crime contra a humanidade”.
Uma testemunha ouvida pela agência AFP relatou que aviões sobrevoavam a área antes do ataque. Omid Stanikzai, segurança do hospital, disse que havia unidades militares nas proximidades e que, depois de disparos contra a aeronave, as bombas foram lançadas e o prédio pegou fogo. Segundo ele, todas as vítimas eram civis.
O governo do Paquistão negou ter atacado o hospital e declarou que seus bombardeios atingiram apenas instalações militares em Cabul e na província de Nangarhar. O Ministério da Informação paquistanês afirmou que a ação teve como alvo depósitos de equipamentos, munições e estruturas de apoio ligados ao governo afegão e a combatentes paquistaneses instalados no Afeganistão. O governo paquistanês sustentou ainda que a ação teria sido conduzida de forma “precisa”.
A denúncia afegã foi feita poucas horas depois de uma nova escalada dos confrontos na fronteira entre os dois países. Mais cedo, autoridades do Afeganistão informaram que disparos vindos do lado paquistanês atingiram aldeias na província de Khost, no sudeste do país, assassinando quatro pessoas, entre elas duas crianças, e ferindo outras 10. Segundo o porta-voz provincial Mustaghfar Gurbaz, morteiros destruíram várias casas.
A guerra entre Afeganistão e Paquistão entrou agora na terceira semana. A atual fase do conflito começou no mês passado, quando o Paquistão lançou ataques aéreos em território afegão sob a alegação de que visava grupos armados. O governo afegão denunciou violação de sua soberania e respondeu com ataques próprios, rompendo na prática o cessar-fogo mediado pelo Catar em outubro.
Na segunda-feira (16), o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade uma resolução pedindo ao governo afegão que intensifique o combate ao terrorismo. O texto não menciona o Paquistão, mas condena ataques realizados a partir do território afegão. O governo paquistanês tem usado esse argumento para sustentar que Cabul abrigaria grupos armados, sobretudo o Tehrik-i-Taliban Pakistan. O governo do Afeganistão rejeita essa versão.
Também na segunda-feira (16), a China informou que seu enviado especial passou uma semana tentando mediar entre os dois lados e defendeu um cessar-fogo imediato. As tentativas de mediação, porém, não surtiram efeito. Não há até agora qualquer sinal concreto de recuo militar de um lado ou de outro.
O confronto já provocou forte deslocamento da população. No domingo (15), o Programa Mundial de Alimentos informou ter começado a mobilizar assistência urgente para mais de 20 mil famílias obrigadas a abandonar suas casas no Afeganistão por causa da guerra.
Os dois governos também seguem divulgando números conflitantes sobre as baixas militares. O ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, declarou no domingo (15) que os militares paquistaneses assassinaram 684 combatentes afegãos. O governo do Afeganistão rejeitou esse número. Por sua vez, o Ministério da Defesa afegão informou que mais de 100 soldados paquistaneses foram eliminados.
O bombardeio contra o Hospital Omar marca uma nova escalada no conflito. Segundo a denúncia do governo afegão, o Paquistão atingiu diretamente uma unidade de saúde em Cabul, matou centenas de civis e ampliou ainda mais uma guerra que já vinha se intensificando na fronteira entre os dois países.



